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Pierre Byland: Levando o nariz vermelho ao teatro

O primeiro 'Novo Clown' de Jacques Lecoq narra sua trajetória artística após apresentação de 'Confusion' em São Paulo

TEXTO Guilherme Novelli

01 de Agosto de 2015

Pierre Byland

Pierre Byland

Foto Divulgação

Pierre Byland está no centro do palco, observando sua esposa enrolada no pano da rotunda. Um refletor despenca e fica pendurado próximo ao tablado de madeira. Ele, distraído, em cima da marca, aguarda o desfecho da cena final: uma escada de uns cinco metros de altura cai em sua direção, pelas costas, tombando a dez centímetros do seu corpo. Black out. Risos, gargalhadas, aplausos. A cortina vermelha se fecha. O casal, os produtores Luciana Arcuri e Peti Costa, além do tradutor de francês Rodrigo Veloso, sentam-se próximos à ribalta. Pierre está sem sapatos e começa a se explicar para a plateia que ficou para aquela roda de conversa: “Eu tirei os sapatos para diferenciar a vida real do teatro. Só uso sapatos em cena. Espero que o cheiro não esteja muito forte”.

Esse suíço de 77 anos é ator, autor, diretor de teatro e pianista. Esteve recentemente com sua esposa, a atriz holandesa Mareike Schnitker, em São Paulo com o espetáculo Confusion, pelo Festival de Circo promovido pelo Sesc. Jacques Lecoq, mestre da mímica e do teatro francês, considera o artista suíço o primeiro a levar o nariz vermelho do circo para o teatro, mudando o significado dessa que é a menor máscara do mundo. A partir do Novo Clown de Byland, o nariz vermelho iria expor a idiotice, a ingenuidade e a fragilidade humanas.

Confusion é um trabalho criado e dirigido pela dupla Byland/Leqoc. É uma homenagem póstuma a Leqoc, pois apresenta toda a metodologia criada pelo gênio francês, em cena. “O teatro de Lecoq era fenomenal. Nós começamos a trabalhar juntos na sua escola, em Paris, e foi uma incrível descoberta do teatro e da vida, porque ele também era filósofo, cientista, pesquisador, e conseguia trabalhar com os atores de uma forma a estimular a criatividade”, conta. Byland saiu de Aarau, Suíça alemã, com 20 anos de idade, em 1959, matriculando-se no curso de teatro de Lecoq. “A Suíça é um país pequeno e provinciano. Eu quis fugir de lá. Depois, compreendi que foi uma grande ideia, porque estava me sentindo claustrofóbico. Paris foi ótima para mim. É uma cidade cosmopolita… Na escola de Lecoq havia pessoas de várias nacionalidades, e foi ótimo começar a compreender outras culturas. Uma experiência linda.”

Lecoq era um pedagogo muito exigente, no sentido de fazer com que eles se descobrissem enquanto atores. Seus alunos não podiam, simplesmente, imitar algo já pronto, pois partia da prerrogativa de que teatro e vida estão sempre em relação. “O teatro não é algo abstrato, desconectado da vida. Lecoq tinha esse espírito e filosofia de trabalho: a vida em relação ao teatro e o teatro em relação à vida. Ele não dava exemplos, não demonstrava como deveríamos interpretar. Tínhamos que criar nosso estilo próprio de atuação.”


Confusion é um estudo sobre a linguagem corporal cotidiana. Foto: Divulgação

Durante os dois anos do curso, Byland e seus colegas queriam fazer cenas cômicas, mas Lecoq sempre os reprovava. No final do curso, eles estavam muito frustrados. “Para nós, não era permitido ser cômico. O curso terminou e ele nos disse: ‘Vocês querem fazer rir?’. E nós respondemos: ‘Ah, sim’. E ele disse: ‘Então, nós podemos fazer um terceiro ano de curso e trabalhar nisso’.”

O terceiro ano começou e o primeiro exercício era, justamente, fazer rir. Um ator inglês, o mais frustrado da turma, se ofereceu para ser o primeiro. Sua improvisação foi péssima, jamais tinham visto nada pior. Ninguém deu nenhuma risada. Terminou a cena, tirou o nariz vermelho e sentou no chão. “Então, começamos a dar risada. Rolamos no chão de tanto rir por 25 minutos. Ele estava paralisado, sem ação, não entendia o que estava acontecendo. Lecoq compreendeu, nesse instante, que o durante não desperta interesse. O interesse estava nesse fiasco, esse homem frustrado por dois anos seguidos liberando seu sentimento de querer fazer rir e ninguém ri dele. Nascia, então, a Pedagogia do Fiasco.”

Lecoq era científico, acima de tudo, e disse: “Temos que trabalhar nisso, nesse momento do fiasco”. Eles nunca mencionaram o antigo palhaço de circo. “Estava claro que nós tínhamos que encontrar a nossa estupidez e a nossa maneira trágica diante da vida. Eu percebi, simbolicamente, que o simples fato de vestir o nariz vermelho queria dizer que nós somos estúpidos, ingênuos, não entendemos nada. Eu peguei isso para mim e Lecoq concordou comigo, dizendo que o nariz vermelho simbolizava a estupidez humana.” Eles foram os primeiros alunos, a primeira classe que compreendeu o Novo Clown, não mais o palhaço de circo vinculado a uma tradição familiar de uma linhagem de palhaços que era obrigada a seguir o ofício dos pais. Então, esse foi o início de um novo movimento, do Novo Clown. “Nós estávamos lá, no dia 6 de outubro de 1962, às 10 da manhã. E foi um tremendo privilégio presenciar e sentir o momento trágico desse pobre rapaz.”

“Trabalhei com Beckett em Paris. Ele ficou uma temporada por lá com várias performances. Tinha terminado o curso de Lecoq e era, para mim, um recomeço no teatro. Minha primeira performance nesse recomeço foi com Roger Blanc, um grande diretor que era amigo de Beckett. Roger Blanc foi o primeiro a encenar Esperando Godot e muitas outras peças de Beckett.” Roger Blanc indicou Pierre Byland para atuar na encenação de Act without words, dirigida pelo próprio autor. Quando Beckett escreveu esse espetáculo, pensou que ninguém jamais a encenaria, porque achava que ninguém estava interessado em nada que escrevia.

Era uma peça com movimentos coreografados e Byland um ator acostumado com improvisação. Ele entrava e saía de cena, mas se sentia perdido. “Era a história de Deus, um chamado divino, mas eu não podia compreender o que era Deus. Então, estava tendo problemas para desempenhar meu papel. Beckett estava lá e contei-lhe minha situação.” Ele respondeu que sua peça era um exercício para o ator, uma proposição com o intuito de elaborar motivos para a ação cênica. “Conseguimos resolver isso quando ele me deu um exemplo concreto, usou a figura de uma mariposa para representar Deus.”


Em Confusion, Pierre está em cena junto à sua mulher Mareike Schnitiker. Foto: Divulgação

LINGUAGEM CORPORAL
Confusion é um estudo sobre a linguagem corporal que as pessoas desempenham nas situações cotidianas. O modo atrapalhado, ingênuo e estúpido com que nos comportamos na fila do cinema, na casa de amigos ou parentes, no restaurante etc. Situações repetitivas e engraçadas com uma dinâmica que o próprio Samuel Beckett retratou em seu Teatro do Absurdo. “Se observarmos as pessoas, e nós podemos observá-las 24 horas por dia, entenderemos como elas são. Nós descobrimos que o corpo e a voz nos dão uma imagem interior dessas pessoas, como elas se sentem. Começamos a compreendê-las melhor e, como consequência disso, entendemos melhor a nós mesmos. Como Bertold Brecht dizia, ‘tentar compreender o teatro pode ser uma forma de entender melhor a arte mais difícil que existe, a arte da vida’”, explica.

Byland se surpreende quando a linguagem corporal de uma pessoa comunica o oposto do que ela realmente é. “Um conhecido meu tem um rosto angelical. É muito bonito, mas um homem horrível, cruel. Ele está preso, devido a uma de suas crueldades. Então, ele tem duas caras. Em seu interior, é completamente diferente do que aparenta ser. Esse é um exemplo do conceito de contramáscara, uma pessoa que aparenta uma coisa, mas, na verdade, é outra e, de tempos em tempos, esse segundo plano vem à tona e deixa todos surpresos.” Além de exemplificarem a contramáscara em cena, Pierre e Mareike mostram o trabalho das máscaras da escola de Lecoq, raro de se ver aqui no Brasil, que no contexto da peça acentuam também a estupidez humana.

REFERÊNCIAS
Pierre se inspira nos filmes de Buster Keaton. Karl Valentin, o grande palhaço de Munique, também é uma referência para ele. Em sua escola de clowns, o Burlesk Center, na Suíça Italiana, faz homenagens a ele, tirando exemplos para os alunos praticarem como exercícios. “São aspectos de uma ingenuidade e de uma idiotice extremas. Para se chegar a uma idiotice extrema, é preciso ser muito inteligente.” Ele considera o humor atual, principalmente o televisivo, um tanto quanto perverso. “Eles obrigam o público a rir. Os animadores riem para estimular a plateia comprada a rir. A pobre audiência pensa num primeiro momento que aquilo é um lixo, mas, ao mesmo tempo, começam a achar interessante, porque veem todo mundo rindo e passam a se achar estúpidos por não estarem rindo. É uma tragédia! Eles riem apenas porque todo mundo está rindo.”

clown, para ele, é uma maneira de dizer que o sistema está errado, que ele está fora desse modelo social hipócrita e falido, que também engloba a educação, o ensino. No Burlesk Center, ele tenta desconstruir o modelo de ensino atual. “A gente não tem mais o direito de não conhecer. Na escola, temos que saber tudo e é uma catástrofe ter de saber tudo. Se eu disser que não sei, todo mundo vai dar risada de mim. Então, não tenho o direito de não saber. Temos que, laboriosamente, reaprender a não saber, fazer uma antieducação, e isso é difícil, principalmente com as pessoas inteligentes”. 

GUILHERME NOVELLI, jornalista.

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