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Guitarra: um instrumento e seus instrumentistas

Com o lançamento de autobiografia de Carlos Santana, a história da guitarra ganha contribuição do roqueiro que foi um dos seus inovadores

TEXTO Guilherme Novelli

01 de Setembro de 2015

A maior inovação de Carlos Santana foi combinar aos modos do blues rock, o swing, a pegada da salsa e da música caribenha

A maior inovação de Carlos Santana foi combinar aos modos do blues rock, o swing, a pegada da salsa e da música caribenha

Foto Stone City Attraction/Divulgação

"Acho que, se você for um guitarrista sério e não apenas um músico de fim de semana, deveria ser obrigatório escutar Charlie Christian. Conforme fui conhecendo as suas melodias, passei a acreditar que todas aquelas músicas e todos aqueles músicos tinham entrado no meu caminho por algum motivo. Acho que todos a quem fui apresentado me fizeram pensar no instrumento de uma nova maneira e em como produzir algo novo”, conta o guitarrista Carlos Santana, na autobiografia Carlos Santana – O tom universal, lançada recentemente no Brasil pela Record. Santana conta que, enquanto ele e Jimmy Hendrix precisavam contar os trastes da guitarra para acertar as notas, Christian, Tal Farlow e Wes Montgomery, guitarristas de jazz, não precisavam nem olhar para o instrumento para tocar melodias intrincadas e sequências rápidas de acordes.

Ao contrário dos guitarristas de blues, como B.B. King e Muddy Waters, que abusavam do bend, técnica que curva a corda da guitarra, e usavam os modos da escala pentatônica para se localizarem, os jazzistas antigos, como Christian, nunca tiveram tempo de dar um bend, tamanha era a velocidade do andamento de suas músicas. Sua forma de improvisar era mais livre e ao mesmo tempo mais complexa, refinada, com notas de aproximação, as chamadas escalas cromáticas. Santana se sentiu mais confortável com a música modal de B.B. e Muddy, já que conseguia aguentar o ritmo da improvisação dos jazzistas apenas por 20 segundos, como reconhece na autobiografia.

Santana começou a tocar na adolescência, com colegas do colégio, na cidade de Tijuana, no México. A banda Santana surgiu um pouco depois disso e evoluiu, segundo o guitarrista, mais como uma banda de jazz do que como uma de rock como os Beatles ou os Stones, que mantiveram sempre a mesma formação. A Santana mudou inúmeras vezes de formação e cada integrante novo acrescentava algo de si como instrumentista à assinatura da banda, caracterizada pelo R&B e pela música latina. A maior inovação desse guitarrista no manuseio do instrumento foi, justamente, combinar aos modos do blues rock, o swing e a pegada da salsa e da música caribenha em geral, que o influenciam até hoje.

ORIGENS
O blues e o jazz começam sem um nome. Partem da mesma fórmula, da mesma estrutura. O que muda é a linguagem. No início, eram os spirituals e as worksongs – estas eram cantos que os escravos desempenhavam durante o trabalho. Um lançava uma pergunta, o outro respondia. Uma música afro-americana que originou o blues. Eram temáticas do cotidiano, do trabalho nas lavouras de algodão, as experiências deles, o que os alegrava, lembranças do passado. O corpo até poderia ser aprisionado, mas o espírito, não.


Charlie Christian veio do blues e é considerado o primeiro guitarrista de jazz da história. Foto: Reprodução

No início, os instrumentos eram improvisados. A sonoridade da bateria do blues/jazz vem da tábua de lavar roupa que servia de instrumento. As notas que definem o estilo são chamadas de blue notes. Acrescenta-se uma nota à escala pentatônica, um cromatismo que dá essa cara de blues. Os paterns (frases) de jazz partem da cadência, sequência de acordes do blues. “A escala pentatônica é de origem oriental. Ela foi para os EUA com os chineses que estavam trabalhando na construção de rodovias, em condições análogas às dos escravos. Como eles estavam vivendo no mesmo ambiente dos negros, essa influência ficou marcada”, explica Carlos Iafelice Jr., guitarrista e professor de jazz.

O divisor de águas na história da guitarra foi mesmo Charlie Christian. Ele veio do blues e é considerado o primeiro guitarrista de jazz da história, aparecendo na década de 1930. “Foi o primeiro músico que chegou e disse: ‘Opa! Agora a guitarra vai solar, também, não vai ser apenas um instrumento de acompanhamento’. Ele realmente destacou o instrumento”, comenta Frank Hoenen, guitarrista e professor de blues.

Os primeiros guitarristas de blues foram Son House e Robert Johnson. O estilo nasce pós-escravidão, mas a vida dos negros na década de 1930 não era nada fácil. “Há três versões para a morte de Robert Johnson, por exemplo. Não sabemos nem onde ele está enterrado”, continua Frank Hoenen. Já existiam grandes guitarristas nas décadas de 1930, 1940, mas o blues nos EUA ainda era um movimento sem relevância. Quem o levou para o mundo foram os guitarristas ingleses Keith Richards e Eric Clapton. Richards começou a citar Chuck Berry como sua fonte de inspiração, que, por sua vez, tinha influência de Muddy Waters. Com Eric Clapton, foi a mesma coisa. Ele teve Robert Johnson como referência. Quando esses dois roqueiros britânicos começaram a fazer sucesso, trouxeram com eles suas influências.

Wes Montgomery, por sua vez, foi divisor de águas. Um guitarrista completamente autodidata, influenciado pelo som do saxofonista Charlie Parker. Ele tocava com o polegar direito, para não fazer barulho por causa do vizinho. Criou essa técnica. “Pat Martino foi outro guitarrista de jazz que mudou a maneira de pensar e de se tocar guitarra. Ele é extremamente técnico. Joe Pass também foi um gênio. Fez da guitarra uma espécie de violão, não precisava de banda para acompanhá-lo”, situa Iafelice.

A maior fonte de inspiração dos guitarristas de rock das décadas posteriores foram os três Kings: B.B. King, Albert King e Fred King. Cada um tinha um estilo bem-definido. B.B. King usava a escala pentatônica maior. Albert King usava a escala pentatônica menor. Freddy King era um blues man com bastante influência do funk. Eles foram as principais referências de Hendrix, por exemplo. “Quem estuda blues, hoje, e quer tocar Stevie Ray Vaughan, tem de antes conhecer Albert King ou, pelo menos, voltar para esses caras para entender as origens do estilo”, explica Hoenen, como que ecoando as palavras de Carlos Santana em relação à necessidade de se conhecer a obra de Charlie Christian.


Eric Clapton e Carlos Santana já dividiram o palco algumas vezes. Foto: Reprodução

HARD ROCK
“O primeiro revolucionário do hard rock foi Jimi Hendrix, popularmente falando. Havia outros guitarristas bons na época, mas, a partir dele, esses outros guitarristas começaram a enxergar a guitarra de uma outra forma”, conta Edu Ardanuy, guitarrista da banda Dr. Sin. Um pouco depois, Ritchie Blackmore, do Deep Purple, já tocava num nível técnico superior ao de Hendrix, mas não necessariamente com a mesma criatividade e originalidade. Outra referência indispensável da época foi Jimmy Page, do Led Zeppelin. “Provavelmente, a maior banda de rock de todos os tempos, em termos de composição, foi o Led Zeppelin. O virtuoso da época era Richie Blackmore, mas a banda mais criativa sempre foi o Led Zeppelin”, continua.

O rock, de uma forma geral, sempre foi um estilo pentatônico, pela já mencionada influência do blues. “Até os dias de hoje, essa escala é meio que ‘a voz do hard rock’ e do blues também. Blackmore trouxe os modos gregos, as escalas menores harmônicas, bem depois da morte de Hendrix.”

Com o tempo, foi se elevando o padrão de precisão, o nível de virtuosismo. Ed Van Halen, no final dos anos 1970, reinventou o modo de se tocar hard rock. “Na história do rock, os guitarristas que o mundo inteiro parou para prestar atenção, e boa parte dos guitarristas das respectivas épocas quiseram copiar, foram: Jimi Hendrix, Ed Van Halen, talvez este o da revolução técnica mais radical, e depois Yngwie Malmsteen. Esses três, popularmente, foram os que mais fizeram rebuliço no universo do gênero”, aponta Edu Ardanuy.

Malmsteen trouxe a onda erudita para o rock, mas não foi o primeiro. Blackmore já fazia isso na banda Rainbow e no próprio Deep Purple. Malmsteen trouxe um padrão técnico que, no início dos anos 1980, era praticamente impossível de atingir. “Escutá-lo tocando era assustador. Hoje, já não é tanto. Por causa dele, o padrão de estudo das novas gerações de guitarristas se tornou insano. Os guitarristas não comiam, não dormiam, não namoravam, só queriam saber de tocar guitarra. Esse nível de virtuosismo, mais tarde, se tornou cansativo”, continua Ardanuy.

FLAMENCO E ÁRABE
Van Halen e Malmsteen, por sua vez, tiveram como grande influência os guitarristas flamencos, como Paco de Lucia, e do jazz, como Al Di Meola e John Mclaughlin, que usam como referência tanto o jazz como o flamenco. Muitos anos antes desses dois ícones do hard rock tocarem rápido, esses três já eram bastante populares.


Guitarrista Edu Ardanuy pontua que, com Jimmy Page, a banda Led Zeppelin foi a mais criativa de todos os tempos. Foto: Reprodução

As duas principais escalas que influenciaram o flamenco e os roqueiros/metaleiros foram o modo frígio, um dos modos gregos, e o hijaz, uma escala do folclore árabe. “A mistura dessas duas escalas resultou na escala flamenca, concretizando o modo flamenco. Existem o modo maior, o modo menor e o modo flamenco, influenciado pelo modo menor e pelo modo maior. Então, o flamenco é uma ponte entre características orientais e ocidentais da música. A guitarra flamenca entra como apoio para essa ponte, mesmo. A codificação da escala flamenca foi feita de forma bem intuitiva”, explica Fernando De La Rua, guitarrista brasileiro de flamenco radicado em Madri.

Ele diz que Paco de Lucia foi quem reinventou o flamenco. “Esse estilo é dividido entre antes e depois de Paco. Ele inovou a técnica da guitarra flamenca, conseguiu transformar uma linguagem inteira, uma forma de tocar que influenciaria todas as gerações posteriores a ele. Deu muito mais personalidade ao instrumento”, continua Fernando.

Dentro do cenário do fusion, que é, em grossas palavras, a junção do jazz com o rock, existem grandes guitarristas, às vezes, num patamar mais avançado que a maioria dos roqueiros, tal como Scott Henderson e Steve Morse. “Steve Morse nunca foi um roqueiro nato, era um guitarrista de uma banda de fusion, misturava rock, country, fusion e acabou indo tocar no Deep Purple. Hoje, as pessoas o veem como um guitarrista de hard rock, mas a essência dele necessariamente não é essa. Eric Johnson também é um guitarrista incrível”, conta Edu Ardanuy. Outros dois ícones do hard rock bem famosos neste universo dos guitar heroes são Steve Vai e Joe Satriani.

A parte mais difícil para o guitarrista do Dr. Sin é o músico ter a própria identidade, uma assinatura enquanto guitarrista. “Para ser técnico, basta ser dedicado e ter um pouco de talento, mas isso não quer dizer que você tenha a sua assinatura. Nossa tendência é que sejamos o resultado de tudo aquilo que escutamos, e é difícil tirar da cartola um jeito novo de tocar, assim como Ed Van Halen tirou. Copiar, depois, é fácil, mas inventar algo é difícil pra burro”, conclui. 

GUILHERME NOVELLI, jornalista.

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