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Recifenses

TEXTO José Cláudio

01 de Março de 2016

'Tabuleiro de japonês', carvão sobre papel, 21 x 12 cm, 2016

'Tabuleiro de japonês', carvão sobre papel, 21 x 12 cm, 2016

Imagem José Cláudio/Reprodução

Não precisa nem ter nascido no Recife mas, claro, ter nascido no Recife já é um ponto a mais, um sinal de nobreza, de precedência, de preponderância. Não nasci aqui mas aceito que se dê esse título de superioridade aos recifenses natos.

Seguindo a teoria de Jorge Luís Borges, de que os verdadeiros europeus são os argentinos porque, estes sim, querem e sentem orgulho de ser europeus, assim também posso ou poderia, mediante tal asserção, nascido em Ipojuca, me considerar recifense, como outros nascidos mais longe, alguns até cultivando um certo rancor, transformados em recifenses a pulso, sem terem sido consultados, alegando sempre que são de outro lugar melhor, mais nobre, sei lá mais o que. Há recifenses, nascidos ou não, que fazem questão de demonstrar vocação para morar em Nova Iorque, um século atrás em Paris, ou no Rio ou São Paulo, considerando o Recife duro exílio, sem perderem a esperança de algum dia “chegarem lá”. Há pessoas para as quais o lugar é o de menos. Bem ou razoavelmente amadas ou alimentadas, sua terra é a que lhes dá de comer e onde se sentem bem.

Perdi-me nessa protofonia, quando apenas pretendia referir alguns hábitos recifenses. Quer dizer, o indivíduo não precisa tê-los para ser recifense. Ser recifense não obriga a nada. Por exemplo, ter raiva de todo mundo é um hábito recifense, embora nem todo recifense tenha raiva de todo mundo. O sujeito que vem de fora se sente rejeitado, acha a sociedade recifense fechada, seita secreta que nem sempre depende de dinheiro, ou nem só dinheiro, nem de moral, pois dentro dela há indivíduos de toda espécie. (Uma vez uma amiga que faz parte dessa elite, pessoa de conduta ilibada, diga-se de passagem, como eu tivesse encaminhado ao irmão dela uma jovem recém-formada de minha família, porque o tal irmão era da área e poderia orientá-la, essa minha amiga, ao tomar conhecimento do fato, me disse indignada: “José Cláudio, você é louco? Você não sabe que meu irmão é um crápula?” Confesso que acreditava que naquela esfera a ética fosse um dos pontos fundamentais.)

Vamos tratar de assuntos mais leves. Ver surgir o mansíssimo Capibaribe nos lugares mais inesperados, como pegando modorra meio-dia em ponto aproveitando a sombra dos manguezais, a indefinível cor da sua água, cor de caldo de cana, de mel, de lama do mangue com reflexos do azul do céu, indiferente à impressão que nos cause: o contingente aqui somos nós, fala baixo. O irresistível apito do homem do cuscuz, que quando ouço instintivamente viro a cabeça para todos os lados, sendo nisso cúmplice um taxista com quem costumo andar, Mané “Vela”, de vista melhor do que a minha: “Lá vai ele ali, seu Zé”.

Abro aqui um parêntese. Há alguns domingos, Regina Casé, no programa Esquenta, chamou um rapaz: “Feijão!” Quando o rapaz apareceu, ela se virou para a câmera e disse: “Chamam ele de ‘Feijão’ porque é preto. Você já viu chamarem alguém de ‘Arroz’ porque é branco?” Se tivesse acesso, lhe diria que “Arroz”, não, mas conheço um que se chama “Vela” porque é branco, e outro que se chama “Café”. Alguém chama: “Café!” Ele responde: “Royal. Honestamente café.” Eu até conheci Regina Casé, se não me engano casada com um pintor que participava do Prêmio Dior, de que também participei, no Rio de Janeiro, ocasião em que conheci também Jorginho Guinle, uma simpatia, até disse que me visitaria em seguida aqui, um ótimo pintor, mas morreu dias depois, na flor da idade, morte que senti. Como também conheci o escultor Sérgio Camargo, jantamos juntos lado a lado na mesma mesa, lembro de ele ter dito: “Que história é essa de artista querer ser gente? Pintor é vagabundo. No dia em que perdermos essa ideia, de que somos vagabundos, nós é que estamos perdidos”.

Voltando ao assunto do apito do cuscuzeiro. Eu fico doidinho. Esqueço que sou diabético. Basta vê-lo ao longe, o tabuleiro de lata, hoje de alumínio, o estradinho fechado no ombro. Momento de felicidade. Prenúncio de felicidade: a felicidade mesmo é quando ele levanta a tampa da caixa, quando vejo as divisões, cuscuz com ou sem coco, as tiras de canjica. A maioria vem de Dois Unidos e em Olinda da Vila Popular. Como o Capibaribe, eles podem surgir em qualquer bairro, em qualquer volta do caminho, na parte da tarde e até o escurecer. Se me perguntassem qual o som da felicidade eu responderia o do apito do homem do cuscuz.

Tabuleirinho que me seduz, mais achatado, silencioso, é o do homem do doce japonês. Outro parêntese. O delegado de Ipojuca quando eu era menino, eu doido por doce japonês ou qualquer outro, era um sargento gordão, de que os meninos morriam de medo. Lá vem na rua, de barro naquela época, o menino Jabuti gritando: “Doce japonês!” O sargento parou, mandou arriar o tabuleiro, comeu um pedaço do doce e disse ao menino: “Cabra! Você não sabe que estamos em guerra com o Japão?” Sabia lá Jabuti pra que lado ficava o Japão! “Se você sair por aí gritando ‘Doce japonês’ eu meto-lhe na cadeia”. Comeu outro pedaço de doce e foi embora. Jabuti botou o tabuleiro na cabeça e saiu gritando: “Doce! Ói o doce!”

Tanto o vendedor de cuscuz quanto o do japonês, primeiro tiram do ombro e abrem o estradinho em xis, botam a lata em cima e a “rudia” (rodilha) nas travessas do encontro das pernas em xis do estrado.

Este, doce japonês, ainda é para mim mais mortal. Açúcar puro e coco ainda mais. Gostam de ficar parados em algum lugar muito frequentado, porta de banco etc. Coco, amendoim, goiaba, batata doce. Fico em dúvida e experimento mais de um. Gostava também de pirulito, meio desaparecido ultimamente, ou sou eu que deixei de andar na rua, as pernas já sentindo o peso da idade. Inda alcancei o homem da bolinha de cambará.

Por hoje só deu para falar de doce. Faltou mel de engenho, o homem vendendo numa cabaça e gritando: “Mé novo di ingein!” Aliás o rei de todos os doces. Com farinha principalmente... 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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