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Moda: Criações artesanais e autossustentáveis

Profissionais pernambucanos desenvolvem técnicas de reaproveitamento de materiais que seriam descartados pela indústria, usando-os como matriz para a confecção de peças feitas à mão, cheias de

TEXTO CAROL BOTELHO
FOTOS DANIELA NADER

01 de Março de 2016

Mulheres de Argila (Caruaru) criam peças aproveitando as sobras do jeans

Mulheres de Argila (Caruaru) criam peças aproveitando as sobras do jeans

Foto Daniela Nader

A moda é artesanal. Requer desenho, modelagem, corte, costura, bordado, aplicações, pinturas… A industrialização e a falta de qualidade do produto handmade têm banalizado técnicas seculares como a renda e o crochê, mas quem conhece um bom trabalho feito à mão sabe o quanto ele vale. Que o digam a alta qualidade da renda francesa, o couro artesanal italiano, a roupa bem-cortada inglesa, a mistura de tradicionalismo com futurismo japonês. Cultuar o regionalismo e as tradições sempre rendeu frutos nas passarelas mais originais mundo afora. Só no Brasil é que ainda penamos com o complexo de colonizados e continua-se a reagir mal quando se ouve a palavra regional. Isso porque o termo foi caricaturado, apequenando trabalhos valiosos que se ocultam sob ele. Esse preconceito também recai sobre o artesão, visto muitas vezes como um coitadinho que precisa de caridade para não morrer à míngua. Não é bem assim. Alguns só precisam de um assessoramento em design para aplicar técnicas novas sem perder as raízes estéticas.

A parceria entre artesãos e designers gera resultados preciosos. Só para citar um criador conhecido nacionalmente: o estilista mineiro Ronaldo Fraga, cujo trabalho bebe na fonte do regionalismo, é originalíssimo e de vanguarda, e busca fazer associações entre moda, design e artesanato, atualizando um conhecimento cultural e regional rico e cheio de identidade. Quem sabe a moda brasileira um dia largue a mania de copiar o produto europeu, e estilistas como Fraga e outros poucos deixem de ser exceção para se tornar regra.


Grupo do Agreste teve orientação de Melk Z-Da e hoje caminha sozinho

Entre as exceções, está o estilista pernambucano Melk Z-Da envolvido no projeto Mulheres de Argila – Artesanato em Trama, desenvolvido no Alto do Moura, bairro caruaruense que reúne vários artesãos com moradia ou ateliês mantidos ali. Contradizendo a hegemonia da produção em barro – evocada sempre ao lembrar o artesanato de Caruaru –, esse trabalho é desenvolvido em tecido, mais especificamente em denim, ou o “bom e velho” jeans, uma produção que ecoa o presente econômico da região – abrigo de um polo têxtil.

Ainda assim, essas mulheres se autodenominam “de argila”, porque a produção de potes de barro é herança da cultura indígena da região. “A argila é o que dá a liga, não quebra, é forte”, explica Marisete da Silva, gestora desse projeto de turismo, cultura e artesanato. Ela está à frente do grupo desde o início, há cinco anos, por iniciativa do Sebrae, através do Centro Pernambucano de Design (CPD), uma associação autossustentável, sem fins lucrativos, geralmente contratada por grandes empresas para desenvolver a economia com a aplicação de sustentabilidade social.


Pontas laterais do tecido costumam ser desperdiçadas
pela indústria

A ideia do projeto partiu de uma pergunta: o que fazer com 50 milhões de metros de ourelas (aquelas pontas laterais desfiadas do tecido, que geralmente não são utilizadas) jogadas fora mensalmente pelas indústrias de confecções do Polo Agreste? O dado foi levantado pelo Instituto Tecnológico do Estado de Pernambuco (Itep), em parceria com o Sebrae, e representa um problema para o meio ambiente. “Quando eu via essas tiras de tecido, só conseguia pensar que elas serviriam para amarrar pés de galinha ou para serem estampadas com florzinhas coloridas. Tinha essa visão pequena e restrita do artesanato”, lembra Marisete. Foi aí que entrou a expertise de Melk. “Ele criou uma trama manual feita sobre uma plataforma de isopor, que alcançou um resultado genial e trouxe várias possibilidades”, conta Marisete. As tiras são trançadas formando quadrados, retângulos, triângulos retos ou na diagonal, em tamanhos variados, dependendo da dimensão da peça.

ASSESSORIAS
Sob a orientação de Melk, as mulheres fizeram três coleções. Em uma delas, o estilista desenvolveu bordados e miçangas de argila, e aplicou em sua própria coleção, apresentada na Fashion Rio, extinta semana de moda carioca. Atualmente, o estilista não está mais prestando essa consultoria, e o grupo de cerca de 20 mulheres segue o próprio caminho, quer dizer, com uma mãozinha do Sebrae e de um morador de Caruaru, o médico e arquiteto Lúcio Omena, que cedeu um espaço de sua residência para os encontros semanais do grupo (aos sábados) e para a lojinha, na frente da casa. Ele também contribui com ideias para atualizar os produtos e participa de feiras de artesanato, ajudando a divulgar o trabalho.


Trama está em bolsas e tem acabamento em overloque para esconder o desfiado

É na casa de Lúcio que elas criam – a partir dessa trama manual – produtos sustentáveis e com design, como mochilas, malas de viagem, porta- tablets, colares, bolsas-carteiro, mantas, almofadas. “Nesse polo têxtil, é difícil encontrar costureira de ateliê que saiba fazer uma peça inteira. Por aqui, a mão de obra é para a costura industrial. As capacitações são sempre voltadas para o básico, para acessórios de moda. Modelagem é nosso grande entrave”, ressalva Marisete.

O desfiadinho típico da lateral do tecido, chamada de ourela, dá o toque rústico à peça pronta. No início, houve resistência por parte dos clientes, que viam aquele toque de rusticidade como algo inacabado, velho, sem valor. No entanto, esse não é o perfil do cliente atual da marca, que enxerga a preciosidade de cada detalhe artesanal. E, quando elas querem variar o acabamento, aplicam uma linha de overloque, escondendo o desfiado. O denim ganha tons de preto, vermelho, rosa, verde, amarelo… Quando as fábricas descartam brim de outras cores, é mais uma oportunidade para os acessórios fugirem do azulado do jeans, ou se misturarem com tons diferentes.

No que diz respeito ao design, não é o conjunto das associadas do Mulheres de Argila que desenvolvem todas as etapas dos produtos. Algumas apenas executam o que outras, como a administradora Nevinha Souza, idealizam. Integrante do grupo desde o seu começo e atraída pelo desejo de trabalhar com moda, Nevinha atualmente ministra a sua primeira capacitação. É ela a responsável pelo controle de qualidade e provocadora das discussões estéticas. É dela, por exemplo, a bela saia que está na abertura desta reportagem. “Quando fizemos a saia, percebemos que ficou pesada, que não é muito prática para o dia a dia. Mas estamos desenvolvendo ideias de como aplicar o tecido em detalhes de roupas”, comenta.

Também é ela quem pensa a cartela de cores, sempre vibrante, para manter-se afinada com o popular e artesanal que trazem como característica, independentemente de tendências de moda.


Sobras também servem à criação de acessórios da Fulô da Terra

O começo, ela conta, não foi fácil. As próprias artesãs não valorizavam o trabalho. Para que as peças não encarecessem, preferiam fazer porta-níqueis a mantas e mochilas grandes, contanto que vendessem em quantidade. “Mas não dava para desenvolver muito a nossa trama em um pedaço de tecido tão pequeno e fomos percebendo que estávamos desvalorizando nosso trabalho”, recorda Nevinha. Com o tempo, compreenderam que um artigo artesanal bem-feito tem o preço que merece. “Agora, vendemos para todo o Brasil e participamos de várias feiras, como a Fenearte.” Em outubro de 2015, elas foram convidadas para participar do projeto In-Mod, uma parceria do Sebrae com a São Paulo Fashion Week, que expõe projetos de inovação em design.

ACABAMENTOS
Perto de Caruaru, em Riacho das Almas, a associação Fulô da Terra, idealizada por Adjane Souza, conta com cinco mulheres – entre elas, Verônica Ferreira, Joselma Silva e Cleida Silva – para reutilizar as toneladas de ourelas que parariam no lixo, se não fosse a criatividade e a força de trabalho delas. “Aquelas ourelas caídas aos montes pelo chão me lembravam o cipó, matéria-prima comum na cidade”, relata Adjane. O pequeno município é o terceiro no ranking de quantidade de lavanderias de jeans da região e o sétimo no Polo de Confecções – para Adjane, deveria estar em quarto, não fosse pela informalidade.


Em Goiana, grupo desenvolve seus acessórios com casca de marisco

Ações como as da Fulô da Terra e da Mulheres de Argila ainda são poucas, diante de tantos resíduos, muitos descartados de maneira irregular, pois se trata de lixo industrial. Para chegar ao tecido, não foi fácil. Adjane conta que passou 14 anos pesquisando, entre madrugadas em claro, quebrando a cabeça, até chegar à ideia de costurar uma tira sobreposta à outra, resultando em uma textura quase que de pelúcia, graças ao desfiado natural das tiras. Para o tecido não se desfazer, costura-se o acabamento em overloque.

Descoberto o tecido, Adjane saiu em busca da sua comercialização. Esbarrou na qualidade. “Pernambuco tem variedade no artesanato, mas não capricha no produto final”, critica. “O Polo Agreste dá mais valor ao produto industrializado, acha o artesanal caro e demorado demais para produzir. Há fábricas que criam a mesma peça de roupa, com a mesma modelagem há 20 anos, e o pior é que vende muito!”


Assinatura é das artesãs do Quilombolas de São Lourenço

Atualmente, ela comercializa o tecido para as fábricas do Sul, para a produção de tênis, e está com a empresa incubada no Marco Pernambucano da Moda, no Recife, para receber aulas de design e agregar valor ao produto. Criado pelo Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções em Pernambuco (NTCPE), o Marco Pernambucano da Moda, que funciona em um prédio no Bairro do Recife, é uma escola de formação de estilistas e designers de moda voltada à profissionalização da criação e ao empreendedorismo.

Além do tecido, Adjane também fez bolsas para a marca pernambucana Lixiki, colares e detalhes de roupas, buscando deixar as peças o mais sustentável possível. “Nada de brilho nem metal, para não gerar outros resíduos”, pontua. Ao todo, sua produção chega a 200 metros de tecido por mês. “Tenho aprendido muito com o pessoal do Marco Pernambucano da Moda. Uma vez, o estilista Walter Rodrigues esteve lá ministrando uma palestra e, quando viu meu tecido, falou: ‘É fácil de fazer, mas ninguém tinha pensado nisso antes’”, conta a artesã.

MARISQUEIRAS
Saindo do interior para o litoral, a Continente foi conhecer o grupo Quilombolas de São Lourenço, uma associação de marisqueiras situada no município de Goiana, a 70 km do Recife. Elas criam acessórios a partir da casca dos mariscos catados na Praia de Carne de Vaca. A pesca do marisco é feita geralmente na maré seca e no verão, quando as águas estão mais claras e fica mais fácil de desenterrar a concha. No inverno, tem mais lama, é mais difícil, mas não impossível.

Mesmo sem tradição no artesanato, as marisqueiras foram procuradas em 2011 pelo Imaginário Pernambucano, um projeto desenvolvido pela Universidade Federal de Pernambuco, através do designer Ticiano Arraes. O projeto tinha o objetivo de trabalhar o design em comunidades artesãs para orientar o desenvolvimento do produto nessa perspectiva. “Foi bastante desafiador, porque nenhuma das 20 marisqueiras tinha experiência com artesanato. Mas o marisco está encravado no dia a dia delas, no cardápio, nas paredes, no chão, nas montanhas de mariscos nas ruas”, recorda Ticiano.

Elas aprenderam a selecionar os búzios por cor da linha e a combinar cores, pesquisando técnicas de torcer tecido. “Tentamos fazer o mais original, natural e artesanal possível. Não seguimos tendência, não passamos verniz nas conchas. É tudo sem brilho.”

No começo, eram 20 mulheres. Mas, depois que o dinheiro da primeira fase do projeto acabou, muitas foram se afastando. As mais entusiasmadas ficaram e, com elas, Ticiano foi conseguindo aprovar outros projetos, inclusive no Funcultura. Atualmente, são cinco: Cecília Gouveia, Iara Cardoso, Conceição da Cruz, Lenita Alves e Rosa Maria. No dia em que a reportagem esteve em Ponta de Pedra, três delas nos receberam. Fomos, então, conhecer o lugar, e Ticiano estava certo: fachadas são decoradas com mariscos e conchinhas cobrem o chão. Mas Conceição da Cruz adverte: “Quem é nativo e se criou no marisco não quer nem saber dele. Nem mesmo de comer”.


Artesãs no Recife descobriram a utilidade do couro de peixe e o material foi parar em peças arrojadas das passarelas

O público que consome os colares, as pulseiras, os cintos e as faixas de cabelo feitos com delicadas linhas de crochê, veludo e tricô – em cores vivas, muitas vezes remetendo a redes de pesca, adornadas por conchas e búzios, outras, a corais vivos – vem de fora: são veranistas, turistas, visitantes de outras paragens.

O artesanato complementa a renda das Quilombolas de São Lourenço. E a maior vitrine delas é a Fenearte, que só acontece uma vez por ano (julho), no Recife. Em 2015, finalmente, as Quilombolas conseguiram estande próprio dentro da feira pernambucana e participaram do desfile. Antes, ficavam acanhadas, em espaços coletivos, com pequeno destaque. “Como não vendemos muito, não temos condições de ir a outras feiras. Conseguimos apoio do Sebrae, da prefeitura, mas ainda é pouco”, diz Cecília Gouveia. Para ficarem mais próximas do público-alvo, elas pretendem montar um e-commerce, assim que tiverem condições financeiras.

COURO DE PEIXE
Apoio financeiro foi o que faltou para que o Centro Escola Mangue pudesse dar continuidade a um trabalho iniciado há cerca de oito anos, em Brasília Teimosa, bairro popular da zona sul recifense. O couro de peixe, outra matéria-prima usada antes somente para o descarte, pode “virar ouro” nas mãos de quem tem criatividade, conhecimentos de design e técnica para curtir o couro, que não é mole, não.

“Em um primeiro momento, começamos a curtir o couro de peixe com sal e casca de mato. Mas o resultado não foi satisfatório. O material ficava duro demais”, recorda Luciana Maria da Silva, coordenadora da associação. Em seguida, elas conseguiram várias capacitações e começaram a curtir o material com amaciante e óleo mineral. “Passamos o couro de tilápia e de pescada amarela na máquina de lavar para ficar mais maleável”, conta Taciana Melo. Ainda assim, não dava para fazer bolsas e sapatos, que era o que elas queriam.

Foi quando surgiu a oportunidade de participar de uma capacitação oferecida pela AD/Diper, em 2009, através da grife de moda praia Movimento. Comandada pela estilista e proprietária Tininha da Fonte, a marca ensinou o grupo de Brasília Teimosa a criar biquínis e colocar o couro de tilápia no detalhe das peças, já que o material era duro demais para ser trabalhado na modelagem. O maquinário foi cedido pela grife e as peças desfilaram na São Paulo Fashion Week, evento de moda mais importante do país.

“Prestei uma consultoria de seis meses. Ensinei a fazer biquíni do começo. Elas ficaram empolgadíssimas. Foi muito legal. O trabalho foi bem-divulgado, saiu em revistas e o couro agregou valor ao produto. Pena que não houve continuidade”, lembra Tininha. Procurada pela revista, a AD/Diper conta que fomenta projetos para que depois se desenvolvam sozinhos.

Sem maquinário, não deu para continuar o trabalho e o grupo teve que fazer uma longa parada. Agora, está voltando a produzir, mas quer investir em joias. Para isso, as artesãs estão incubadas no Marco Pernambucano da Moda e já têm presença garantida na edição 2016 da Fenearte. Desdobrando-se, contudo, para aprimorar qualidade e apresentação – e ainda buscar um método mais eficaz de amaciar o couro.

“Estamos trazendo um pessoal da Paraíba para nos ensinar uma técnica de curtimento. Conseguimos doação de couro de atum, mas as empresas de pescado já estão começando a cobrar pelo couro, que antes era jogado fora”, conta Luciana Maria da Silva, que também pretende voltar a se dedicar aos biquínis, assim que tiver apoio para conseguir o maquinário. 

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