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Frevo: O ritmo como espinha dorsal

Frevotron e A Troça FrevoAltenativo produzem experimentações sonoras, aliando o gênero musical a outros, como a eletrônica e o rock’n’roll

TEXTO Maria Eduarda Barbosa

01 de Janeiro de 2016

Frevoton é formado por Maestro Spok, DJ Dolores e Yuri Queiroga

Frevoton é formado por Maestro Spok, DJ Dolores e Yuri Queiroga

Foto Beto Figueiroa/Divulgação

A mistura de gêneros musicais não é novidade em Pernambuco. As guitarras urbanas misturaram-se às alfaias do maracatu, no Manguebeat, que explodiu nos anos 1990, trazendo remanescentes até os dias de hoje. Dois projetos navegam na corrente do hibridismo musical que tanto permeia não só Pernambuco como o Brasil: Frevotron e A Troça FrevoAlternativo. Longe de criar um movimento ou se inserir em algum já existente, eles colocam o frevo como uma espinha dorsal de suas músicas. É a partir do ritmo secular que esses grupos criam agradáveis experimentações sonoras.

Da contração entre o frevo e eletrônico, surgiu o Frevotron, projeto que nasceu em trabalhos realizados pelo Maestro Spok, DJ Dolores e Yuri Queiroga. Esses dois últimos são parceiros na música desde 2007, quando começaram a gravar juntos. Em uma turnê feita por eles, no Canadá, surgiu o projeto Stank, o precursor do Frevotron, repleto de experimentações, música eletrônica e com a produção de um EP com seis faixas, lançado por um selo londrino. A princípio, o Frevotron seria apenas um show com os três integrantes juntos. Mas, aí, iniciou-se a gravação das músicas que compõem o primeiro disco do projeto, lançado virtualmente em outubro de 2015. “A primeira vez em que a gente se juntou em um estúdio para tocar foi a pedido de uma TV da Noruega, que fez uma matéria aqui, no Recife. A gente preparou uma faixa e deu uma entrevista a eles já como Frevotron”, conta Yuri Queiroga. Esse nome surgiu a partir de conversas entre DJ Dolores e Jorge Du Peixe. “Sobre unir nossos amigos para recriar e atualizar, de modo pop, esse gênero que tanto nos agrada, não apenas musicalmente, mas também como identidade cultural”, completa Dolores.

Apesar de partir do frevo, o projeto se expande para outros gêneros musicais que trazem influências dos três integrantes, como a música popular, a eletrônica, o jazz, o rock’n’roll e o hip hop. Inicialmente, o projeto seria apenas um trio instrumental, mas se tornou uma grande colaboração, na qual as canções possuem letras de artistas como Jorge Du Peixe, Otto, Lira, Marion Lemonier e MC Sombra, além da participação de Jam da Silva em quatro faixas.

Todas as letras foram compostas pelos próprios artistas. “Não teve ninguém que cantasse uma letra que não fosse sua”, ressalta Yuri. Apesar disso, o Frevotron torna-se um trio instrumental nos shows. Nessa ocasião, as vozes entram apenas como samples, que DJ Dolores solta durante alguns momentos. Yuri também conta que Dolores é quem fica mais à frente no processo de produção. “No final, sempre tem o último corte dele na edição. Por isso, acaba sendo muito próximo da música eletrônica”, pontua.

No primeiro disco do Frevotron, as 10 faixas trazem o frevo harmonicamente simplificado. Intitulada Invocação #2, a canção que abre o álbum também foi a primeira a ser produzida pelo trio e é totalmente instrumental. Enquanto isso, Marion Lemonnier adentra-se no universo ainda hegemonicamente masculino da música e colabora, a distância, em duas músicas, Soufle et son e The last train, sendo essa última também com a participação de Lira. Em meados de janeiro de 2015, o trio gravou as vozes de Jorge Du Peixe, que faz parte da canção Travessia, MC Sombra (Garoto-rima) e Otto, em Frevo escroço. Já a faixa Bela Vista Social Club homenageia a dupla Waldir Português e Edinho Jacaré, que comandam a comentada festa Cubana, que ocorre no Clube Bela Vista, no Bairro de Água Fria, zona norte do Recife, tendo a música latina como protagonista.

A capa do disco tem ilustração do paraibano Shiko, que desenhou um corpo com cabeça de elefante. “Gostamos da ideia, por ser um animal que tem um ‘instrumento de sopro’ em sua constituição física, por ser pesado e estranho, e principalmente pela fama de ter boa memória”, comenta Dolores.

DE REPENTE, ROCK
A Troça FrevoAlternativo – é a partir dessas duas nomenclaturas que o grupo de Camaragibe designa seu significado. O grupo surgiu em meados de 2009, quando o vocalista Uel Borges retornou de João Pessoa a Pernambuco. Influenciado pelo sertão paraibano e pela visão de fora sobre seu estado, as composições nasceram ao longo de sua estada de dois anos na Paraíba. “A banda surge com cinco canções, de gêneros diferentes. A gente chamava de regional, porque tinha baião, forró e tal”, conta Uel.


A Troça surge do desejo dos intagrantes de praticar "guerrilha" musical com o frevo.
Foto: Kristopher Kim/Divulgação

Em casa, Uel teve uma base musical. Seu pai é violonista e o irmão toca saxofone. “A brincadeira da gente era compor. Cantávamos músicas que inventávamos”, rememora o vocalista.Mas foi numa breve diáspora que Uel passou a compor. “Música tem muito a ver com a imagem, para mim. O cenário nordestino me ajudou a criar. Há muita propriedade quando a gente fala da caatinga, dos olhos verdes das pessoas. Em algumas músicas, repito esse termo: olhos verdes da cor de cana. Tenho uma escrita muito voltada para a imagem, para a fisionomia das pessoas”, exemplifica.

Na Paraíba, ele começou a fazer canções para sua cunhada cantar. Mas ela não as utilizou e, como resultado, ele criou a banda, que conta com mais cinco integrantes, incluindo seu irmão Ivson Borges. Inicialmente, havia uma forte influência regional. A música A volante, por exemplo, é recitada, porém com uma base rock’n’roll. A partir da nomenclatura troça, que foi colocada por dois ex-integrantes, surgiu a ideia de falar sobre situações lúdicas, carnavalescas. O nome passou a orientar o ritmo. Nos shows, a banda interage com o público através de um megafone, referência à cultura popular.

Para o vocalista, é necessário ir além da mistura de ritmos. Isso porque ele passou a observar o público nos carnavais recentes. As pessoas dançavam, mas tinham uma reação de estranhamento assim que a banda mudava do frevo para o rock. Hoje, o grupo preocupa-se em usar o ritmo pernambucano como elemento principal das músicas.

A Troça possui dois EPs, lançados e gravados de maneira totalmente independente. O primeiro, intitulado Na quarta-feira, conta com três canções, enquanto o segundo, Megafone frevo, possui oito músicas. Nesse último, a discussão em torno do frevo atinge seu ponto alto. “É a culminância do que a gente pensa a respeito da guerrilha que temos com o ritmo, que é um patrimônio nosso, e a gente não consegue ouvi-lo o ano inteiro”, observa Uel.

Nesse EP, a banda utiliza dois elementos indispensáveis. O frevo como ritmo e o megafone, cuja função é, segundo o vocalista, ser um instrumento de protesto. “Se eu tenho um ritmo que é patrimônio da minha cultura, por que não posso exercê-lo o ano inteiro? Quero que as pessoas absorvam isso e que não se sintam incomodadas em ouvir a banda em outras épocas do ano.” O próximo EP do grupo tem previsão de lançamento para 2017. No entanto, ele já possui um título: O homem que perdeu sua batuta, só que em latim. Será uma homenagem ao avô do baixista, que foi barrado no seu próprio bloco de carnaval. 

MARIA EDUARDA BARBOSA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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