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Literatura: Sob a égide do mercado

Escritores discutem demandas que consideram preponderantes na produção atual, com ênfase na subordinação do autor a aspectos externos à criação

TEXTO Revista Continente

01 de Julho de 2015

Foto Alcione Ferreira

O Gabinete Português de Leitura foi o espaço escolhido para a quarta Conversa promovida pela revista Continente, em comemoração aos seus 15 anos. O projeto foi iniciado em janeiro, com uma discussão sobre o cinema; em março, foi a vez das artes cênicas; e, em maio, o debate girou em torno da música. O formato tem sido o mesmo: convidamos realizadores para discutirem questões pertinentes aos seus respectivos campos culturais. Agora, reunimos quatro convidados (Fábio Andrade, Fernando Monteiro, Sidney Rocha e Wander Shirukaya) para conversar sobre os caminhos da literatura hoje, com a mediação de dois jornalistas especializados na área: Eduardo Cesar Maia e Schneider Carpeggiani. Nas próximas páginas, o leitor vai encontrar reflexões sobre autores que compõem o que seria a literatura brasileira contemporanea, as relações conflituosas com os editores, o papel da crítica, entre outros aspectos. O internauta que visitar o site da revista e o nosso canal no YouTube poderá assistir ao vídeo editado do encontro.

SIDNEY ROCHA A literatura, como qualquer outro ramo, tenta ser o menos patinho feio possível, sobretudo a literatura contemporânea brasileira. Acho que a gente vive bons e maus momentos. Eu li um filósofo importante e, agora, cito um trecho dele que diz assim: “Quero ajudar a mostrar que, desde a aparição dos escritores americanos do início do século 20 – Faulkner, Hemingway, Mailer, Steinbeck, Fitzgerald, entre vários –, nenhum outro país teve tantos e tão bons escritores, numa mesma época, como o Brasil nos dias atuais”. Isso disse Edney Silvestre, na revista São Paulo Review. Não tenho lido tanta literatura contemporânea, mas não sei se nós já estamos com uma literatura tão sólida, no grau dessas pessoas citadas. O que vocês acham?

FERNANDO MONTEIRO Eu acho que, atualmente, não. Se Silvestre está se referindo a uma literatura brasileira que vai até Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, uma literatura que tem uns 25 a 30 anos de perspectiva – o que, aliás, é a afirmação correta para que seja feita com certa propriedade – e ainda Milton Hatoum, talvez, se você pegar essa literatura que ele elogia dessa forma máxima…

FÁBIO ANDRADE Um dos grandes problemas talvez seja esse caráter hiperbólico, porque ele é anticrítico. A crítica não caminha nos paroxismos, nos extremos. A crítica é mediadora.

SCHNEIDER CARPEGGIANI Esses termos “um dos melhores momentos”, “o grande momento”, são a hipérbole como defesa. É sempre um texto de televisão que ele está fazendo.

FERNANDO MONTEIRO Mas quando ele faz esse elogio, digamos, até estou aceitando para termos de discussão. É possível aceitar esse tom hiperbólico, mas até um determinado período recente. Se você quiser falar da contemporaneidade, de uma literatura que começou a cair na malha do mercado de forma muito aguilhoante, entendeu? Há uma coisa que teremos de abordar, que é a mudança de atitude do editor brasileiro. O editor brasileiro, historicamente, era aquele coitadinho, como José Olympio, abnegado, sacerdote, superleitor, que editou Casa-grande & senzala com muito esforço… Mas, na verdade, ficou milionário com Casa Grande & Senzala. Esse era o perfil. Houve então um período, que corresponde à ditadura também, em que isso ficou sem nenhum formato, e depois apareceu esse editor brasileiro, jovem, que pode ser simbolizado em (Luiz) Schwarcz. Um leitor influenciado pelos editores americanos que tinham grande cultura, mas eles não têm. Quer dizer, pelo menos não no nível desses editores que fizeram as publicações de Faulkner, Hemingway, Fitzgerald. Todos tinham um pé na obra do escritor e a compreendiam.

EDUARDO CESAR MAIA E dialogavam de igual para igual com o escritor.

FÁBIO ANDRADE Falando de um editor que tem essa ligação com a obra, As flores do mal, do Baudelaire. Ora, quem publicou As flores do mal foi o Poulet-Malassis, que era um jovem editor, amante de poesia. Ele sabia que o livro ia ser um problemão, porque tinha acabado de ter o processo com Madame Bovary, mas arriscou.

FERNANDO MONTEIRO E esse novo editor brasileiro não tem mais a preocupação com a qualidade do texto, ele está interessado no mercado.

EDUARDO CESAR MAIA Será que é possível falar isso em relação a todas as editoras?

FERNANDO MONTEIRO Nada pode ser dito em termos absolutos, mas é isso que caracteriza o ambiente geral.


Fernando Monteiro. Foto: Alcione Ferreira

SCHNEIDER CARPEGGIANI Recebo muita literatura brasileira dessas editoras grandes – Record, Objetiva, Companhia das Letras – e está havendo uma uniformização da linguagem muito grande. Isso leva à pobreza.

WANDER SHIRUKAYA Tem um artigo bom da professora da UnB Regina Dalcastagnè, mas se referindo a outras questões, porque é um artigo voltado a questões feministas. Ela constata uma coisa que também é interessante. Existe um padrão de protagonista na literatura contemporânea, pelo menos para essas principais editoras. Seria como se a gente dissesse que 80% dos nossos protagonistas hoje são brancos, heterossexuais, cisgêneros e envolvidos com arte, geralmente escritores. Ou seja, a gente está rodando em círculos, falando só sobre metalinguagem, porque é como se a metalinguagem não ofendesse ninguém, ou seja, a gente não dá a cara a tapa e isso é bom para a gente não se comprometer, para não perder dinheiro.

EDUARDO CESAR MAIA O tema da autoficção dialoga muito com isso também.

FERNANDO MONTEIRO Um dos textos mais duros que eu li sobre isso foi do José Castello, em que ele diz que a literatura brasileira que ele recebe e vem lendo é uma literatura que defende apenas o dever de casa. Está se querendo fazer o dever de casa dos editores e do mercado. O escritor assume também que ele deve ter um relacionamento tranquilo com o mercado. Aí vamos para um ponto: quem é o mercado? A situação vai ficar complicada, mais deprimente. Se você imaginar que o ambiente receptivo da literatura começou agora a ser constituído por pessoas que não estão interessadas em problematizar sonhos, na angústia que esses escritores que o Silvestre citou conduziam, Fitzgerald, Faulkner, principalmente. Quer dizer, se você imaginar um escritor faulkneriano surgindo no Brasil, nesse tecido cultural, ele não vai ser compreendido, ele é um estranho no ninho.

FÁBIO ANDRADE Acho que a gente tem, sim, experiências interessantes. Que lidam, sim, com essa questão de mercado, porque esse é um elemento incontornável da literatura. Não só essa de agora. Um sujeito como Osman Lins lidava com o mercado de maneira tranquila. Ele era realmente uma espécie de empresário do livro dele, ia atrás de traduções publicadas, cobrava direitos autorais, batia de frente com os editores.

FERNANDO MONTEIRO Você fez uma citação excelente, de Osman. Eu o considero a última grande renovação no romance brasileiro. Para mim, Osman está em seguida a Guimarães Rosa. Agora situe Osman no tempo. Eu o situo até a década de 1970. O que nós estamos falando agora é de outro tecido.

FÁBIO ANDRADE Eu cito Osman para dizer que a relação com o mercado começou lá. Ou seja, essa relação mais ativa do escritor com o mercado, de pensar, de discutir com o editor…

SIDNEY ROCHA Eu sou como Maiakovski. Ele acreditava que até a poesia é indústria, eu concordo com isso. A literatura também é mercado.

EDUARDO CESAR MAIA Em Pena de aluguel – Escritores jornalistas no Brasil 1904-2004, a pesquisadora Cristiane Costa mostra que, na literatura brasileira, é regra, não exceção, que os escritores, os importantes inclusive, não vivam exclusivamente da literatura, mas do jornalismo, do direito...

SIDNEY ROCHA E da diplomacia. Parece que é um pouco vergonhosa a profissão. Nos anos 1980, a gente tinha até vergonha de dizer que era escritor. Mas, já dos anos 1990 em diante, todo mundo se dizia escritor com muita vontade e vivacidade.


Osman Lins é lembrado como alguém que gerenciava marcadologicamente a própria obra. Foto: Reprodução

FERNANDO MONTEIRO Ontem, eu li uma especialista dizendo que Harry Potter não é literatura. É outra faixa, mas tem razão. Até certo ponto, por muito bem-acabado e encantador que fosse, Julio Verne também não era literatura.

FÁBIO ANDRADE Essa é uma discussão interessante, é cheia de matizes.

SIDNEY ROCHA Tenho certeza de que, daqui a 50 anos – e eu posso estar sendo otimista –, falarão desses livros e não falarão dos meus, porque se legitima esse tipo de literatura.

FERNANDO MONTEIRO Sim, mas é um processo cultural. Dentro de um processo cultural degradante.

FÁBIO ANDRADE Mas será que é degradante no sentido de perda ou mudança de perspectiva?

FERNANDO MONTEIRO Mudança desse tecido, Fábio. Eu sou um pouco obstinado. Há cinco ou quatro anos, fiz uma palestra em Porto Alegre e meu tema – que causou certo mal estar – foi a morte do leitor. Não era a morte do autor, não era a morte da literatura, era a morte do leitor. Porque esse tecido, que é o tecido receptivo dessas produções, é que está numa mudança…

EDUARDO CESAR MAIA Tem um mal- entendido que é o seguinte. Fernando Monteiro está utilizando a palavra literatura como alta literatura, ou literatura de relevância artística. E a gente pode entender literatura com outros sentidos. Mas eu concordo com você, a princípio.

WANDER SHIRUKAYA Essa questão é muito escorregadia. A Inglaterra é melhor com isso. Por aqui, se você mostrar Tolkien para um acadêmico, ele vai rechaçar, dizer que não é literatura, como a Ruth Rocha disse com o Harry Potter. Só que lá se reconhece a qualidade literária fora toda a função social que há por trás desse tipo de literatura também.

FERNANDO MONTEIRO Mas veja bem, se você estiver na Inglaterra, nesse momento agora – e isso serve até para alguns anos atrás –, vai encontrar um ambiente cultural que irá decepcionar muito. O ambiente em países periféricos como o nosso é mais rico culturalmente falando do que está lá. Só quero colocar isso muito claramente. Não se trata de um referencial o fato de eles acharem que Harry Potter é grande coisa.

WANDER SHIRUKAYA Eu também não gosto, mas ele tem uma qualidade reconhecida que no nosso padrão de tendência formalista a gente acaba excluindo.


Sidney Rocha. Foto: Alcione Ferreira

SCHNEIDER CARPEGGIANI Quando Silvestre diz que a literatura brasileira vai bem, ele fala dessa literatura que ganhou os prêmios dos últimos anos, o catálogo das grandes editoras.

FÁBIO ANDRADE Acho que um dos melhores escritores dessa nova geração – que ainda não está maduro – é o Daniel Galera. O pior livro dele é Cordilheira, do projeto Amores Expressos (Cia das Letras).

FERNANDO MONTEIRO O melhor livro do Amores Expressos eu considero o do Luiz Rufatto. Ele tem uma força de criação. Encontrei-o no Acre, quando ele estava começando isso. Disse que estava apavorado. Acho que o medo dele era tão grande, estava desesperado, e isso levou-o a uma coisa nova.

SIDNEY ROCHA Porque o Rufatto faz parte desses traidores infográficos do escritor que acompanha a cena pequeno-burguesa, mas é filho de pipoqueiro do interior do Paraná e não tinha aquela tradição das famílias, embora ele tenha uma cultura bastante solidificada, que conheça música, não tem aquele sonho da pessoa viajada, cosmopolita. Então, naturalmente, ele ficaria angustiado diante de uma situação dessas.

SCHNEIDER CARPEGGIANI Engraçado, porque eu acho o livro do Daniel Galera, o Barba ensopada de sangue, tão irritantemente bonitinho e ajustadinho… É previsível e é o mais bem-costurado desse padrão das editoras. Tem um diálogo no livro em que alguém chega e diz algo como “eu nunca mais tinha te visto”, e o personagem responde “é, cara, eu estava na Flip, é uma festa muito legal que acontece em Paraty. Trabalhei para caralho, mas foi massa”.

WANDER SHIRUKAYA Parece aqueles merchandisings que colocam em Malhação.

SCHNEIDER CARPEGGIANI É muito merchandising da Flip.

SIDNEY ROCHA Ninguém aguenta mais essa literatura brasileira de escritores falando sobre escritores.

FÁBIO ANDRADE Eu acho o Barba ensopada de sangue um livro bem interessante. Acho diferente, inclusive, dos outros dele. Não é um livro sobre escritor. Galera fez um exercício, ele construiu um personagem, a gente pode até discutir até que ponto é convincente, mas é um professor de educação física. Ele contou que estava tentando fugir de um estereótipo dessa literatura brasileira contemporânea, que é o do protagonista sempre ser um escritor, alguém ligado às artes e à cultura.

FERNANDO MONTEIRO Tem também uma coisa que eu gostaria de lembrar a vocês: esses textos, essas obras têm uma aproximação que eu consideraria suicida com o real. Eles reproduzem o real, você tem o real de volta. Não o real transfigurado, como significação.


Fábio Andrade. Foto: Alcione Ferreira

EDUARDO CESAR MAIA Tem outra coisa recorrente: a tentativa de alguns escritores, principalmente mais velhos, de imiscuir na literatura elementos novos, e fica forçado, o leitor percebe. Tem um livro que é excelente, que é bom, o Galileia, e que tem esse problema o tempo inteiro. Você vê Ronaldo Correia de Brito colocando ali os rapazes falando sobre Radiohead de forma muito fake.

FÁBIO ANDRADE Mas aí você está falando de um elemento da cultura que entra, não de um mecanismo de experimentação da linguagem.

FERNANDO MONTEIRO Chamo isso, Eduardo, de determinadas obras como essa, “escrita com habilidades”. Tem-se uma boa ideia que é conduzida, mas que esbarra em você sentir a necessidade de ter e desenvolver habilidades que agenciem esse livro junto a um público.

SIDNEY ROCHA Porque, às vezes, o cara acha que ele ser um escritor contemporâneo é falar dos seus celulares, smartphones etc. No entanto, os escritores clássicos continuam sendo contemporâneos.

FERNANDO MONTEIRO Agora, às vezes, funciona. Não literariamente, esteticamente, mas de um ponto de vista mercadológico, funciona. Porque aquilo bate na sensibilidade de alguém que está decidindo um prêmio, que está decidindo qualquer coisa, e no público geral também.

SIDNEY ROCHA Será que é por isso que soa tão falsa a ficção científica brasileira?

FERNANDO MONTEIRO Provavelmente (risos). E, até certo ponto, o romance policial também. O romance policial brasileiro não tem o ambiente necessário de investigação.

WANDER SHIRUKAYA Tem coisa bem- escrita na ficção científica, mas isso se perde muito, desculpa a expressão, numa coisa meio “punheteira”, do saudosismo da ficção científica norte-americana. Então, todo mundo se preocupa mais em ficar imitando modelos. E outra: admirando figuras sexistas, estereótipos que existem lá dos anos 1940 pra cá, meio fetichista.

FERNANDO MONTEIRO E, no caso do romance policial, sempre há uma espécie de comissário brasileiro, muito deprê, que tem um caso bem-resolvido com uma mulher, uma coisa que remete um pouco para o mundo de Nelson Rodrigues, em que as investigações não são bem-feitas, ele sabe que o ambiente policial é degradado. Quer dizer, é completamente fake. Você não lê uma coisa vinda, por exemplo, das delegacias de polícia. Tem alguma coisa assim em alguns contos, mas você não tem um romance que segure essa barra. Porque o problema do romance é criar um mundo e conseguir manter. As pessoas se enganam muito, quando – agora, o romance é o queridinho da mídia e os editores adoram romances – esquecem que, pra você criar um mundo e mantê-lo, é extremamente difícil. Por exemplo, você tem poucas cidades verdadeiras no romance brasileiro.

EDUARDO CESAR MAIA Sidney falou antes de um realismo exagerado como tendência na literatura brasileira contemporânea. Será que é possível falar em grandes tendências na literatura brasileira contemporânea, seja em poesia ou prosa? Existem poéticas brasileiras contemporâneas?

FÁBIO ANDRADE Se você pensa a poética como escola, impossível. Não há nenhuma. Mas se você pensa em tendência, que inclusive é um conceito muito mais poroso do que geração, porque eu posso ter, em uma geração, várias tendências. Então, a tendência me parece um instrumento talvez mais interessante para lidar com essa coisa mais complexa, mais plural e tudo mais. Quanto à questão do realismo, muita gente diz que é uma tendência da prosa.


Wander Shirukaya. Foto: Alcione Ferreira

EDUARDO CESAR MAIA Outra é autoficção.

FÁBIO ANDRADE Isso. O que é complicado, porque começa a se transformar numa espécie de convenção crítica que todo mundo sai aplicando e não vê os matizes que envolvem, por exemplo, um Luiz Rufatto e um Ricardo Lísias. Há uma demanda de realidade, mas há uma diferença enorme. Acho que, em Rufatto, há uma espécie de união feliz entre esse mergulho na demanda da realidade brasileira com certo experimentalismo, como em Eles eram muitos cavalos. Em Lísias, é uma demanda de realidade em que, muitas vezes, essa experimentação de linguagem é fraca, mas ele ainda consegue romper um pouco isso com uma imagem que é forte no Divórcio, por exemplo. Acho um romance curioso, mas não acho um bom romance.

FERNANDO MONTEIRO No caso de Lísias, me parece falta de imaginação. Como existe hoje o projeto de ser escritor, há muita gente se candidatando. Lísias é um caso até mais avançado, mas todo mundo, hoje, está se tornando escritor. As pessoas caminham pra essa coisa de dizer que tem uma experiência. A autoficção também começa por essa explicação simples, de você não ter uma capacidade imaginativa.

EDUARDO CESAR MAIA É uma mera reprodução da experiência, sem transfiguração.

SIDNEY ROCHA De que tipo de realismo nós estamos falando? Porque o realismo de Flaubert faz muito bem. Mas por que esses realismos nossos são assim?

FERNANDO MONTEIRO Sim, porque no caso de Flaubert a transfiguração é muito mais real.

FÁBIO ANDRADE A maior parte do realismo da época de Flaubert pecou por uma aproximação excessiva da ideia de realidade. Mas por que esse anseio pela realidade? Querendo ou não, se a gente pensar o realismo como uma tendência e a autoficionalidade como outra, a autoficcionalidade pode ser uma demanda de realidade também.

SIDNEY ROCHA Uma demanda de realidade, uma espécie de reality show.

SCHNEIDER CARPEGGIANI Um dos autores mais badalados hoje em dia é justamente o de Minha luta, o dinamarquês Karl Ove Knausgård. É reality show, os livros dele são pormenores da sua vida.

FERNANDO MONTEIRO Talvez seja útil fazer uma aproximação com o que está acontecendo com o cinema. O cinema fez um pouco isso, começou a se aproximar suicidamente do real. Ele nos devolve uma coisa que você está vivendo. Isso já fazia Bergman, que tinha uma capacidade criativa e criadora enorme de transfigurar, era um encenador. Na hora em que se começa a lidar com esses cineastas de porte menor, você tem um cara que vai se virar pras coisas mais banais e que ele reapresenta ao público, que é praticamente a vida daquele público, mas faz o mesmo sucesso do livro de semelhante operação. Onde o livro estava, está o cinema.


Daniel Galera é citado pelo grupo como representante da literatura brasileira contemporânea. Foto: Divulgação

EDUARDO CESAR MAIA O centro do debate da cultura era o livro até a década de 1940, 1950. Simplesmente, nenhum livro hoje, de nenhum autor brasileiro contemporâneo, levanta um debate nacional sobre nenhum tema. Mas você pega um filme que as pessoas podem até não gostar, o Tropa de Elite, mas lança uma discussão nacional, pelo poder que tem.

FERNANDO MONTEIRO É o que eu chamo produzir significação. Acho que agora estamos entrando num tempo em que já não é mais suficiente você escrever um livro, produzir uma peça, fazer uma exposição... Agora, além de fazer essas coisas que você já tinha que fazer, tem que, com essas coisas, produzir significação. Um Tropa de Elite é feito sei lá com que intenções, mas ele produz significação. O que vale até para o Paulo Coelho. Ele, de algum modo, produziu significação. Não, isso não é literatura, mas está produzindo significação. Tem que ser examinado de uma forma diferente.

FÁBIO ANDRADE No Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, tem um momento em que o personagem se aparta de toda uma lógica cotidiana, e acho que aí há níveis de leitura. Tem um sujeito que vai ler o livro e ver só a cena pop, o protagonista que enche a cara, mas que, num determinado momento, se afasta de todo mundo e passa por uma espécie (que está lá na epopeia antiga) de catarse, de descida ao inferno. Ele perde tudo. Quando ele volta, é outro. Isso é um elemento narrativo que existe desde muito. A questão é que o público só está lendo num nível, e o leitor mais experimentado, em outro. Por isso é importante conhecer a literatura antiga, pra que outras coisas possam ser lidas nessa literatura contemporânea.

EDUARDO CESAR MAIA Um autor que sugere bem isso, tem um alcance mundial e é best seller em alguns de seus livros, é Umberto Eco. Você pode ler um livro dele em vários níveis.

FERNANDO MONTEIRO Eduardo, o tempo se divide em antes e depois de Umberto Eco. Em vários planos, não só na literatura. Umberto Eco é uma pessoa que, tenho certeza, daqui a 50 anos vai ser visto numa perspectiva muito alta. Porque o pensamento dele interferiu no mundo, no tecido social, na área do pensamento, da literatura.

EDUARDO CESAR MAIA Quero levantar outro tema, que é a relação dos escritores com a crítica – se é que existe crítica.

WANDER SHIRUKAYA O papel do crítico está mais em levantar pontos que são interessantes, como a gente estava dizendo, pra criar significação.

SIDNEY ROCHA Eu acho que há avanços na crítica que se faz em Pernambuco. A crítica, para mim, saiu especialmente do locus, que é a universidade, mesmo que tenha refletido um pouco o pensamento e a estrutura até da universidade, e partiu para um campo mais aberto pra discutir isso como se discute facilmente em mesa de bar. Outra coisa é a crítica do jornal, a favor ou não do mercado.

FERNANDO MONTEIRO A crítica pode ser criticada, mas será sempre muito necessária, porque é uma intermediação. Eu sou crítico de arte também, então, por exemplo, não compreendo como é que poderia o segmento da arte, da pintura, seja que manifestação for, caminhar sem a crítica de arte. Vale a mesma coisa para a literatura.

EDUARDO CESAR MAIA Talvez, o mundo tenha sido sempre complexo, mas hoje é tão complicado o que o pensamento pós-moderno chama de a queda das metanarrativas, aquelas explicações que abarcavam toda a realidade, já ninguém mais confia nelas. Então, talvez para o escritor encontrar uma visão de mundo unitária, como era o projeto de um Tolstói, Flaubert, de mostrar o mundo, seja um projeto condenado. Esse é um projeto condenado ao fracasso?

FERNANDO MONTEIRO Eu acho que nós estamos na era do fragmento do fragmento. Começamos agora a penetrar numa coisa que não conseguimos divisar até onde irá, porém, mais do que nunca o mito da ilusão está colocado na nossa frente. A realidade é mais do que nunca feita de ondas vibratórias que são pura ilusão e você tem até um exemplo bem prosaico num artigo que escrevi recentemente pro Rascunho: Mais cedo ou mais tarde vai tudo virar Facebook. Você tem no próprio Facebook a absoluta corporificação dessa ilusão, porque não existe um Facebook, existe aquele Facebook do qual você participa.

WANDER SHIRUKAYA Dá a impressão de que você é livre, mas, na verdade, não é. Eu chamo o Facebook de rede antissocial, porque, em vez de fazer amizade, você está discutindo com quem você não conhece, que se mete na sua conversa.

FERNANDO MONTEIRO Exatamente isso. E isso talvez fosse a melhor representação dessa ilusão profunda que acho que nunca foi tão dramática na história. Porque antes, se tinha uma perspectiva historicista, uma condução de gerações, uma transição através das quais as coisas se operavam.

EDUARDO CESAR MAIA A visão de que o mundo tinha um sentido.

FÁBIO ANDRADE Num momento como este, talvez uma das funções da arte e da literatura seja construir um espaço íntimo, um espaço de uma sincera subjetividade, que se coloca como parte desse fluxo, mas que não se confunde com ele. Há limites entre uma coisa e outra. Eu fico pensando: será que a literatura, no caso, cada vez que um escritor vai escrever um romance, um conto, um poema, não está tentando se apropriar dessa lógica fragmentada?

FERNANDO MONTEIRO Sabe o que estaria mais preparado? A poesia. Onde o romance está começando a falhar é no esgotamento da experiência e, de alguma maneira, os romances todos repercutem outros e outras narrativas.

SIDNEY ROCHA Estou entendendo o que você está falando, mas queria que você me explicasse se é verdade que a poesia sofre menos dos reflexos dessa fragmentação. Será que nossa sensibilidade até para a poesia não vem mudando nesses tempos? Nossa poesia é uma poesia também fragmentada, também solipsista?

FERNANDO MONTEIRO Sidney, eu estava pensando mais do ponto de vista de você encontrar a possibilidade formal de expressão disso, mais do que o conteúdo psicológico que ela possa transmitir. Quando a televisão foi inventada, alguém disse “esse instrumento aí está mais próximo do avião e da estrada de rodagem do que do teatro e do cinema”. Veja que percepção. Ele falava da possibilidade de eliminar mais espaço do que tempo. Eliminava tempo e tornava o espaço uma coisa totalmente imediata, ampla e sem forma, sem etapas, o espaço se presentificava quase como a distância do tempo. Uma percepção dessa está próxima do que a poesia representaria. A poesia teria muito mais conexão com esse mundo do fragmento que nós estamos vivendo do que começar a descrever que a marquesa saiu às cinco horas da tarde e começar qualquer tentativa de discurso ainda romanesco tratando a realidade de forma naturalística ou não, o que também aproxima da poesia. Porque, quando a gente fala de poesia, a gente fala de poiesis. E poiesis inclui tudo, não é um gênero. 

Mediação:

SCHNEIDER CARPEGGIANI
, jornalista, doutor em Teoria da Literatura pela UFPE. É editor do suplemento literário Pernambuco desde 2003, e da Cesárea Editora. Atua como curador de festivais de literatura.

EDUARDO CESAR MAIA, jornalista, é doutor em Teoria da Literatura pela UFPE, com estágio doutoral na Universidad de Salamanca (Espanha). É mestre também em Teoria da Literatura pela mesma Instituição. Atualmente é editor-chefe da revista Café Colombo, de crítica literária e cultural.

Convidados:

FÁBIO ANDRADE, professor de Literatura Brasileira e Portuguesa da UFPE, e poeta, é autor de diversos livros, como Luminar presença & outros poemas (2005). Atualmente, é vice-diretor da Editora da UFPE e coordena, junto com Lourival Holanda, o Núcleo de Estudos em Literatura Contemporânea (Nelic).

FERNANDO MONTEIRO, recifense, estreou como poeta em 1973 e depois, em 1997, como romancista. Entre suas publicações estão A Cabeça no fundo do entulho (prêmio Bravo! de Literatura), Armada América, O grau Graumann e O livro de Corintha.

SIDNEY ROCHA, escritor e editor cearense, vive no Recife. Publicou os livros de contos Matriuska (Iluminuras, 2009) e O destino das metáforas (Iluminuras, 2011), que venceu o Prêmio Jabuti de Literatura. Seu romance Sofia venceu o Osman Lins de Literatura.

WANDER SHIRUKAYA, mestre em Literatura e Cultura pela UFPB. Publicou Balelas (Mutuus, 2011) e Ascensão e queda (Cepe,2015); participou das antologias Contos de sábado (Manufatura, 2012) e Goiana revisitada (Silêncio Interrompido Edições, 2012).

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