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Streaming: Quadrinhos na tela

Aplicativos de leitura, como o Cosmic, o Social Comics e o Comix Trip, chegam ao Brasil oferecendo suporte aos amantes das HQs e buscando conquistar novos públicos

TEXTO Paulo Floro

01 de Janeiro de 2016

Imagem Arte sobre foto de divulgação

A leitura de quadrinhos sempre esteve ligada a uma experiência intrínseca com o suporte físico no qual as histórias estavam impressas. A materialidade do papel, o tamanho das páginas, o percurso dos olhos na leitura dos quadros. O grande mestre Will Eisner (1917-2005), que publicou livros teóricos sobre HQs em uma época sem o domínio da internet, escreveu a respeito da comunicação bastante interativa dos quadrinhos e seu potencial expressivo. “As histórias em quadrinhos comunicam numa ‘linguagem’ que se vale da experiência visual comum ao criador e ao público”, registrou Eisner, em 1999. Agora, eis que leitores e autores buscam uma nova experiência de leitura com a disponibilização dos serviços de streaming de histórias em quadrinhos e aplicativos de leitura, como o Cosmic, Social Comics e o Comix Trip, que chegam quase simultaneamente ao mercado brasileiro.

Essas novas plataformas de leitura fazem parte de um fenômeno recente nos quadrinhos em todo o mundo. A mídia das HQs chegou depois, em relação às novas possibilidades do entretenimento digital, quando hoje já existem empresas de sucesso como Netflix, no audiovisual, e Spotify e Deezer, no mercado de músicas. Os aplicativos de quadrinhos buscam a mesma mecânica: uma grande oferta de títulos por um preço relativamente baixo de assinatura. O usuário consome aquele produto quando quiser e ainda pode compartilhar suas impressões nas redes sociais. Um dos novos apps é o Cosmic, criado por empreendedores do Ceará. Ao custo de R$ 15,90, o usuário pode ter acesso a cerca de 50 títulos iniciais e usar o leitor para conhecer outras HQs que estejam salvas no dispositivo, seja computador, smartphone ou tablet. “O Netflix é uma referência importante pra gente, pois ele conseguiu marcar uma posição dentro do audiovisual, além de resolver uma questão de circulação”, afirmou o CEO Ramon Cavalcanti à Continente, em seu estande no mesmo Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte. O evento, o maior da América Latina, deu destaque em 2015 às novas tecnologias voltadas à arte serial.

A criação do Cosmic se deu após diversas tentativas de vencer dificuldades inerentes à produção do meio, em geral bem caras. Os sócios-fundadores do aplicativo, Ramon e George Pedrosa, são quadrinistas e sentiram na pele os empecilhos de custear e distribuir seus trabalhos. “Os custos de distribuição e impressão, hoje, são altíssimos. E, ao final de toda a cadeia, o autor não é bem-remunerado. Com o Cosmic, esperamos mudar esse cenário, barateando a produção e pagando melhor os criadores”, disse. No modelo de negócios da empresa, o aplicativo fica com 30% do valor da assinatura e o autor, com 70%. Além disso, há um algoritmo que identifica quais títulos são mais lidos, o que pode aumentar a remuneração. “Queremos que os quadrinistas engajem seus leitores em nossa plataforma, o que gera uma ligação direta entre quem está consumindo e o autor.” A expectativa é que cinco a seis títulos sejam lançados por semana. Entre os autores já disponíveis, estão nomes importantes do cenário atual, como Pedro Cobiaco (e seu delicado Harmatã) e o paraibano Shiko, com Marginal.

Outro aplicativo com boa repercussão é o Social Comics, para android e iOS, criado em São Paulo pelos mesmos organizadores do Comic Con Experience, maior evento de cultura pop do Brasil. Ele chega ao mercado com um acervo de 800 títulos e parcerias com grandes editoras, como a JBC, Devir e Mythos, afora produtoras e autores independentes. “Além de criar um serviço de assinatura de quadrinhos, a grande sacada do Social Comics está na habilidade do trabalho realizado junto aos artistas, às empresas do ramo e, principalmente, aos fãs de HQs. Essa expertise é o que nos distingue”, disse João Paulo Sette, CEO do Social Comics, por e-mail. Apostando em uma demanda reprimida de consumo digital de HQs, a expectativa é chegar a 10 mil usuários até 2016. O valor da assinatura é de R$ 19,90 com 14 dias de degustação gratuita.

A plataforma também funcionará para o lançamento de autores, outra benesse trazida por essa popularização do streaming. “Se um autor ou grupo de artistas não conta com editora, nosso serviço funciona como uma ferramenta de divulgação e rentabilização de seu trabalho criativo”, explicou João Paulo. Entre os autores no app estão Mike Deodato, Daniel HDR, o coletivo Quad Comics, e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá.


Webcomic, de Diego Sanches, está no coletivo Quad Comics.
Foto: Divulgação

O paulista ComixTrip tem como diferencial o foco no quadrinho nacional. O seu criador, Alexandre Montadon, também quadrinista, coloca como missão o desafio de popularizar as HQs para quem não é leitor habitual ou colecionador. Dono da Qualidade em Quadrinhos Editora, voltada para obras didáticas e institucionais, sua experiência na área digital se deu após criar um aplicativo de leitura a pedido do Sebrae. Deu tão certo, que ele decidiu investir em algo parecido para dar mais visibilidade aos títulos brasileiros de quadrinhos. “O sonho da gente é levar quadrinhos para 100 mil pessoas. Acredito que os aplicativos de streaming são a forma mais viável, a médio prazo, de conseguir fazer isso. No impresso ainda é bem difícil chegar a essa tiragem.”

LÓGICA DE MERCADO
Ainda que as editoras não divulguem números consolidados de tiragens e vendas, é possível perceber esse mercado bem-aquecido pelo número de novos títulos que chegam às bancas e livrarias. No FIQ, que aconteceu em novembro de 2015, o número de autores lançando novas obras havia triplicado em relação aos dois anos anteriores. No entanto, o mercado não consegue acompanhar esse crescimento do número de leitores. E as obras não param de aumentar de preço. Um dos motivos diz respeito justamente às baixas tiragens, preço do papel em alta e custos de distribuição e logística.

Para enfrentar essa barreira, os autores foram em busca de uma nova lógica de mercado. A primeira solução encontrada foi o financiamento coletivo, em plataformas como o Catarse e o Kickante. Autores mostravam seu trabalho e leitores compravam o título como uma espécie de pré-venda. Se o projeto fosse bem-sucedido, a produção era iniciada e todos os apoiadores ganhavam o livro e outras recompensas. Em caso contrário, todo mundo que investiu recebia o dinheiro de volta. Esse modelo mostrou o potencial do quadrinho autoral e chamou a atenção de editoras, que foram atrás desses novos nomes para aumentar o alcance com o lançamento em livrarias. Apenas o Catarse chega a ter 50 projetos simultaneamente em busca de financiamento. O streaming representa um segundo momento nessa busca de um maior alcance dos quadrinhos no Brasil.

Para os criadores dos aplicativos de streaming, o público-leitor brasileiro de HQ ainda está longe do seu potencial. “Existe um público grande que gosta de histórias boas e é nele que devemos apostar. Digo isso porque minha editora já vendeu mais de 6 milhões de obras para quem não lê quadrinhos”, afirmou Moldanon, em seu estande no FIQ. “Outra grande sacada do streaming é cobrar um preço que você nem sente no final do mês e ter acesso a um grande volume direcionado aos seus gostos. Desse jeito, conseguiremos chegar a quem ainda não lê HQs de forma habitual”, disse Ramon, do Cosmic.

E a experiência do papel, supostamente bastante relacionada aos quadrinhos? “O streaming não chega para substituir a HQ de papel, é apenas uma nova experiência. Muda apenas o suporte”, disse Moldanon, do ComixTrip. 

PAULO FLORO, jornalista, escreve para a revista digital O Grito!.

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