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O impacto no futuro

Pedagogos, produtores e realizadores de vários países, sobretudo os nórdicos, argumentam a favor de uma produção televisiva que priorize as necessidades da infância

TEXTO Maria Eduarda Andrade

01 de Outubro de 2016

A contadora de histórias Carol Levy prepara projeto audiovisual no Recife

A contadora de histórias Carol Levy prepara projeto audiovisual no Recife

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado ao especial da ed. 190 | outubro de 2016]

A educadora australiana Susan Perrow acredita com fervor no benefício de contar histórias para crianças. Com mais de 30 anos de experiência em treinamento de professores e pais, escreveu bastante sobre o assunto e viaja o mundo dando oficinas. No livro Therapeutic storytelling: 101 healing stories for children (em tradução livre, Narrativas terapêuticas: 101 histórias de cura para crianças), cita um antigo índio nativo contador dos Estados Unidos, que sintetizou seu pensamento em relação ao tema da seguinte forma: “Algumas pessoas acreditam que o mundo é feito de átomos. Eu acredito que ele é feito de histórias”.

Num mundo cada vez mais midiático como o nosso, com crianças que nascem dentro de um contexto digital, a linguagem audiovisual pode ser uma excelente ferramenta para a educação sentimental de crianças e jovens. Para o produtor holandês Jan-Willem Bult, o protagonismo infantil é o melhor elo com o público. Segundo ele, observar e ouvir as crianças é fundamental para melhor compreendê-las, etapa essencial para qualquer produção. “Em casos de divórcio, o juiz ainda não escuta o que as crianças pensam e querem. A nossa história é assim, nos esquecemos da posição delas”, afirmou, em entrevista ao portal comKids.

Jan-Willem é diretor da Free Press Unlimited, uma organização não-governamental que produz conteúdo audiovisual para crianças em mais de 16 países. O produtor vem estreitando laços com a América Latina e Brasil. Em 2015, em parceria com a TV Cultura, lançou o Repórter Rá Teen Bum, primeiro programa de notícias brasileiro feito especialmente para crianças, que integra a rede internacional WADADA – News for Kids Network, que fomenta a programação factual para crianças em países como Serra Leoa, Gana e Suriname. Os programas são exibidos na televisão e internet, numa plataforma colaborativa entre os países.

“Você tem uma boa mídia para criança quando as coloca na tela para inspirar as que as assistem em casa. A qualidade dessa mídia reflete a qualidade de uma nação. Podemos ver nos Estados Unidos, por exemplo, em que há uma ênfase capitalista, de mercado. Já no meu país, há um interesse maior em cultura e menos em marketing. Privilegiamos temas que são importantes para as crianças”, diz Jan-Willem.

A Holanda, que disponibiliza recursos governamentais para produção infantil na televisão, é referência internacional em qualidade. Um excelente exemplo é o documentário How Ky turned into Niels (em tradução livre, Como Ky se transformou em Niels), da diretora Els van Driel. O filme convida a audiência a acompanhar o desenrolar da história de uma criança nascida menina que se sentia infeliz com seu corpo. Ela finalmente consegue dizer à mãe, por meio de uma carta, que gostaria de ser chamada pelo nome de menino Niels.

O documentário, feito em colaboração com o protagonista, acompanha as interações sociais da criança em família e na escola, mostrando suas brincadeiras preferidas. Em nenhum momento vemos os aspectos médicos dessa transformação. O foco do filme é o interesse primordial da audiência infantil: a transformação emocional do menino e a necessidade universal de ser aceito e enxergado pelo que se é. Numa cena antológica, Niels e sua amiga Sterre, que, assim como ele, passa por tratamento hormonal, brincam num lago, remando no mesmo barco. Os dois são crianças transgêneras e o recado da cena é claro: elas não estão sozinhas. O filme recebeu o prestigioso prêmio de melhor documentário na categoria de 11 a 15 anos no Prix Jeunesse deste ano.

A Noruega também é referência em abordar questões centrais para crianças. A série Puberty (Puberdade), produzida pela emissora pública NRK, aborda diferentes aspectos desse período que pode ser tão conturbado e intenso. O episódio que fala de vagina e menstruação mostra corpos de meninas e jovens – com as identidades preservadas – para ilustrar as explicações. A apresentadora, que tem formação médica, aborda o conteúdo de um jeito simples, direto e divertido. A câmera mostra, em plano fechado, os lábios de uma vagina de criança sem pelos e outra de adolescente com pelos. A apresentadora desenha com canetas coloridas os ovários e trompas na barriga de uma menina. A série aponta dados científicos sobre a puberdade com leveza, desmistificando aspectos da menstruação. Os episódios estão inteiramente disponíveis no YouTube, com legendas em inglês.

MEMÓRIA DA INFÂNCIA
A pedagoga e pesquisadora Maya Goetz é especialista na relação entre infância e mídia. Com doutorado dedicado ao estudo de gênero nas produções infantis, dirige o Prix Jeunesse Internacional. Numa sessão do festival sobre formação de identidade na infância, Maya fala para uma plateia de realizadores de mais de 30 países. Ao seu lado, o psicanalista infantil Arthur Ballin aponta para uma corda, esticada em toda a extensão do palco, que simula a linha de tempo da vida de uma pessoa. Ele diz o que muita gente já ouviu antes: as experiências emocionais e afetivas dos primeiros anos de vida são decisivas na formação da personalidade do futuro adulto. A imagem da corda é forte: o pedaço da infância é bem curto, se comparado com o tanto de vida que pode restar a uma pessoa. Mas o especialista lembra: apesar de curtos, os primeiros anos reverberam, em cada um, até o fim da vida.

A afirmação dialoga bem com o que diz o personagem José, do livro homônimo e autobiográfico do escritor carioca Rubem Fonseca. José fala da dimensão do espaço que a infância ocupa na vida adulta. “As memórias preservadas desde a infância e que carregamos durante nossa vida são talvez a nossa melhor educação, diz Alyosha Karamázov. E se apenas uma dessas memórias permanece em nosso coração, ela talvez venha a ser, um dia, o instrumento da nossa salvação.”

Voltemos à Alemanha. O que reúne todas as pessoas naquele auditório é o desejo de produzir conteúdo audiovisual de relevância e qualidade para crianças e jovens, em países tão distantes quanto Japão, Bangladesh e Cuba. É o desejo de produzir obras que dialoguem com o público-alvo e que fomentem uma visão mais empática do mundo. A programação do festival traz aspectos culturais e regionais dos diferentes países de produção, mas os filmes exibidos ali, em geral, dialogam com temas universais a todas as crianças: o desejo de ser amado, aceito e enxergado.

Ao falar da importância do trabalho feito por quem está na plateia, o psicanalista alemão, que trata crianças com trauma em seu consultório, se emociona. “Eu queria dizer que o que está acontecendo aqui é das coisas mais importantes que acontecem no mundo. Eu amo vocês por fazerem o que fazem”, disse Arthur Ballin.

Maya é enfática: “Quando as emissoras em que vocês trabalham quiserem investir todo dinheiro de produção em telejornal e programas de esportes, mostrem pra eles a importância de investir em televisão de qualidade para as crianças. Isso tem um enorme impacto no futuro do mundo”.

MUDANÇA NA GRADE
A oferta de programação infantil na televisão comercial aberta vem caindo abruptamente nos últimos anos. O exemplo mais emblemático é o da Rede Globo, que, na década de 1980, exibia horas de programação infantil nas manhãs e, hoje, praticamente extinguiu o conteúdo de sua grade. O SBT é o canal que continua apresentando conteúdo para os pequenos dentro da grade comercial. Na rede pública, a TV Cultura segue sendo uma referência nacional de qualidade e respeito ao público infantil, com diversos programas oferecidos não somente pela manhã. É o caso do premiado Que Monstro te Mordeu dirigido por Cao Hamburguer. O complexo é que, pelo precário sistema de distribuição da TV pública no país, os programas não chegam a todos os lares brasileiros. Muitas vezes, o conteúdo não é exibido para dar espaço à programação de emissoras locais da rede, que nem sempre produzem para crianças.

PRODUÇÃO REGIONAL
Editais específicos para a produção de conteúdo audiovisual independente tornam-se iniciativas fundamentais para diversificar a programação nacional. Por meio do Fundo Setorial do Audiovisual, mecanismo de financiamento regulamentado no final de 2007, a Ancine vem fomentando a produção de conteúdo regional para a audiência infantojuvenil, com o objetivo específico de distribuir programas na rede pública.

A pernambucana Bárbara Cunha teve o projeto Borboletas e Sereias aprovado na última convocação pública do Prodav 09, voltado a fomentar a produção regional do Norte e Nordeste. O projeto é uma série documental com 13 episódios, pensada para crianças entre 8 e 11 anos de idade, que, segundo a realizadora, dará espaço a crianças que fogem da regra heteronormativa, ampliando a importante discussão de gênero. “É um privilégio enorme. Fico emocionada em poder abordar este assunto num momento político tão retrógrado como o que vivemos hoje. São pequenas transformações”, diz a diretora.

Quando se fala em conteúdo audiovisual infantil de qualidade produzido em Pernambuco, o trabalho da contadora de histórias Carol Levy e do produtor musical Carlinhos Borges é referência. “Eu não pensava em trabalhar com televisão. Amo estar no palco, essa é minha verdadeira alegria. A gente criou o canal do YouTube porque precisava ter um link para mostrar o trabalho a possíveis patrocinadores. Mas a coisa foi crescendo naturalmente e percebemos que o audiovisual seria uma ferramenta eficaz pra levar meu trabalho a um público maior. A produção não é nada fácil, mas amo ver o resultado na tela”, conta Carol Levy, que está em fase de finalização do projeto Cata Conto, uma série infantil produzida com recursos do Funcultura que terá sua primeira exibição na TV Pernambuco.

No programa, o saco mágico que a apresentadora costuma carregar fura, e as histórias de dentro dele se perdem pelo Recife. “A série tem 22 episódios. Eu saio catando os contos pela cidade. Em cada episódio, a história vai parar num ponto histórico diferente. A gente aproveita para apresentar um pouco mais do Recife para que as crianças sintam vontade de sair de casa e aproveitar a cidade. Estou feliz com o resultado do trabalho, mas esse foi, de longe, o projeto mais desafiador que fiz até agora. As condições de produção foram muito difíceis para a ambição do projeto”, pontua Levy.

Desde 1º de outubro, a segunda temporada da série de contação de histórias Contarolando, com Carol Levy vai ao ar na Rede Globo em Pernambuco, aos sábados de manhã. O programa é uma joia rara numa grade de programação comercial voltada para adultos. Produzida com recursos da Ancine e com o trabalho de uma equipe de mais de 30 profissionais, a série – que une contação de história à música e dança – oferece ao público um trabalho primoroso. Além da excelência técnica, o programa incentiva a imaginação dos pequenos e oferece versões de histórias da tradição oral. Carol passa horas em sebos e livrarias à procura do que contar para as crianças, já que é ela quem faz suas próprias versões. “Tem muita história maravilhosa adormecida por aí. Meu trabalho é encontrar esses tesouros”, diz.  

 

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