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Filmando em campo de imigrantes

Realizadores Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval registraram os refugiados no Calais Jungle, montado – e desmontado – na França

TEXTO Luciana Veras

01 de Fevereiro de 2017

Tendas, barracas e contêineres se espalhavam na sela de Calais; em outubro de 2016, o governo francês mandou derrubar tudo

Tendas, barracas e contêineres se espalhavam na sela de Calais; em outubro de 2016, o governo francês mandou derrubar tudo

Foto Reuters

[conteúdo da ed. 194 | fevereiro 2017]

Em fevereiro de 2016, Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval, um casal de realizadores franceses, começou a frequentar o Calais Jungle, o maior campo de imigrantes e refugiados da França, quiçá do continente europeu. Os dois saíram da sua casa, na Normandia, e percorreram centenas de quilômetros para chegar à cidade que, desde 1999, sediava abrigos para refugiados. Tendo o Canal da Mancha à sua frente, Calais demarca a fronteira marítima com a Inglaterra. Klotz e Perceval queriam documentar a vida daquelas pessoas que integram o vasto contingente em travessia – dados da Organização das Nações Unidas apontam que, ao fim de 2015, havia 65,3 milhões de refugiados em situação de “deslocamento forçado” no planeta.

“Temos muita liberdade para trabalhar nos projetos que escolhemos, pois temos câmeras e uma ilha de edição em casa, então podemos não nos importar com dinheiro. Fazemos filmes sem orçamento algum. Elisabeth e eu mudamos as condições de trabalho para não ter que confiar no sistema do cinema comercial. Essa perspectiva condiciona como as pessoas vão ver os filmes e o dinheiro que financia esses mesmos filmes. Nesse sistema, não se filmam os problemas políticos. Por exemplo, se fôssemos pedir dinheiro para filmar um campo de imigrantes, demoraria muito tempo”, narraria Klotz à Continente oito meses depois.

Corria o mês de outubro de 2016 e ele, jurado na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, estava na capital paulista também para exibir o média-metragem Mata Atlântica. Como em todos os outros títulos já exibidos no festival paulistano, a exemplo de Pária (2000), A ferida (2004), A questão humana (2007) e Low life (2012), tratava-se de uma parceria – Elisabeth roteiriza, Nicolas dirige. Na filmografia do par, evidencia-se o olhar sobre os invisíveis, aqueles que estão à margem da imagem e das representações – os imigrantes, os moradores de rua, “todos os excluídos”, como resumia o cineasta. Mas o foco nunca é reducionista. “Cineastas não são jornalistas e tenho problemas com filmes que tentam apenas fazer jornalismo. Gostamos de cinema, Elisabeth e eu, e trabalhamos nesse sentido”, acrescentou.

Foi sob tal perspectiva que os dois iniciaram o registrar do cotidiano do Calais Jungle (literalmente, “a selva de Calais”), onde cerca de 10 mil imigrantes viviam “em uma cidade construída da lama” em 2014. “Pessoas da Síria, Sudão, Iraque, Afeganistão, do Irã chegavam lá tentando ir até a Inglaterra. Mas a polícia francesa os bloqueava, então eles viviam no campo. Eram essas pessoas que a extrema direita sempre combatia”, observa Klotz. Em março de 2016, o presidente François Hollande determinou que se destruísse metade do campo. Na manhã da sexta-feira em que conversou com a Continente, o diretor lamentava a devastação completa de um lugar “extremamente importante para a Europa e para o mundo” – na segunda-feira anterior, policiais armados com metralhadoras, tratores, escavadeiras e caminhões haviam removido todos os moradores e derrubado tendas, barracas e contêineres que serviam de casa, sob a justificativa de que iriam para abrigos qualificados para recebê-los.      “Hollande falhou muito, matou a esquerda francesa e alimentou a ideia fantasma de que os imigrantes são o mal-estar da sociedade. O campo de Calais era um problema europeu e do mundo inteiro. Agora, é uma terra de ninguém. Temos que quebrar essas ideias de que aquelas pessoas são apenas vítimas pobres e fracas. Não, pelo contrário. A maioria tem entre 15 e 30 anos, são jovens, têm energia para trabalhar, pensam politicamente, falam no WhatsApp, ouvem músicas, gostam de se vestir bem, são fortes e muito bonitos. E têm poder”, analisou Klotz.

Ele recordou as condições em que foram recebidos, “com uma certa hostilidade”, quando iniciaram as visitas ao campo: “Era bem complicado. Por um lado, eles odiavam jornalistas. Por outro, durante o inverno, quando torciam que o acampamento não fosse destruído, estavam contando, de uma certa forma, com a ajuda das pessoas que se dispunham a filmá-los. Tinha gente lá que não queria ser vista pela família na internet, pois diziam que estavam na Inglaterra e, na verdade, estavam em Calais. Outros chegavam e pediam para ser filmados, então nós trazíamos os equipamentos e passávamos um bom tempo com eles. Quando a parte sul foi destruída, eles ficaram muito hostis com qualquer um que parecesse um jornalista. Se vissem a câmera, gritavam ‘fodam-se’ e ‘parem de filmar’ . Foi bem tenso e tínhamos que filmar só as pessoas que já conhecíamos. Mas nunca escondemos a câmera. Gosto de estar com ela à mostra, para que sempre saibam que estamos filmando. De uma certa maneira, eles não nos colocavam no time dos jornalistas, mas não sabiam por que estávamos lá filmando todos os dias”.

As horas de depoimentos e imagens coletadas servirão de mapa para a montagem, “mas sem pressa”. “Fomos ao Calais Jungle porque queríamos documentar aquilo. Buscar os caminhos entre as pessoas que conhecemos lá era, também, a tentativa de achar o nosso caminho dentro do filme que estávamos fazendo. Qual vai ser esse caminho? Vamos descobrir”, pontuou Klotz, para quem o cinema não pode mais ser visto como uma arma revolucionária. “Isso pertence aos anos 1960 e 1970, quando a música, a poesia, a literatura e o teatro convergiam para a mesma direção do cinema – de que seria possível mudar o mundo. Mas nós vimos que o mundo mudou em uma direção completamente oposta”, observou.

O diretor, porém, não se exime da responsabilidade de pensar o cinema à luz dos acontecimentos da contemporaneidade: “É importante nos concentrarmos em que tipo de filme queremos fazer, para que o cinema não desapareça. Onde está escrito, afinal, que o cinema tem que continuar? Você pergunta se o cinema pode ser usado, pelos diretores, como uma arma, mas eu pergunto: o que é uma plateia? Qual a responsabilidade do público diante dos filmes? O cinema pode ser uma arma para os espectadores? Eles vão usar o cinema nas suas vidas, vão refletir, por exemplo, sobre os imigrantes e o tratamento dado a eles pelos países europeus, ou apenas vão para comer pipoca, ver filmes estúpidos e tentar se vestir como os personagens?”. O documentário de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval sobre a selva de Calais ainda não tem título, mas tem um norte: discutir a própria noção de Europa na era em que o Velho Mundo se mostra incapaz de lidar com a massa que lhe pede refúgio, boa parte fugindo das ex-colônias de seus países. “A Europa está morta. Mesmo com a Grã-Bretanha, já estava morta. Aliás, os ingleses nunca estiveram de fato e sempre causaram problemas. O continente, como se pensa e se vive hoje, é uma ideia morta. Quanto mais rápido os políticos profissionais e corruptos da França, que há 30, 40 anos se revezam no governo, saírem do poder, mais rápido algo de novo e esperançoso pode acontecer. Até lá, temos que tentar colocar as pessoas em contato com outras ideias de formação do mundo e lutar contra os algoritmos para achar outras possibilidades de viver”, arrematou o cineasta. 

 

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