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Nariz entupido

TEXTO José Cláudio

01 de Fevereiro de 2017

Miguel Arraes e Violeta Arraes Gervaiseaux

Miguel Arraes e Violeta Arraes Gervaiseaux

Foto reprodução

[conteúdo da ed. 194 | fevereiro 2017]

Quem matou a charada, se se pode chamar de “charada” coisa de tamanha seriedade, foi Ricardo, tão jovem, marido de minha neta. “É nariz entupido”, ele disse, “isso é nariz entupido”. Fiquei admirado de uma pessoa nova, aí pelos trinta, calculo, já saber dessas coisas, quando a mim tais fatos somente ocorreram, e eu sem saber a que atribuir, depois dos oitenta e quatro entrando para oitenta e cinco anos. A geração mais nova começa a saber das coisas mais cedo, concluí. Acho que hoje foi a segunda ou terceira vez que tive isso. Até me lembrei, durante o próprio “pesadelo”, chamemo-lo assim, da pergunta de Ivan Ilitch no leito de morte: “Então é assim que se morre?” Não sei se vai dar para interromper a leitura dos robustos volumes do Diário de Francisco Brennand, de que não consigo largar, para ler A morte de Ivan Ilitch como faço todo início de ano religiosamente, para não me esquecer de como se escreve, com mil perdões para a ingenuidade.

Também vi na televisão uma reportagem sobre algo parecido, e que ocorria, explicava um médico, quando a mente acorda antes do corpo, manda a ordem de acordar para os outros órgãos e estes não obedecem de pronto. Você, por exemplo, quer se levantar mas as pernas, as mãos, os braços, ignoram essa sua vontade. A gente tenta agarrar em alguma coisa, na grade da cama, na beira do colchão, para erguer o corpo mas este continua paralisado. Você ao mesmo tempo não consegue respirar. Não tenho ideia de quanto tempo demora essa sensação, talvez frações de segundo, mas que dura uma eternidade: sim, eternidade ipsis litteris, porque não sabemos quando, e se, dela sairemos. Lembrei de Joca Souza Leão nos ter descrito alguma coisa assim. A passar por outro momento desse, ele sinceramente preferiria morrer.

As pessoas que deram depoimento, na reportagem de televisão a que me referi, eram gente jovem, dois rapazes, que me lembre, e contavam rindo o sucedido como se não passasse de brincadeira. Bela juventude. Nós, velhos, pensamos logo na maldita. De fato o médico da reportagem disse não haver consequência nenhuma.

Tal “pesadelo” que me ocorreu hoje, e aqui descrevo, começou de uma maneira totalmente insólita, eu dizendo ao meu primo Béco (Albérico) que raramente via, a última vez já faz uns sessenta anos, que eu não admitiria rebeliões: quando eu o convidasse para almoçar, não aceitaria recusas, mesmo que ele usasse como justificativa – veja que conversa sem pé nem cabeça – ir se casar; nesse exato momento descubro que Béco havia muito tempo falecera e que eu próprio não estava conseguindo respirar, talvez estivesse morrendo ou, quem sabe, já tivesse morrido. Vi então o desespero, tentando me levantar – pois aí me vinha a consciência de estar deitado dormindo –, sem conseguir.

Na vez imediatamente anterior, poucos dias antes, ou noites, pois só costumo dormir de noite, gritei duas vezes “Léo! Léo!” tão alto que ela ouviu do outro quarto e veio ver o que era (depois que os meninos casaram, ela dorme num quarto e eu noutro). Mas quando gritei já havia despertado e ela me encontrou em pé junto da cama meio sem saber dizer o que havia acontecido. “Léo” é, desde criança, o apelido de minha mulher Leonice.

Depois do palpite de Ricardo, Leonice comprou logo dois Sorine, desentupidor de nariz, um para ficar no meu quarto e outro no dela. Pensando melhor, mais calmo, depois desse acordar no meio da noite, me deu impressão também de ter comido demais no jantar, uma ótima sopa de peixe: meu jantar agora se resume a uma sopa, de feijão, de espinafre, de alho-poró, de couve (caldo verde) e outras menos votadas. Diria que esses dois fatores estão associados: nariz entupido e algum empachamento. “Quem eras tu”, digo de mim para mim, “que te empanturravas a qualquer hora do dia ou da noite!” Tem duas coisas que, eu acreditava, a velhice, se a ela chegasse, me traria de bom: comer pouco e dormir pouco. Ledo engano. E olhe que, diabético, vivo em luta constante para emagrecer.

Deixemos tais ensaios de morrer, quem sabe influência de tanta gente boa que morreu neste dezembro de 2016 em que escrevo. Pulo para um nascimento, mas que também não deixa de ser notícia de morte: o centenário de nascimento de Miguel Arraes, falecido há alguns anos. Me lembro do dia em que ouvi pela primeira vez esse nome “Arraes”. Era o verão de 1958 na Europa. Encontrava-me em Paris. Tanto que, nesse francês meio esquecido que aprendera no Marista, ao ler a grafia “arraes” julguei pronunciar-se “arré”. Fui imediatamente corrigido pela dona do nome, Violeta Arraes, perguntando-me ela se eu era do Recife e se nunca tinha ouvido falar em Miguel Arraes. Sim, eu era do Recife mas no nome de Miguel Arraes nunca tinha ouvido falar. Qual era mesmo o endereço? Avenue de Versailles. Auteuil. Passei vários meses em Paris mas, por andar sempre de metrô, por cima do chão só conhecia o Louvre, Notre-Dame e um ou outro trecho do Boulevard St. Michel e do St. Germain. Através de um amigo, que tomava conta de casas de brasileiros de férias, acabei morando em três lugares ao mesmo tempo, sendo um desses a casa de Violeta Arraes Gervaiseaux. Sempre fui distraído em matéria de política. Nessa mesma temporada, em Bruxelas, não sabia quem era o presidente do Brasil, para espanto de Isaac Gondim Filho com quem convivera em Roma e encontrara casualmente na Expo 58. “Juscelino Kubitschek”, ele disse arregalando os olhos. Teve uma época que resolvi apagar da memória nomes de políticos e seus cargos, coisa que, noto, começa acontecer neste dezembro de 2016. Era melhor quando eu só sabia nome de pintor. 

 

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