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Eita vida besta, meu deus!

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

01 de Fevereiro de 2017

"Praias antes selvagens e paradisíacas reproduziram o caos das cidades, sem projeto urbanístico ou sanitário"

[conteúdo na íntegra | ed. 194 fevereiro 2017]

A praia de Carneiros parece ilha do Caribe, com tudo o que imaginamos existir num paraíso tropical: coqueiros, mangueiras, pés de fruta-pão, pássaros exóticos e manguezais repletos de guaiamuns, caranguejos e ostras. Um braço de mar avança por dentro da floresta de mangues e os pescadores circulam em barcaças, arriscando a sorte com as redes. Nas marés vivas, os nativos saem para pescar tainha e agulha. Se dá sorte, voltam com peixes maiores. Nem digo o tamanho porque vai parecer mentira de pescador.

Olhando-se da capelinha de São Benedito, construída no século XVIII, avista-se as praias de Guadalupe, Sirinhaém, e a ilha de Santo Aleixo, vendida para se transformar num grande resort. Quando as águas baixam, se alcança os arrecifes caminhando pela areia. Quem vê de fora, acha que andamos sobre o mar, como Jesus Cristo. Não sei o que Ele sentiu, mas experimentamos uma leveza sobrenatural.

Carneiros fica no litoral sul de Pernambuco e um trovador cantaria em versos que foi o último baluarte a cair, vencido pelos ataques imobiliários e turísticos. Durante anos, extensas faixas de litoral se mantiveram preservadas nas mãos de algumas poucas famílias. Perverso acaso em que o latifúndio e a propriedade privada contribuíram para a nobre causa da preservação. Com a morte dos velhos senhores, os herdeiros – filhos e netos – estraçalharam os espólios. O grande tornou-se pequeno e o pequeno foi convertido em lotes minúsculos. Extensões de matas nativas e sítios com fruteiras viraram casas e prédios, amontoados urbanos, da noite para o dia.

É possível que me chamem conservador e saudosista. Acho que não sou essas coisas, mas presenciei a destruição do litoral pernambucano com impotência e amargura. Praias antes selvagens e paradisíacas reproduziram o caos das cidades, sem projeto urbanístico ou sanitário. Hotéis, casas e prédios de apartamentos foram levantados em tempo recorde, arbitrariamente, sem nenhum controle ou intervenção das prefeituras, em completa desarmonia com a paisagem, ferindo a estabilidade dos ecossistemas de mangues, florestas e rios. E nada se fez, nada se faz.

– Cara, – argumenta um dono de barco de passeio – vale que incrementou o turismo. Antes, aqui só tinha casebre de palha e pescador. Agora vive cheio de gringo.

Tem razão, encheu de turista. E isso é bom? Até na baixa temporada, dezenas de catamarãs cruzam de um lado para outro, cheios dessa gente com roupa de banho, aparelhos celulares e máquinas fotográficas, a fim de curtir a natureza, ao seu modo, é verdade. Cada embarcação possui uma especialidade sonora. Algumas carregam trio de forró, que não para de tocar um minuto.     Outras levam grupos de axé, frevo, pagode ou batuque. As mais modestas reproduzem CDs, amplificados em caixas volumosas, semelhantes às dos paredões usados em carros e camionetas. Os repertórios, vocês imaginam. Mesmo que se trate de uma partita de Bach ou um adagietto de Mahler, qualquer música fere a sonoridade monótona das ondas e do vento.

A ordem é se divertir, encher a cara, dançar continuamente, gritar alto, empanturrar-se de comidas típicas, tomar sol e expor-se às câmeras dos aparelhos celulares. Há um roteiro que todos cumprem como Via Sacra. O catamarã para em frente à igrejinha de São Benedito, as pessoas descem, posam para retratos (se esforçam para contrair e disfarçar os excessos da barriga), entram seminuas na casa de Deus, fazem novas fotos, sobem no barco, bebem mais, comem mais, gritam decibéis acima do som alto, pois desejam ser escutadas, renovam o protetor solar, posam, fotografam, posam, fotografam, falam nos aparelhos onipresentes com alguém longe e seguem até a segunda estação.

Uma praia com argila medicinal. Alguém inventou que o barro amarelo esfregado na pele faz as pessoas rejuvenescerem. Nesse ponto, o passeio ganha as cores da comédia. Seduzidos pela promessa de se tornarem jovens e revigorados, todos se cobrem de argila. Mais fotos e fotos e fotos. Os fanáticos percorrem enlameados o restante do passeio, risíveis papangus debaixo do sol quente, ao som de Morena tropicana ou Riacho do navio, o hit mais popular nos catamarãs.

Terceira estação, os arrecifes de corais. Nesse santuário conspurcado – desculpem o palavrão que significa sujo, manchado, maculado, infamado, desonrado – eles arrancam tesouros marítimos, escavam entre as rochas e subtraem estrelas do mar, conchas e ouriços, que geralmente esquecem nos barcos como carga inútil. Um nativo instalou a barraca de cerveja, refrigerante e água mineral em meio aos arrecifes e prospera com o seu negócio. Barqueiros aproveitam a pausa e trocam os números dos celulares com turistas mulheres, e alguns homens. A noite existe para curtir a lua, uma bebida quente e o quarto de hotel aconchegante.

E vamos às fotos, com a barriga bem contraída.

A quarta estação dentro dos mangues, a quinta num cruzeiro erguido sobre um penhasco do tempo da colonização (já acabou?), a sexta, a sétima, a oitava… Todas com bastante barulho de fundo para afugentar os peixes e erradicar a pesca nas praias pernambucanas.

Os barqueiros de camisa regata, musculosos, tatuados e bronzeados arremessam anzóis em todas as direções, com a isca infalível do corpo desejável. Quase nunca os novíssimos pescadores se frustram. As iscas retornam mordidas, mesmo que seja por uma gorda albacora ou um bagre velho.

Por último, mais bebida e som alto que ninguém é de ferro.

Tira-se férias para quê? 

 

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