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Mulheres: o gênero por trás do filme

Participação das cineastas nos filmes lançados no país é crescente, embora ainda seja um percentual menor que o dos longas dirigidos por homens

TEXTO Luciana Veras

01 de Junho de 2016

'Mate-me por favor': roteiro enfoca  sexo e violência na adolescência

'Mate-me por favor': roteiro enfoca sexo e violência na adolescência

Foto Bananeira Filmes/Divulgação

Em 2005, das 2.606 obras audiovisuais – filmes, séries televisivas, programas de variedade e videoclipes – que receberam o Certificado de Produto Brasileiro da Agência Nacional do Cinema/Ancine, 74% haviam sido dirigidas por homens. Às cineastas mulheres, coube apenas a fatia de 19%. Estudo realizado pelo Observatório do Cinema e do Audiovisual e por outros setores da Ancine, e apresentado em março no seminário internacional Rio Content Market, reporta que, dos 128 longas-metragens nacionais exibidos no país entre janeiro e dezembro do ano passado, 99 (o que corresponde a 77,3%) tinham assinatura masculina. Apenas 19 títulos, ou 14,8%, traziam o nome de uma mulher no crédito principal.

Por coincidência, dois dos lançamentos programados para este primeiro semestre de 2016 consistem em importantes contribuições para refletir sobre os índices recentes. Sinfonia da necrópole (2014), de Juliana Rojas, em cartaz em algumas capitais desde abril, e Mate-me por favor (2015), de Anita Rocha da Silveira, com estreia prevista para este mês, são exemplos de filmes que simbolizam mais do que o longa inicial em uma carreira já salpicada de curtas. São produções com significativa presença feminina, tanto na equipe técnica como no enredo ficcional.

Sinfonia da necrópole é uma história que Juliana Rojas rascunhou quando ainda cursava Cinema na Escola de Comunicações e Artes na USP – na qual conheceu Marco Dutra, com quem dividiu a realização dos curtas Lençol branco (2004), Um ramo (2007) e do longa Trabalhar cansa (2011). Na trama, alinhavada como um musical, Deodato (Eduardo Gomes) vira funcionário em um cemitério paulistano e precisa lidar com as diretrizes de otimização espacial repassadas pela executiva Jaqueline (Luciana Paes), o que inclui jogar fora restos humanos esquecidos e/ou abandonados para comercializar novos túmulos.


O musical Sinfonia da Necrópole usa ironia para falar de urbanização.
Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

“A cidade natal da minha mãe, São Vicente de Minas, tem apenas 12 mil habitantes. Vi que já não havia mais lugares para enterrar as pessoas. Se a cidade cresce, o cemitério tem que acompanhar. Pesquisei que isso é comum em todos os cemitérios. Quando fazem um levantamento dos túmulos, descobrem muita sepultura abandonada, e assim eles remanejam para as gavetas e botam para vender. É uma prática semelhante ao processo de reurbanização e especulação nas grandes cidades. Imaginei que o musical pudesse ter o tom e a ironia para tratar disso com a crônica e a alegoria do humor. Acho importante falar sobre o lugar em que você está agora. São Paulo, como Recife, é uma cidade complexa”, comenta a diretora paulistana à Continente.

Neste que é seu primeiro longa solo, ela montou um time cujas “cabeças”, no jargão cinematográfico, eram mulheres: direção de fotografia de Flora Dias, montagem de Manoela Ziggiatti, som direto de Gabriela Cunha e a preparação vocal de Cecilia Spyer. “Sempre senti diferença no tratamento, quando tive que ser a tomadora de decisões. Acho, mesmo, que as coisas estão mudando para deixar isso tudo de maneira mais equilibrada, inclusive nas equipes. Mas o fato é que, quando o homem é firme e forte, ele sabe o que quer; quando uma mulher é firme e forte para exercer liderança, surgem os clichês, como se fosse um peso ou uma deficiência nossa”, diz.

Embora tão surrados, os clichês ainda se fazem presentes – no discurso da atriz Patricia Arquette ao receber o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Boyhood em 2015, ela cobrava igualdade de oportunidades e salários para as mulheres na indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Ainda em 1972, a crítica norte-americana Pauline Kael (1919-2001) concedeu uma entrevista à revista Mademoiselle, incluída no volume Conversations with Pauline Kael (University Press of Mississippi, 1996). Nela, já dizia: “Quando uma mulher se torna crítica, os termos com que ela é geralmente descrita indicam a condescendência e a hostilidade de que os homens parecem nem se dar conta. Quando meus livros são resenhados, sou descrita como reclamona, nervosa, gasguita ou impressionista – esse é um favorito, por sugerir, claro, que a mulher não possui uma mente tão boa, mas que consegue, de algum jeito, extrair impressões, embora não consiga organizá-las”.

SELEÇÃO
É preciso, pois, que haja mulheres não apenas fazendo ou resenhando filmes, mas também nas comissões que os selecionam. Assim pensa a cineasta carioca Anita Rocha da Silveira, que em março levou Mate-me por favor ao festival New Directors/New Films, parceria entre o Film Society Lincoln Center e o Museum of Modern Art/MoMA em Nova York. “Era um festival em que 30% dos filmes selecionados eram de mulheres. Gosto de tentar fazer essa média quando estou nos festivais, que geralmente apresentam de 10 a 15% de filmes dirigidos por mulheres. Creio que uma maior participação feminina no cinema passa não apenas pela composição da equipe, ou por trazer as mulheres como protagonistas, mas também por ter mais mulheres na banca de seleção dos festivais e nas curadorias”, pondera.

No seu primeiro longa, ela cooperou com a ampliação dos espaços destinados às mulheres no set e na tela. A produção foi da Bananeira Filmes, de Vania Catani; direção de arte e cenografia de Dina Salém Levy; figurino de Ana Carolina Lopes; montagem de Marilia Moraes e platô da pernambucana Brenda da Mata. As protagonistas eram Bia (Valentina Herszage) e suas três melhores amigas Renata, Michele e Mariana (respectivamente, vividas por Dora Freind, Julia Roliz, Mariana Oliveira), alunas de um colégio particular da Barra da Tijuca que exacerbam as experiências com sexo e morte em reação a uma série de feminicídios. Todo o enredo se ancora na premissa de examinar o mergulho das adolescentes da Zona Sul carioca nessa contraditória maré de sentimentos, hormônios e violência.


Wanja foi exibido na 39º Mostra de SP aborda reintegração de uma ex-detenta.
Foto: Flickfilm/Divulgação

Para Mate-me por favor, ela levou boa parte dos amigos que a ladearam nos curtas O vampiro do meio-dia (2008), Handebol (2009) e Os mortos-vivos (2012). “Tive abertura e liberdade para trabalhar com as pessoas com quem já tinha uma dinâmica. Foi um ambiente incrível, sem sinal de sexismo. Mas reconheço que nenhuma equipe é bastante feminina ainda. Lembro que, no primeiro dia, chegou um cooler para mim no qual estava escrito ‘diretor’. Vania foi lá e botou um ‘a’ do lado. Se, na maioria das vezes, é um diretor, faz sentido que a equipe do catering achasse que fosse outro”, lembra a cineasta.

Com o “primeiro longa” a circular e repercutir, tanto ela como Juliana Rojas percebem um amadurecimento artístico. “Com relação aos curtas, há uma diferença grande para articular a dramaturgia por questão de ritmo e duração. Você precisa pensar tudo de modo diferente. É um desafio, ainda mais depois que eu fiz o Trabalhar cansa com o Marco Dutra. Dirigindo sozinha, a tomada de decisões precisa ser mais rápida”, argumenta Juliana. Já Anita ressalta a maior visibilidade: “É uma audiência enorme, mais pessoas vendo o seu trabalho, e um projeto em que se podem desenvolver mais os temas. Sem dúvida, você tem uma vitrine maior. Em 2012, fui com meu último curta para Cannes e só dei uma entrevista para um jornal português”. Desde que Mate-me por favor passou no Festival de Veneza, em setembro de 2015, seguindo depois para o Festival do Rio e a 39ª Mostra Internacional de São Paulo, já se foram dezenas de entrevistas.

A jornalista e pesquisadora Maria do Rosário Caetano, que acompanha há décadas – de perto e com afinco – a produção cinematográfica brasileira, ratifica a relevância de atingir o marco do “primeiro longa”. “Estrear no longa é fundamental para que as mulheres ganhem visibilidade. Precisam superar a síndrome do sequenciamento de suas carreiras, pois muitas param no segundo ou no terceiro longa. Mas creio que, de agora em diante, elas não vão parar mais. Cresceu de forma exponencial a consciência de que são hoje uma das forças renovadoras do cinema brasileiro”, afirma à Continente.

Ela enxerga as duas jovens cineastas (Juliana tem 33 anos, Anita, 30) como responsáveis, também, por “um olhar feminino na nova safra do cinema brasileiro”. “No caso de Anita da Silveira, sua protagonista absoluta em Mate-me por favor é uma adolescente, que parece ter muito dela quando jovem estudante. O cinema de Juliana Rojas, mesmo com personagens masculinos muito fortes, também tem um olhar muito sensível para as mulheres – vide a deliciosa, ousada, atrevida até, personagem de Luciana Paes em Sinfonia da necrópole, que se impõe quando entra, motorizada, com a incumbência de executar tarefa que poderia ser masculina, e rouba a cena”, situa Maria do Rosário.


Primeiro longa de Ana Lungu, Autorretrato de uma filha obediente seria aprovado no Teste Bechdel-Wallace. Foto: Supo Mungam Films/Divulgação

Para ela, nesse contexto de renovação, é imprescindível sublinhar o êxito de Que horas ela volta?, que fez mais de 400 mil espectadores. O filme de Anna Muylaert narra o reencontro entre Val (Regina Casé), a empregada de uma família de classe alta em São Paulo, e Jéssica (Camila Mardila), sua filha que sai de Pernambuco para fazer vestibular na USP. “Anna criou protagonistas femininas absolutas. Os homens são coadjuvantes. Ela cercou-se de mulheres em postos-chave, a começar pela fotógrafa uruguaio-brasileira Barbara Alvarez, e vem mergulhando tanto na representação da mulher no cinema, que seu próximo filme terá este tema: a ‘normalização’ cotidiana da opressão à mulher. Algo que já se automatizou de tal forma, que nem é percebido”, pontua.

OUTRAS FILMOGRAFIAS
É interessante perceber que outras cineastas, em países diversos, também têm se voltado para radiografias femininas em seus longas-metragens inaugurais. Em Autorretrato de uma filha obediente (Romênia, 2015), distribuído no Brasil pela Supo Mungam Films, a diretora Ana Lungu partiu de um episódio relativamente banal para abordar as perspectivas (ou a ausência delas) na vida de uma jovem adulta, estudante, solteira, porém amante de um homem casado, em Bucareste. “Comecei a trabalhar no script há alguns anos, quando meus pais se mudaram do apartamento em que morávamos juntos e fiquei para morar sozinha numa casa de três quartos. Quis ter um cachorro porque, quando eu era criança e estava crescendo, eles não queriam me dar um cão”, rememora.

Autorretrato de uma filha obediente, feito por Ana Lungu sem financiamento – “não tínhamos dinheiro algum, chamei meus amigos para trabalhar de graça” – e com apoio de Cristi Puiu (diretor de A morte do senhor Lazarescu), é centrado em Cristiana (Elena Popa), narrado sob o ponto de vista dela e construído com habilidade e bom humor. Em janeiro de 2015, o filme foi selecionado para a 44ª edição do Festival de Rotterdam dentro do programa Signals: What the F?!, cujo foco recaía nas “diferentes interpretações do feminismo contemporâneo” e nos filmes “que tanto desafiam como celebram esse debate”. “Foi muito bom estar em Rotterdam nesse contexto. No meu país, nunca senti nenhuma desvantagem por ser mulher. Mas a minha geração tem muito mais homens fazendo filmes do que mulheres. Imagino que em muitos países seja assim também”, explica Ana, que conversou com a Continente durante a 39ª Mostra de São Paulo.

Um outro filme exibido no festival paulista, Wanja (Alemanha, 2015), trouxe ao Brasil a sueca Carolina Hellsgård, com trajetória semelhante à de Anita Rocha da Silveira, Juliana Rojas e Ana Lungu: vários curtas-metragens no currículo e um esforço para demarcar um novo território com a passagem para o longa. “O pulo entre os curtas e o primeiro longa é um passo enorme na Alemanha, na Suécia e acredito que em qualquer lugar do mundo. O trabalho não é muito diferente. A distinção é que você consegue fazer um curta em uma semana e para um longa você precisa de, no mínimo, seis semanas. E com certeza precisa ser mais dura no set”, reflete a cineasta radicada em Berlim.

Em Wanja, a personagem-título (interpretada por Anne Ratte-Polle) é uma ex-presidiária que, após sete anos encarcerada, anseia por uma readaptação. Ao conhecer a jovem Emma (Nele Trebs), estabelece uma dúbia relação. “A ideia foi pegar esse aspecto mais clássico de alguém que sai da prisão e busca se reintegrar à sociedade – que já foi feito muitas vezes, não é novidade. Tentei fazer a minha própria versão, combinando com elementos da minha vida e sem procurar categorizar os encontros na jornada de Wanja, deixando aberto ao espectador”, conta a diretora, que participou de dezenas de festivais ao redor do mundo, entre eles a Berlinale, o Filmmoor Women’s Film Festival on Wheels, em Istambul, e Women Make Waves Film Festival, em Taiwan.

Tanto Wanja e Autorretrato de uma filha obediente, como também Mate-me por favor e Sinfonia da necrópole, seriam aprovados no teste Bechdel-Wallace, batizado em homenagem à cartunista norte-americana Alyson Bechdel. “O teste foi originalmente criado para avaliar filmes, mas hoje é destinado a variadas mídias. Trata-se de questionário que estudiosos aplicam ao analisar um filme de ficção: tal obra apresenta pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem? A narrativa adiciona pelo menos duas personagens femininas que tenham nome? Surgiu depois que uma personagem dos quadrinhos Dykes to watch out for, de 1985, externou tais preocupações. Alyson dividiu o crédito com a amiga Liz Wallace, o que lhe sugerira o questionamento”, contextualiza a jornalista e pesquisadora Maria do Rosário Caetano.

Mais de 30 anos depois, a regra, e não a exceção, é naufragar no teste. “As pesquisas mostram que muitas obras contemporâneas falham nesse teste”, continua Maria do Rosário. Filmes, séries televisivas, programas de variedade e videoclipes, portanto, prosseguem como um território a ser ocupado por uma maior presença feminina. Como diria a lendária crítica Pauline Kael, que em 1972 e por toda a carreira questionou a misoginia em Hollywood: “Claro que sempre houve obstáculos para as mulheres fazerem o que querem, mas surgiram caminhos e brechas que fomos capazes de encontrar”. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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