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As mulheres e a música pesada

Presença feminina no heavy metal tem sido marcada, desde o surgimento do gênero na década de 1960, pela exceção

TEXTO Ulysses Gadêlha

01 de Março de 2016

A voz extrema de Angela Gossow virou referência em 2000, ao assumir a frente da banda Arch Enemy

A voz extrema de Angela Gossow virou referência em 2000, ao assumir a frente da banda Arch Enemy

Foto Back Stilettos (Flickr)

O filme Ricki and The Flash, que estreou no Brasil em setembro de 2015, tem como protagonista a cantora de rock Ricki Rendazzo (Meryl Streep). Essa personagem sintomática, que trocou os filhos pelo palco, que viveu o sonho da música, é bastante comum em sua versão masculina, vide tantos rockstars que gozam da cultura de sexo, drogas e rock’n’roll. A excentricidade de Ricki, no entanto, revela um contexto conservador na música pesada, na qual a hegemonia masculina reserva às mulheres basicamente a objetificação ou a desconfiança. Para transgredir os estereótipos e os valores primitivos do metal, as próprias headbangers projetam a transição para uma cena mais democrática, ampliando essa representação.

Por convenção, o heavy metal surgiu no final dos anos 1960 e se popularizou nos anos 1970, criando ramificações nas décadas seguintes. Segundo o professor de Comunicação da UFPE Jeder Janotti Junior, autor do livro Rock me like the devil, a sonoridade do heavy metal é essencialmente um conjunto amplificado que reúne a distorção da guitarra, o pulso da bateria e do contrabaixo, com os vocais em sintonia vibrante com os instrumentos. Citando o pesquisador Robert Walser, ele descreve que “é somente em um momento histórico particular que a distorção passou a ser percebida em termos de poder em vez de falha, transgressão intencional em vez de sobrecarga acidental – como música em vez de barulho”.


A cantora e guitarrista Lita Ford foi o primeiro grande nome feminino
do heavy metal, nos anos 1980. Foto: Reprodução

“Pensar as ‘identidades culturais vividas’ nas cenas como ‘estilos de vida’ é perceber as íntimas relações que envolvem práticas de consumo, fruições estéticas e identificações sociais em torno do que é nominado de diferentes modos como ‘cenas musicais’. (…) Seja para falar do peso, da distorção ou da intensidade sonora, há a afirmação do masculino como corpo hegemônico no metal”, aponta Janotti. Ele julga que a performance do corpo masculino não se constrói sem a emergência, mesmo que conflituosa, do feminino. O maior sintoma dessa incongruência na cena é a baixa representação das mulheres, em termos quantitativos. Existe a exploração do apelo sensual e do “exotismo” pela baixa incidência desse gênero nas bandas, mas a comparação de performance e estilo entre os sexos é o que mais segrega os artistas. Além disso, o ponto de vista feminino está ausente no discurso do heavy metal, pelas circunstâncias que se desenharam ao longo do tempo.

HISTÓRIA
Em um breve histórico, temos os grupos The Runaways (1975-1979) e Girlschool (1978) como referências iniciais de banda feminina na música pesada, quase 10 anos após o surgimento do estilo. Nesse meio, surge o primeiro grande nome do heavy metal, a vocalista e guitarrista Lita Ford. Nos anos 1980, ela lançou três discos e recebeu uma nomeação ao Grammy na categoria de Melhor Performance Feminina de Rock”. Na mesma época, outras figuras apareceriam, como as vocalistas Doro Pesch e Lee Aaron, e a banda Vixen, integralmente feminina. Elas seriam marcadas pelo apelo sensual, e se vestiriam para agradar ao público masculino. A vocalista Sabina Classen, do Holy Moses, também irrompe naquela década, mas ela se comporta como exceção desse grupo inicial, pois é uma das primeiras a cantar gutural. Aos poucos, percebemos que grande parte da história da mulher no metal é feita de exceções, como aponta o jornalista e vocalista de banda de heavy metal Wilfred Gadêlha, autor do livro PEsado – Origem e consolidação do metal em Pernambuco.

A década de 1990 traz o grunge e o movimento das Riott Grrrls – com fanzines undergrounds –, responsáveis por introduzir algo de feminismo na música pesada. O death e o black metal abrem espaço para backing vocals femininos, ampliando esse horizonte para vertentes mais agressivas. De acordo com o blog Moda de Subculturas, no artigo As mulheres no heavy metal, a vocalista extrema Karyn Crisis vivenciaria, em 1996, episódios vexatórios para sua carreira. O baixista de sua nova banda pediu demissão, ao saber que uma mulher seria parte do grupo. Além disso, casas de show evitavam receber bandas com mulheres na formação. O público hostil, por sua vez, virava as costas para elas, por acreditar que uma garota não deveria cantar gutural.

Porém, nesse mesmo período, surge a cena symphonic e gothic metal – as bandas Nightwish, Epica, Within Temptation, Tristania, Lacuna Coil, por exemplo –, cujo vocal semioperístico próprio desse subgênero é bem-desempenhado por cantoras. “Em algumas bandas, as mulheres não tinham o mínimo poder de liderança e participação na composição”, critica o Moda de Subculturas. Na cola desse movimento, surge a banda de rock norte-americana Evanescence, na qual a vocalista Amy Lee passa a atuar como frontwoman, popularizando essa postura para as massas. “Ao contrário das vocalistas europeias, ela usava sua voz natural, era coautora de todas as letras e músicas do álbum, líder da banda e seu apelo sensual era muito discreto, nem agressivo, nem sexy demais”, descrevem as blogueiras.

Na década de 2000, aparece a maior referência feminina no heavy metal: a vocalista extrema Angela Gossow, assumindo como frontwoman da banda de death metal sinfônico Arch Enemy. O vocal gutural em si não traz inovações estéticas, mas a surpresa se deve ao fato de que ela substituiu Johan Liiva, um homem, um vocalista estabelecido na cena desde 1989. “O mais interessante é que ela se firmou sob a chancela de Michael Amott, um cara respeitadíssimo no metal, que já tocou no Carcass, no Mercyful Fate, Candlemass; um cara que tem uma história no metal e disse: ‘A vocalista da minha banda vai ser uma mulher’”, descreve Wilfred Gadêlha.


A banda sueca Crucified Barbara se destaca por sua músic e performance.
Foto: Paul Senna/Divulgação

“Uma musicista não precisa mais se preocupar com a marca do biquíni, porque ela sabe como empunhar um microfone ou uma guitarra”, aponta Angela Gossow, em entrevista reproduzida no site Whiplash. A vocalista é crítica ferrenha dos entusiastas do apelo sensual em detrimento da expressão musical, tal como a publicação Hottest Chicks, da revista Revolver. “Eu não uso roupas femininas para chamar a atenção, eu uso porque é meu estilo”, define.

Outros nomes de destaque aparecem no boom, como a guitarrista australiana Orianthi, que já tocou com a banda de Alice Cooper. Ela despontou na mídia depois de tocar com Michael Jackson, mas o seu talento atraiu a atenção de guitarristas consagrados, como Steve Vai e Carlos Santana. A banda sueca Crucified Barbara, cuja música Rock me like the devil dá nome ao livro de Jeder Janotti Junior, é destaque na cena do seu país e traz uma subversão curiosa em sua atitude. Segundo o pesquisador, a música delas trata de mulheres que simplesmente assumem o lugar do masculino e, atuando como mediadoras, “transformam, traduzem, distorcem e modificam o significado ou os elementos que supostamente veiculam”. Em constante negociação entre masculino/feminino, as Crucified Barbara “circulam no universo do rock pesado, incluindo as contradições e sexismo desse universo, mas, ao mesmo tempo, são mulheres e musicistas”.

BRASIL
No Brasil, a primeira banda com mulheres foi a Volkana, de heavy e thrash metal, surgida em 1987, em Brasília. Na década de 1990, elas fizeram um show no Recife junto com o grupo Ratos de Porão (hardcore). “O show foi em 1991, no Sport. No final, lembro que elas desceram para falar com o público, mas uma parte as assediou, forçando as meninas a voltarem pro camarim”, rememora Wilfred Gadêlha. A Volkana segue firme até hoje, agora com um homem na formação. Vale destacar também que o Torture Squad, primeira banda brasileira a vencer a “Metal Battle” do festival Wacken Open Air, na Alemanha, hoje conta com uma frontwoman, Mayara “Undead” Puertas.

A popularização feminina ocorrida na década de 2000 ainda não desfez o paradigma de exceção que a mulher enfrenta no metal, segundo Wilfred Gadêlha. “Está aumentando essa participação e isso se reflete principalmente no público. O metal é um meio muito machista, racista, conservador, no final das contas. Isso é reflexo do início do estilo, em que você tinha aquela música mais agressiva feita para homens brancos, adolescentes, operários. Talvez ela reflita o que há de mais conservador na sociedade, mas vejo isso como uma época de transição. O crescimento das mulheres no metal vai ajudar a deixar a cena menos conservadora”, acredita o jornalista. 

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