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Deep Web: Anonimato e liberdade na internet

Associada pelo senso comum a um local onde todas as práticas ilegais e criminosas ocorrem livremente, a web profunda é fértil também em trocas valorosas

TEXTO Olivia Souza

01 de Abril de 2016

Imagem Janio Santos

Se você pudesse imaginar a internet como um oceano profundo de informações, onde só fosse permitido navegar através de sua superfície, não se impressionaria muito caso lhe dissessem que o conteúdo ao qual você tem acesso por sistemas de busca clássicos como o Google corresponde, na realidade, a um percentual baixíssimo (menos de 10%) do que ela realmente engloba.

Criada em 1991 pelo físico e professor do MIT, Tim Berners-Lee, num projeto desenvolvido dentro da Organização Europeia para Investigação Nuclear (CERN) – o maior laboratório de física de partículas do mundo –, a World Wide Web tinha, a princípio, o objetivo de servir como uma ferramenta colaborativa que facilitasse a comunicação entre os cientistas do centro para fins de compartilhamento de pesquisas e resultados. Por sua facilidade de uso, a web popularizou-se rapidamente, tendo hoje mais de um bilhão de sites ativos. Dentro dessa dimensão gigantesca, destacam-se páginas como sites pessoais (ou corporativos), blogs, redes sociais, sites de compartilhamento de mídia (como filmes, fotos, gifs, música, podcasts), portais de conteúdo, entre outros.

Esse crescimento desenfreado demandou a criação de ferramentas de busca para que o usuário pudesse encontrar com precisão o conteúdo desejado, de modo que, basicamente, tudo que encontramos na “superfície” desse “oceano de informações” pode ser facilmente rastreado por outros usuários, até mesmo por instituições e governos. A surface web – como é chamada essa fração minúscula acessível ao usuário comum – representa pouca coisa em termos de conteúdo. Por outro lado, temos a deep web (web profunda), uma espécie de internet paralela que engloba exatamente o conteúdo absoluto da internet, o lado não rastreado, ou seja, não indexado pelos sistemas de buscas tradicionais. O método mais acessível para navegar nessa rede é através do navegador TOR (The Onion Router), baseado numa tecnologia chamada onion routing, desenvolvida em 1995 pelo Escritório Americano de Pesquisa Naval, e logo liberada para domínio público.


Julian Assange colocou a disponibilização de dados secretos em patamar público com o Wikileaks. Foto: Divulgação

Essa tecnologia utiliza diversos servidores que criam caminhos alternativos para o processamento de dados, tornando o rastreamento do usuário uma atividade praticamente impossível, já que ele nunca seguirá uma rota de transmissão padrão, como na surface web. Além disso, em muitos sites, o usuário precisa ser convidado para participar dos fóruns – forma de organização e exposição dos conteúdos na deep web. Esqueça também os endereços tradicionais com www e pense em url’s complicadas, como “theches3nacocgsc.onion” (site para jogar xadrez online) ou “ndj6p3asftxboa7j.onion” (um sistema de busca da deep web).

A ausência de monitoramento no tráfego cria, evidentemente, um terreno fértil para o surgimento dos mais diversos tipos de atividades, com fins lícitos ou não. Uma rápida busca do termo na internet convencional nos levará a uma centena de reportagens assustadoras sobre a deep web (muitas de cunho sensacionalista). Há casos famosos como o do Silk Road, um mercado online de venda de drogas que utilizava uma moeda virtual (a bitcoin) em suas transações. Mas é também lá onde trafegam, além de documentos sigilosos que nunca poderiam ser acessados pelo público, artigos acadêmicos, livros, fóruns de discussão. A dificuldade (proposital) no acesso aos conteúdos da deep web acaba gerando desconhecimento e especulações por parte do público leigo, de que nesse campo só podemos encontrar ações ilegais envolvendo crimes e violência. No entanto, o anonimato oferecido pela “internet invisível” vem sendo utilizado também por militantes, causas e organizações com o intuito de fazer circular conteúdos proibidos em regimes autoritários ou vazar documentos secretos de governos e instituições.

Quando encaramos a internet como uma plataforma de militância e de suporte organizacional que se constitui num espaço alternativo e eficaz de circulação de informações, compreendemos, então, a necessidade do anonimato como fator primordial para o fortalecimento das estratégias dos movimentos, e a importância de redes não-rastreáveis como a deep web. Segundo especialistas, foi nela que surgiram movimentos pró-democracia como a Primavera Árabe – o espaço era utilizado pelos militantes para se comunicarem e articularem as ações do movimento, para só então migrarem para as redes sociais, chamando a atenção do grande público.

Também foi nesse ambiente que o jornalista australiano Julian Assange e outros colaboradores desenvolveram o WikiLeaks, no qual as informações eram catalogadas e depois repassadas para grandes agências de notícias como a Reuters e Associated Press. Desde 2006, a página publica milhões de documentos (hoje disponíveis também na surface web) que autoridades e organizações têm ocultado da opinião pública.

Em 2010, Assange foi considerado o “Homem do Ano” pelo veículo francês Le Monde por divulgar documentos que comprovavam crimes de guerra realizados pelos Estados Unidos no Afeganistão. E, no ano seguinte, o WikiLeaks foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz: “O WikiLeaks é um dos principais apoiantes da causa da liberdade de expressão e da transparência deste século. (...) tem publicado e ajudado a revelar casos de corrupção, ilegalidades cometidas por governos e empresas, e informações muito importantes sobre vigilância ilegal, crimes de guerra e tortura cometidos por uma série de estados”, defendeu o parlamentar socialista norueguês Snorren Valen, que apresentou a candidatura.

JORNALISMO HACKER
Num cenário em que o avanço tecnológico possibilitou que computadores passassem a fazer parte dos processos de apuração e feitura das reportagens nas redações, a deep web tornou-se também uma boa ferramenta para a investigação jornalística. Países como o Irã, China e Coreia do Norte costumam controlar as informações disponíveis na internet convencional, de modo que a atividade de jornalistas nestes países é tarefa difícil e até mesmo perigosa. Como sua grande vantagem é a privacidade, o espaço, além de possibilitar que esse intercâmbio de informações passe livre de qualquer tipo de controle estatal, é também fonte rica para jornalistas investigativos, pelo grande número de dados de interesse público que oferece.

Denúncias como as de Edward Snowden sobre gravações de telefonemas e fiscalização extensiva da internet feita por agências de segurança norte-americanas servem de alerta para os riscos da atividade jornalística nos meios digitais. Segundo Alan Pearce, autor do livro Deep web for journalists, à medida que se aprimoram as tecnologias de espionagem e vigilância na internet, novos softwares de proteção são desenvolvidos também, e, nesse âmbito, o jornalista deve se adaptar e conhecer os mecanismos. “O desenvolvimento de ferramentas de segurança, a maioria das quais construídas por voluntários ativistas, pode tornar o mundo digital um lugar muito mais seguro para os jornalistas operarem. A esse respeito, eles podem aprender com os outros que – por motivos diferentes – conseguem fugir da vigilância eletrônica”, afirma o autor. No livro, além do uso da deep web, Pearce oferece estratégias que mascaram a atividade jornalística, seja para oferecer proteção a alguma fonte anônima como para transferir arquivos confidenciais com segurança.

Diante disso, constata-se que a figura tradicional do repórter vai paulatinamente dando lugar a um novo tipo de profissional, mais antenado com novas tecnologias – inclusive as de proteção. Um “jornalista hacker”, por assim dizer. Que seja capaz de lidar com diferentes bancos de dados de fontes diversas, saber identificar e narrar as histórias e de usar bem os mecanismos disponíveis no mundo onlinevisível e invisível. 

OLIVIA DE SOUZA, editora da Continente Online.

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