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Livro de artista: Em busca de mais olhares

No Brasil, é profusa a realização de obras que envolvem processos gráficos, ainda que sigam restritas a um pequeno nicho de apreciadores

TEXTO Bárbara Buril

01 de Abril de 2016

Em seus

Em seus "cadernos de artista", Bruno Vilela reúne esboços, relatos de viagem, memórias

Foto Divulgação

Arte que se leva no bolso, na mochila ou nos braços, para quando for possível parar e sentir. Os livros de artista – obras de arte portáteis – não dependem de um espaço físico específico para serem desvendados, como é o caso das pinturas e instalações, vistas em galerias e museus, ou das performances, normalmente elaboradas para acontecer em um determinado lugar. A portabilidade, a relativa acessibilidade, o suporte e a constante produção dessas obras no Brasil, porém, ainda não são motivos suficientes para aproximar tais criações de um público sensível à produção artística e cultural. Algo contraditório em um país onde os livros de artista têm sido explorados de maneira massiva pelos criadores, há pelo menos 30 anos.

“Desde os anos 1960, os críticos de arte falam dos livros de artista como o múltiplo democrático. Hoje em dia, existem exemplares muito caros, mas a maioria custa o mesmo valor de um livro comum. No entanto, as artes visuais ainda são restritas a uma elite no Brasil. Alguém em contato com a revista Recibo, que não tenha sequer Ensino Médio, não vai entender nada. Não é o fato de ser gratuita que vai torná-la acessível. No entanto, acredito que o livro de artista tem o potencial de tornar as artes visuais menos elitistas no Brasil, porque, devido ao formato, ele pode circular mais”, afirma Amir Brito, professor do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e idealizador da Coleção de Livros de Artistas da mesma universidade. Brito refere-se à existência de uma exclusão simbólica que não necessariamente está vinculada a uma exclusão material.

No caso da revista Recibo, editada pelo artista catarinense radicado no Recife Roberto Traplev, mais de 18 edições já foram publicadas com financiamento de diferentes instituições, e mais de 65 mil exemplares distribuídos. Mesmo assim, por processos de exclusão, que o sociólogo Pierre Bourdieu atribuiria, a partir do artigo Gostos de classe e estilos de vida, a um poder simbólico invisível, as revistas só “atravessam”, “tocam” ou “mobilizam”, nos sentidos afetivos mesmo desses três termos, aqueles que poderiam comprá-las. “Para alcançarmos um ideal de distribuição acessível, teria que existir um projeto de distribuição dirigida mais feroz, no sentido de fazer chegar os exemplares da Recibo a locais de difusão multiplicada, como bibliotecas, pontos de cultura ou centros culturais da periferia”, acredita Traplev.


Editado em 1968, The Xerox Book é um dos clássicos do gênero. Foto: Reprodução

De todo modo, apesar da restrição que acomete as artes visuais no Brasil, os livros de artista ainda parecem guardar a promessa de uma democratização das artes. Diversas iniciativas apontam para esse sentido, como é o caso da própria Coleção de Livros de Artista da Escola de Belas Artes da UFMG. Com mais de 400 livros catalogados, a coleção busca colocar o público em contato com as criações. “Como eu sempre fui muito interessado por livros de artista, percebi, nas minhas leituras, que a maior parte dos textos sobre o assunto tratava das mesmas obras, porque o acesso a elas era (e ainda é) bastante difícil e os textos sobre esses livros de artista baseavam-se em textos anteriores que traziam as mesmas referências, sem se debruçarem sobre os livros em si. No entanto, eu estava motivado pelos trabalhos de jovens artistas e achava importante que houvesse um contato direto com as obras”, detalha Amir Brito, que criou a coleção em 2009, em parceria com a professora da UFMG Maria do Carmo Freitas, e hoje realiza atividades de pesquisa no acervo com alunos da Escola de Belas Artes da mesma universidade.

COLEÇÃO ONLINE
Para formar a coleção, Amir concorre à licitação de livros das bibliotecas da UFMG, mas, devido ao fato de que a maior parte das editoras de livros de artista é de pequeno porte, elas não passam no processo licitatório. Quando isso acontece, ele entra em contato diretamente com os artistas para pedir doações. Foi assim que livros de diversos pernambucanos passaram a formar o acervo, como é o caso de Voo cego, de Bruno Vilela, Solta ou prende, de Silvan Kälin, suíço radicado no Recife, e das variadas criações de Paulo Bruscky. Graças aos esforços de um aficionado no assunto, a coleção é hoje o maior acervo de livros de artista do país e pode ser acessada integralmente através do seu blog.

O intento de Amir Brito de democratizar o acesso a esses trabalhos no Brasil também se fez presente na exposição Tendências do livro de artista no Brasil: 30 anos depois, que esteve em cartaz no Centro Cultural São Paulo (CCSP) até o dia 20 de março. A mostra, com curadoria de Amir e Paulo Silveira, reuniu os 200 livros de artista apresentados em uma exposição homônima há 30 anos, sob curadoria de Cacilda Teixeira da Costa e Annateresa Fabris, além de um conjunto de 120 obras publicadas nos últimos anos e adquiridas para o acervo do CCSP com apoio da Funarte (Prêmio Marcantonio Vilaça).


Silvan Kälin. Foto: Divulgação

Naquele ano, escreveram as curadoras: “Se, internacionalmente, os livros de artista constituem uma das áreas mais desconhecidas e ‘fechadas’ das artes plásticas, no Brasil são quase inacessíveis. Embora numerosos, não são vistos regularmente; sua publicação é rara e a apreciação dificilmente ultrapassa um reduzido círculo de iniciados, artistas, poetas e bibliófilos. Assim, nosso objetivo, ao realizar esta exposição, é, sobretudo, introduzir o público nessas obras pouco familiares, proporcionando-lhe a oportunidade de vê-las fora dos ateliês e coleções particulares”. O problema do acesso, então, já se manifestava fortemente naquela época e, para nossa surpresa, a exposição recente veio com a mesma missão daquela realizada há três décadas: tirar os livros de artista de um círculo pequeno, dando um sutil indicativo de mudança nessa questão.

Outra iniciativa que aponta para a democratização do acesso aos livros de artista, atualmente, é a Feira de Arte Impressa Tijuana, uma das maiores da América Latina, dedicada às produções artísticas que passam por processos gráficos. Uma iniciativa da Galeria Vermelho (São Paulo), a feira foi criada em 2007, por Eduardo Brandão, com a intenção de estabelecer um espaço de exibição, divulgação e comercialização para criações artísticas que não se encaixavam no formato expositivo das galerias, caso de fanzines, livros de artista e catálogos. “O nome Tijuana, emprestado da cidade do México que faz fronteira com os Estados Unidos, vem principalmente dessa ideia fronteiriça. O livro de artista, que pode ser um livro, mas é principalmente uma obra do artista, flerta justamente com a ideia de atravessar limites”, detalha Maite Claveau, diretora da feira. Neste ano, já estão programadas quatro Feiras Tijuana. A próxima, que acontece em Lima (Peru) este mês, será sua nona edição. Devido aos contínuos sucessos do evento, a Galeria Vermelho decidiu, em 2010, lançar um selo próprio para publicar obras de arte impressas: o Edições Tijuana. “O primeiro título publicado com o nosso selo foi Vermes, da artista Dora Longo Bahia. Hoje, já temos 40 títulos publicados”, detalha Maite.

Para ela, é visível o crescimento de publicações do tipo e de público consumidor. “Existe uma crença de que o livro de artista é caro e destinado a colecionadores de grande poder aquisitivo. No entanto, não é tão restrito assim. Existem colecionadores de zines, colecionadores de livros, colecionadores de arte que eventualmente compram livros de artista”, explica ela. Segundo seu depoimento, então, percebe-se que, apesar do preço relativamente acessível e da possibilidade de essas criações serem adquiridas por consumidores de um poder aquisitivo “médio”, o público consumidor ainda se restringe a um grupo de aficionados.


Fernando Peres. Imagem: Divulgação

FRONTEIRAS
Mesmo que haja uma série de questões problemáticas relativas ao acesso a tais obras de arte, os artistas continuam a se expressar através de processos gráficos que resultam em livros, fanzines e catálogos – muitas vezes de modo fragmentário, disperso e despreocupado com as fronteiras de cada um dos tipos de produtos ou mesmo com sua publicação. De acordo com aqueles que pesquisam o assunto, existem definições específicas para cada um dos três tipos de criações, mas não quer dizer que todas as criações sigam regras conceituais. “O livro de artista é o livro como obra de arte. O que está nele é pensado para ser exibido no próprio, porque dificilmente as imagens são exibidas de outra maneira a não ser no livro. Ele não é para quem não pode comprar a fotografia, como é o caso do catálogo. Já o catálogo é sobre um artista, obra ou exposição que extrapola o próprio catálogo. O fanzine, por último, tem duas características: quando é feito por artista, ele é o editor. Ele edita os trabalhos de outras pessoas. O outro aspecto é que o zine é periódico, existe uma continuidade. Por falta de informação, chamam de ‘zine’ livros e livretos de artistas que não têm característica de continuidade”, detalha Amir Brito.

Com relação ao formato, segundo ele, não é a qualidade do papel ou da impressão que definiria um fanzine ou um livro de artista. Ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa, o livro de artista não é necessariamente uma grande edição, com folhas de alta qualidade e impressão sofisticada, tampouco o fanzine precisa ser malfeito. Existem livros de artista feitos com três páginas em xerox, assim como há fanzines com várias páginas, encadernação e impressão de alta qualidade. Para Amir, é fanzine, se for periódico e se os créditos forem dados a um editor, e é livro de artista se não for periódico e os créditos forem dados a um artista.

Regras à parte, o que acontece é que muitas editoras chamam catálogos de livros de artista, se a edição daquele for um pouco mais elaborada, e diversos artistas chamam fanzines de livros de artista. Além disso, há produtos híbridos, que realmente podem ser chamados de catálogos e livros de artista simultaneamente. É o caso de The xerox book, um dos clássicos do tipo, idealizado pelo curador norte-americano Seth Siegelaub em 1968. Na obra, que também pode ser considerada uma exposição, ele convidou sete artistas – Carl Andre, Robert Barry, Douglas Hueber, Joseph Kosuth, Sol Lewitt, Robert Morris e Lawrence Weiner – para criar o que quisessem em 25 páginas, a partir de máquinas copiadoras. O resultado foi um livro de artista que também pode ser considerado um objeto de arte, uma exposição e um catálogo. Na exposição em si, não havia nada nas paredes, apenas os livros.

As produções artísticas, muito menos ortodoxas do que suas definições, chegam a surpreender pelo fato de transitarem entre gêneros aparentemente inconciliáveis. Os “cadernos de artista” do pernambucano Bruno Vilela, por exemplo, são, simultaneamente, diários pessoais, estudos, relatos de viagem, álbum de memórias e livros de artista. Nem todos eles têm a intenção de ser mostrados. “Como sou muito impulsivo, percebi que precisava de um respiro maior entre um trabalho e outro, e que precisava de algum meio para realizar meus brainstorms. Assim surgiram os cadernos, que reúnem uma série de imagens que me tocam durante o meu dia a dia. É um processo meio obsessivo, admito”, conta Bruno. O caderno mais recente foi iniciado durante uma viagem dele a Londres e reúne desenhos, colagens e plotagens de itens encontrados pelo artista na cidade. Sem perceber, Bruno acumulou imagens relacionadas à pichação e, por ter sido tocado pela expressão estética, resolveu torná-la o cerne do seu novo trabalho, ainda em processo. O único caderno que ele realmente decidiu publicar como livro de artista se assemelha a um álbum de fotografias sobre a história de sua família, mas ele afirma que ainda não sabe quando vai lançá-lo. Além dos cadernos – que ele parece considerar mais como diário que livro de artista –, Bruno Vilela chegou a publicar dois livros como obras de arte em si: Voo cego (2009) e Big bang (2011).

PROCESSOS GRÁFICOS
Assim como Bruno, o artista Silvan Kälin acumula uma série de experiências com processos gráficos, que vão de livros de artistas a fanzines, passando por catálogos e objetos híbridos. Desde que lançou a Editora Aplicação, em 2008, em parceria com a designer gráfica Priscila Gonzaga, Silvan se sensibilizou para a possibilidade de criar a partir de processos gráficos. Daí, surgiram livros como Solta ou prende (2014), que associa desenhos de frutas tropicais com a sabedoria popular de quais alimentos “soltam” ou “prendem” o intestino; e Zoológico, no qual Silvan edita textos e fotografias publicadas pelo artista Fernando Peres no Facebook.

“É curioso, porque o livro Zoológico fez parte da lista de melhores livros de fotografia de 2015 pela revista Zum, do Instituto Moreira Salles, e o que fizemos, na verdade, foi uma espécie de brincadeira”, conta Silvan. Embora a publicação tenha sido considerada um “livro de fotografia” pela Zum, as imagens e os textos foram pensados para serem expostos apenas no impresso e as páginas contam com intervenções artísticas de Silvan, ou seja, não é apenas um livro de fotografia, mas de artista, se formos seguir as definições apontadas pelo professor e pesquisador Amir Brito.

Silvan também foi o autor das ilustrações do livro 2 em 1, projeto idealizado pelo artista pernambucano Jonathas de Andrade. A obra, publicada em 2015 pela editora da galeria de arte contemporânea Alexander and Bonin, de Nova York, é um exemplo de como os livros de artista podem ser edições sofisticadas. Feita através de serigrafia em madeira aglomerada, a obra custa nada menos que U$ 2,5 mil dólares (atualmente, cerca de R$ 10 mil).


Erik van der Weidje. Foto: Divulgação

Apesar das variadas experiências com processos gráficos, Silvan acredita que, no Brasil, é bastante difícil para um artista viver da venda de livros ou fanzines. Uma exceção é o caso do artista holandês, radicado em Natal (RN), Erik van der Weijde. Através do selo 4478ZINE, Erik publica fanzines e livros de artista com os próprios trabalhos. A curiosidade é que, embora ele realize todo o processo criativo e produtivo no Brasil, as vendas se concentram no exterior. “No Brasil, ainda mais no Nordeste, é impossível viver de publicação. Só que, como fui criado lá fora e fiz Academia de Arte em Amsterdã, todos os meus contatos são de lá. Cerca de 95% do meu trabalho é consumido em diferentes países (em cidades como Nova York, Los Angeles, Paris, Londres), porque visito muitas feiras de livros de arte durante o ano, mas tudo é feito no meu estúdio, aqui em Natal”, conta Erik.

O fator pelo qual viver de publicação dá certo para Erik é que os zines e livros produzidos por ele são feitos com papéis descartados e de baixa qualidade, que já deixaram de existir há décadas na Europa e nos Estados Unidos. A impressão, realizada em gráficas simples de Natal, também é de baixa qualidade. “Lá fora, isso vira exótico”, acrescenta. As vendas em euro e em dólar também são fatores positivos em uma equação de produção e venda que dá certo. Na verdade, uma situação realmente exótica em um país cuja produção de livros de artista parece só encontrar eco entre um público de artistas, especialistas, colecionadores e aficionados. 

BÁRBARA BURIL, jornalista e mestranda em Filosofia na UFPE.

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