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Ricardo Cavolo

As cores do otimismo

TEXTO MARINA MOURA

01 de Junho de 2016

'Tatuagens', série de desenhos com personagens russos

'Tatuagens', série de desenhos com personagens russos

Imagem Reprodução

Quando garoto, o espanhol Ricardo Cavolo costumava criar muitas histórias. Em vez de escrevê-las, ele as desenhava. No estúdio de pintura do pai, munido de lápis, pincéis e tintas, aos 6 anos, o menino punha em prática o que era então sua brincadeira favorita: contar histórias por meio de imagens. Nascido em Salamanca, em 1982, hoje, Cavolo é ilustrador e utiliza diversos suportes – pôsteres, roupas, tatuagens, quadros, murais, livros, paredes, encartes de discos – para continuar realizando, mas agora de modo profissional, as ideias que o estimularam na infância.

Algumas cenas que podem ser vistas no Instagram, através do qual divulga boa parte de seus trabalhos: prancha de surfe e cartas de tarô ilustradas; mural colorido, repleto de cores primárias, em rua de Seattle; retratos de Frida Kahlo e Jesus Cristo, cada um com três pares de olhos; criança curda refugiada no Iraque vestindo jaqueta jeans, em cujas costas está a pintura de um rosto feminino em tons róseos e avermelhados. Pelas fotos, é possível notar a predileção de Cavolo por tons vibrantes, alegrando os olhos de quem as vê, ainda que alguns sejam temas áridos. Além disso, boa parte das ilustrações apresenta-se de modo caleidoscópico, isto é, há sempre algum elemento dentro de outro, dando a ideia de que, mais do que uma imagem, o que está posto constitui um emaranhado de narrativas.


Elvis Presley é um dos retratados em História ilustrada da música
- 100 artistas para ouvir antes de morrer (livre tradução).
Imagem: Reprodução

Uma discussão relativamente superada nos tempos que correm, porém não totalmente, é a suposta separação entre belas-artes (de ordem subjetiva) e artes aplicadas (funcionais). Se um mesmo artista pinta um quadro para expor numa galeria e cria a arte de um objeto passível de uso, qual seria a diferença em termos de procedimento? Segundo o crítico britânico John Ruskin, nenhuma; para Ricardo Cavolo, tal distinção igualmente não faz sentido. Suas obras já foram exibidas em galerias e ruas de Londres, Madri, Montreal, Barcelona, Hong Kong e Kiev. Também colaborou com marcas como Converse, Urban Outfitters, Nike e Coca-Cola. Em entrevista à Continente, o ilustrador fez questão de rechaçar possíveis diferenças no processo criativo. Trabalhar por encomenda “é um procedimento bonito, porque me faz estar em contato com as pessoas de maneira direta, para fazer algo por elas. É único, quando consigo unir a orientação dada pelo cliente ao meu estilo e modo de fazer as coisas”, afirmou.

Atualmente, porém, o artista gráfico tem evitado projetos comerciais e concentra-se no que, de acordo com ele, tem falado à sua “cabeça e coração”. Agora, está preparando um livro, uma enciclopédia ilustrada e sua linha de roupas, que devem ser finalizados ainda este ano. O espanhol explica que “acredita em uma arte comprometida” e une essa convicção aos seus estilos favoritos – a outsider e folk art. É assim que ele retrata personagens e temáticas que costumam estar à margem do imaginário artístico eurocêntrico. Um exemplo dessa faceta é a exposição Life & lives, apresentada em 2013 em Nova York. A mostra reuniu 50 retratos de personagens que pouco costumam habitar os espaços dos museus – como órfãos, prisioneiros, crianças pobres e refugiados. Entre os rostos apresentados na mostra, podemos ver o de uma muçulmana síria, uma garota afegã, um adolescente do território do Kosovo e prisioneiros russos.


O ilustrador posa com trabalho encomendado à Urban Outfiters, em Colônia, na Alemanha. Foto: Divulgação

Uma das características marcantes do conjunto da obra de Cavolo é a presença de olhos, vários deles. Há corações, estrelas, mãos, muros e nuvens repletos de olhos. E a maior parte das pessoas por ele retratadas ganha mais de um par de globos oculares. Na opinião do artista, o olhar de alguém é o que lhe cabe de mais importante. “O natural é ter dois. Se aparecem quatro ou seis, é porque essa pessoa é especial, viu e viveu mais”, explica. São Jorge, São Sebastião e uma combatente curda são bons exemplos de personagens ilustrados com vários olhos. Já objetos e seres inanimados com olhos estampados simbolizam “a vida que pulsa dentro deles”. Ao olhar para as ilustrações de Cavolo, somos vistos de volta por personagens feitos em aquarela, tinta tipográfica ou acrílico – somos olhados por personagens repletos de vida. Encarar as imagens de Ricardo Cavolo, com seus muitos olhos e cores, tem qualquer coisa de poderosa, de otimista. 

MARINA MOURA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

 

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