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Protagonistas não hegemônicos

"Anatomia do paraíso", de Beatriz Bracher, e "Reza de mãe", de Allan da Rosa, focam na construção de personagens marginalizados

TEXTO Marina Moura

01 de Fevereiro de 2017

"Em ambas as obras, há a representação de trabalhadores negros em suas especificidades, e não como um conjunto."

Ilustração Hallina Beltrão

[conteúdo da ed. 194 | fevereiro 2017] 

O sociólogo francês Pierre Bourdieu observou que “entre as censuras mais eficazes e mais bem-dissimuladas situam-se aquelas que consistem em excluir certos agentes de comunicação excluindo-os dos grupos que falam ou das posições de onde se fala com autoridade”. A literatura, como aliás todas as modalidades artísticas, pode servir também como espaço de legitimação do discurso dominante, e, neste caso, padecer de uma limitação de perspectiva. Quem é, de onde e para quem fala, neste Brasil tão diverso e tão pouco representativo, o indivíduo ficcional? O homem branco, classe média, heterossexual e urbano. Eis o perfil clássico do personagem e/ou narrador do discurso literário brasileiro contemporâneo, é o que concluiu um levantamento coordenado pela professora do Departamento de Letras da Universidade de Brasília (UnB) Regina Dalcastagnè.

Ao longo de 15 anos de pesquisa, foram lidos e catalogados contos e romances publicados entre 1990 e 2004 pelas principais editoras nacionais, e mais de 1.200 personagens, autores e prêmios, analisados. O resultado está no livro Literatura brasileira contemporânea: um território contestado (Editora Horizonte, 2012), que atesta e destrincha a pouca pluralidade das vozes narrativas. Alguns números revelam tal conclusão: mulheres representam menos de 30% das personagens das obras; 79,8% das personagens de ambos os sexos são brancas; enquanto isso, negros, mestiços, orientais e indígenas não chegam a 16%.

Se esses dados são desanimadores, na medida em que prevalecem nas narrativas recentes, é preciso celebrar obras que contradizem o quadro hegemônico, como dois livros recentes, cujo esforço de sair deste terreno, ainda que em diferentes medidas, dá-se pela construção de personagens em geral marginalizados das narrativas. São eles Anatomia do paraíso, romance de Beatriz Bracher (Editora 34, 2015), e Reza de mãe (Editora Nós, 2016), livro de contos de Allan da Rosa.

Em ambas as obras, há a representação de trabalhadores negros em suas especificidades, e não como um conjunto. Aqui, cabe a observação feita por Regina Dalcastagnè, em seu artigo Uma voz ao sol: “A categoria ‘trabalhador’ (ou ‘suburbano’, ‘marginal’, ‘malandro’, conforme o caso) pretende condensar numa só abstração um conjunto de milhares de experiências vividas, como se fossem uniformes. O fato é que os autores brasileiros se mostram muito mais sensíveis à variedade das vivências dos estratos sociais mais próximos ao seu. Mesmo quando se propõem a organizar alguma espécie de painel da vida contemporânea, é comum ver esmiuçadas as minúsculas variações do estilo de vida das classes médias, enquanto que a existência das multidões de pobres é chapada, como se a diferença que separa um médico de um advogado fosse mais significativa do que aquela que afasta um balconista de lanchonete de um motorista de ônibus”.

ENREDOS
A tessitura de Anatomia do paraíso é composta por capítulos que se alternam e mudam consigo o foco representativo: ora a narradora se debruça sobre Félix, jovem estudante universitário, branco, de classe média que mora num quarto e sala em Copacabana e escreve sobre o poema épico Paraíso perdido, de John Milton; ora centra-se em sua vizinha, Vanda, que precisa conciliar dois trabalhos e os estudos para o vestibular, além de ser responsável pela criação de sua irmã mais nova. Entre eles, pouquíssimas cenas em comum e uma personagem que transita pelos dois contextos: a adolescente Maria Joana, ou Jojô. Uma das leituras possíveis do romance de Bracher é de igualar os protagonistas em realidades diametralmente opostas. Ele, que é financeiramente dependente da família, é tomado de preocupações quase sempre de ordem metafísica e recorre a uma série de micropersonagens para servi-lo: há sempre alguém para cozinhar, lavar, limpar, ler, fazer curativos, cuidar de Félix. Já Vanda, entre o emprego de técnica do Instituto Médico Legal (IML) e instrutora de uma academia, vive com o aluguel atrasado e lida com a perspectiva de ter que sair de lá em meio a uma gravidez não planejada.

Nas 14 narrativas de Reza de mãe, há personagens e espaços que se repetem ou não, apresentados em uma linguagem associada à periferia. Com um domínio discursivo exemplar, Allan da Rosa alterna os tons e modos de narrar, em primeira ou terceira pessoa, seja em forma de crônica, conto ou poesia. Assim, vislumbramos Valdeci, “vendedor de guloseimas na saída dos colégios pagos em euro”; Nefertiti se masturbando no chuveiro enquanto a apressam do lado de fora; Seu Tebas de Jenê, ex-pedreiro que mantinha a obsessão de esfregar bem as mãos para tirar a “laje”, motivo de vergonha para sua filha; ou Valagume, prestes a ser morto pela polícia. Esses são apenas alguns dos personagens de Reza de mãe, e, a despeito da situação precária em que vivem, não são de modo algum postos como uma massa informe de vítimas.

CONTRADISCURSOS
É da teoria e crítica do regionalismo que Regina Dalcastagnè toma emprestados alguns termos para analisar e classificar as especificidades de narrativas contemporâneas que incluem os marginalizados, isto é, “o outro”. Há quem conduza suas narrativas de modo exótico, numa oscilação entre o cínico e o piegas, na reprodução de preconceitos, por exemplo. “Escapar a esses discursos, já prontos e enraizados, talvez seja tão difícil quanto imaginar cada um desses homens ou mulheres que vemos trabalhando pelas ruas – varrendo, consertando coisas, dirigindo ônibus – como alguém com uma história, um passado, projetos e sonhos, parecidos ou não com os nossos”, sublinha a pesquisadora.

A outra possibilidade para lidar com tais indivíduos é de modo crítico. No caso de Anatomia do paraíso, o estranhamento entre o intelectual, representado por Félix, e a massa, encabeçada por Vanda, e a convivência não pacífica entre eles deixam claro que o lugar de fala da narradora é permeado por uma condição de quem mantém certa distância de um contexto marginal. Não à toa, a trama se passa em um bairro nobre da capital carioca. No entanto, Beatriz Bracher, ao optar por uma narrativa aparentemente neutra e repleta de detalhes, com uma disposição minuciosa da rotina e dos objetos que circundam as personagens (sabemos, por exemplo, o que Vanda carrega na mochila ao sair de casa, e saber disso já nos diz de sua jornada tripla), apresenta-nos um retrato bastante convincente e lúcido do abismo social, mesmo entre duas pessoas que moram no mesmo prédio-com-elevador-perto-da-praia.

Um terceiro modo de tratar literariamente essas vozes minoritárias é conceber uma narrativa a partir da perspectiva de um olhar “de dentro” da periferia, numa galeria de personagens que se mostram pela própria linguagem, numa espécie de autorrepresentação discursiva, como é o caso dos indivíduos de Reza de mãe. “Apesar do continente que separa meu moletom do seu colete à prova de balas, nossa cor nos une e compreendo sua grandeza ancestral”, diz Caçú a um policial, no conto O iludido. Vemos, assim, sujeitos com vida própria, sem mediações de narradores mais cultos ou sem fazer parte da paisagem do homem branco. A complexidade deles é evidenciada na fala de um dos personagens, para quem não existem apenas as opções simplistas entre “vencer na vida” ou lutar coletivamente por uma mudança de status: “Uns têm crença na guerreiragem individual, esforço de titã e de monge, alpinista de elevador pra cargo bom, vai subir e assinar o destino de vencedor. Outros pregam a força do povo unido, única vereda para reverter a vampiragem e desfrutar junto de escola a lousa, banheiro sem fedô, churrasco sem miséria, beira de piscina, talvez um veleiro… Quem tem mais sapiência? Quem molha mais o pé na poça da ilusão?”.

Tanto em Anatomia do paraíso como em Reza de mãe é interessante ver, ainda, a maneira como é tratado o corpo negro feminino. A sexualização precoce e o abuso no seio familiar estão presentes em ambas as narrativas, com situações perversas vividas pelas adolescentes Maria Joana (na obra de Bracher) e Lavanda (no conto homônimo de Rosa). A escolha ou não pela maternidade e suas consequências também estão colocadas nos enredos. Não importa se opta por continuar a gravidez (é o caso de Vanda) ou interrompê-la (como Amora, em Jogo da velha), à mulher negra e periférica destina-se o estigma da maternidade sem a figura do pai ou o aborto clandestino (“se tirassem feto de homem, já estava aprovado desde o tempo das pirâmides”, declara o personagem de Rosa). Como diz Vanda, em determinado momento do romance de Bracher, “em geral a gente resiste, o mais normal é isso, a gente resiste e passa”. E é justo à resistência que se referem as duas obras analisadas, das exigências práticas pelas quais clamam e nos colocam, enquanto leitores, em contato com diferentes perspectivas sociais, sem neutralizá-las ou estereotipá-las. Nesse sentido, os autores Beatriz Bracher e Allan da Rosa contribuem para o alargamento do debate literário, quando entendem que minorias econômicas, raciais e de gênero precisam urgentemente de representação na sociedade e na literatura, duas instâncias da diversidade do mundo que necessitam reformular seus discursos de hegemonia. 

 

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