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'Ato e efeito': Memória afetiva da experiência teatral

Canal no YouTube 'Ato e efeito' abriga vídeos inéditos e de curta duração que registram trechos de peças representativas na carreira de atores

TEXTO Ulysses Gadêlha

01 de Dezembro de 2015

Michel Blois leu texto de 'Adorável garoto', do autor americano Nicky Silver

Michel Blois leu texto de 'Adorável garoto', do autor americano Nicky Silver

Foto Ato e efeito/Divulgação

O teatro é, essencialmente, a arte de contar histórias ao vivo, um jogo perigoso entre público e elenco, como caracterizou Ricardo Darín, em Sangue latino. Contudo, é legítimo para o aficionado guardar essa memória afetiva. Essa ideia de registro origina o canal do YouTube Ato e efeito, no qual atores sobem ao palco e interpretam trechos de peças representativas em suas vidas, tendo por base a leitura do próprio texto, em sessões registradas em filmes de curta duração. Na concepção dos realizadores, Ato e efeito não é montagem, não é leitura dramatizada. Causa estranhamento pelo seu valor estético e artístico diferenciado, mas é construído com elementos comuns do próprio teatro. Trata-se de um perfil e um olhar sobre a arte dramática.

O projeto foi idealizado pelo crítico teatral Rafael Teixeira, junto aos sócios da produtora Tocavideos, Fernando Neumayer e Luís Martino. O estúdio Radiográfico é responsável pela identidade visual do projeto, desde a fonte e a logomarca até a vinheta com as mãos simbolizando a dualidade – ato e efeito. “Não houve patrocínio algum. Nós tiramos do nosso bolso. Sem um minuto de vídeo filmado, nós apresentamos a ideia ao estúdio Radiográfico e eles toparam na hora, ficaram entusiasmados. Os teatros também nos foram cedidos sem custo. Ficamos surpresos, porque eles ofereceram operadores de luz, alguém pra operar a mesa. Foi lindo”, conta Rafael Teixeira, em entrevista por telefone.

O lançamento do canal ocorreu no Tempo_Festival, em outubro, no Rio de Janeiro, com a exibição da primeira temporada do Ato e efeito, dividida em sete vídeos (atos) de até seis minutos. Cada ato é iniciado por um comentário introdutório à leitura, para situar o espectador. Nesse momento, ouve-se apenas a voz do ator em off, coberta por imagens de um Rio de Janeiro banal, seu trânsito, ruas anônimas, transeuntes. Em seguida, à paisana, com o papel na mão, surge o intérprete no centro do palco, ora sentado, ora em pé, dando vida à fala do personagem. “Tentamos colocar o ator numa situação que não é a da peça, para causar uma sensação diferente. Eles ficaram muito desnorteados num primeiro momento, porque só tinham usado o texto impresso nos ensaios. Não é uma leitura branca, desprovida de emoções. Queríamos que as pessoas interpretassem”, esclarece Teixeira.

A primeira aparição é do ator Gregório Duvivier, integrante do canal Porta dos Fundos, recitando um trecho do monólogo Uma noite na lua, do pernambucano João Falcão. O segundo vídeo é protagonizado por Charles Fricks, que lê a adaptação de Um filho eterno, escrito por Cristóvão Tezza. A atriz Débora Lamm, que faz parte do Zorra Total, evoca uma personagem do espetáculo Os mamutes, do jovem autor Jô Bilac. O quarto ato é de Gustavo Gasparini, com a peça Ricardo III, do clássico William Shakespeare. A quinta faixa é do ator Michel Blois, no texto do autor americano Nicky Silver, Adorável garoto. A peça Uma vida boa, do paulista Rafael Primot, é lida por Amanda Mirasci, que já recitou um poema de Eugênio Andrade no canal Toda Poesia. A temporada é fechada com mais um texto de Jô Bilac, Conselho de classe, interpretado por Leonardo Netto.


Débora Lamm, atriz do Zorra Total, da TV Globo, participa com um personagem do espetáculo Os Mamutes. Foto: Ato e efeito/Divulgação

CURADORIA
A escolha dos atores e textos ficou a cargo de Rafael Teixeira, que prezou por uma variedade geográfica e temporal. “Queria ter autores estrangeiros clássicos e contemporâneos, como Shakespeare e Nicky Silver. Temos autores brasileiros contemporâneos, como Jô Bilac e Rafael Primot. Agora, realmente ficou faltando um clássico, como Nelson Rodrigues, que pode vir numa próxima temporada”, relata. Para os atores, pensou-se em homens e mulheres de gerações distintas. “Pra ser sincero, fui em atores que eu conhecia, pessoas que presumia que fossem topar. É muita gente pra casar, mas houve uma adesão muito grande. Nosso elenco é irrepreensível”, afirma Rafael. Na produção, as imagens sofreram cortes de edição, mas os áudios eram gravados de uma vez, prevalecendo a tentativa que o ator escolhesse.

A seleção das peças trouxe um recorte emblemático dos personagens para Ato e efeito. Havia narradores excêntricos, como os dois escritores, a criança, o transexual ou a professora, comungando de um discurso incompatível com a realidade deles. “A gente não pensou em unidade temática de personagens. A minha ideia sempre foi de tentar diversificar. O que a gente pretendia, enquanto projeto, era ter falas. Não existe uma que sintetize a peça, mas não precisa entender tudo. São falas que fazem sentido em si mesmas”, aponta o organizador.

Com poucas visualizações para o parâmetro de sucesso do YouTube, Ato e efeito ganhou o conhecimento da cena cultural pelo esforço coletivo de seus realizadores em espalhar os vídeos, semelhante à ideia de “viralização da internet”. “O Gregório é o primeiro vídeo pelo potencial que ele tem, pela sua inserção no próprio YouTube. Nós não o chamamos para o projeto por isso, mas qualquer pessoa o colocaria na frente. Pra você ter uma ideia, nós estamos nas redes sociais e, quando o Gregório colocou o cartaz do Ato no Instagram dele, nosso número de seguidores quintuplicou”, afirma Rafael.

A gravação da segunda temporada está prevista para o início de 2016, embora a produção dependa da agenda pessoal de cada realizador. “Tenho intenção de colocar um autor brasileiro clássico na história, já estou com um texto do Nelson Rodrigues em mente. Penso num texto desbragadamente cômico, a exemplo de Oscar Wilde. Entre os atores, queremos alguém com 50 anos de carreira, por aí. Ter a Fernanda Montenegro é um sonho dourado. Quando a gente gravá-la lendo até bula de remédio, já pode parar”, brinca.

Afastando-se da ideia de educar o espectador, Teixeira deseja que o projeto leve mais pessoas ao teatro. “Parece uma utopia achar que o número significativo de pessoas vai passar a ir ao teatro devido ao canal. A gente fez de tudo pra que não fosse um projeto de nicho. Por isso que a duração é curta, por isso ele é bonito, agradável de ver, atraente, aliciante. Queríamos que qualquer pessoa visse e achasse legal”, diz. Para ele, o mais importante, além da estética, é a “pegada documental” do projeto, para que o teatro feito hoje seja lembrado pelas futuras gerações. 

ULYSSES GADÊLHA, estudante de Jornalismo e estagiário da Continente.

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