Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

“Buscamos no ensaio um estilo do pensar e do dizer”

Pesquisadora Liliana Weinberg se dedica à compreender o ensaísmo e fala sobre origens do gênero inaugurado por Montaigne, características dessa “prosa de ideias” e sobre sua produção atual

TEXTO Eduardo Cesar Maia

01 de Fevereiro de 2015

Liliana Weinberg

Liliana Weinberg

Foto Divulgação

Reconhecida como uma das maiores autoridades acadêmicas nos estudos acerca do ensaísmo hispano-americano, Liliana Weinberg, nascida em Buenos Aires e naturalizada mexicana, tem se dedicado, entre outras coisas, à compreensão desse gênero híbrido, ao mesmo tempo tão rico e tão polêmico, que é o ensaio. Por se situar numa zona cinzenta, entre o filosófico e o literário, esse “centauro dos gêneros”, como propôs Alfonso Reyes, é tema até hoje de controvérsias, principalmente no âmbito acadêmico. Na entrevista a seguir, a pesquisadora fala sobre as origens históricas do ensaio, aponta alguns possíveis precursores, discorre sobre as principais características que identificam esse tipo tão peculiar de escrita e mostra que ele está muito bem adaptado aos nossos tempos, ditos “pós-modernos”.

CONTINENTE É possível determinar com precisão a origem histórica do gênero ensaio?
LILIANA WEINBERG Considero que Miguel de Montaigne é o inaugurador por excelência do gênero. Um autêntico “instaurador de discursividade” no sentido foucaultiano. Apesar de ser possível rastrear muitos antecedentes do ensaio na prosa não ficcional – e alguns críticos, como György Lukács, consideram que foi Platão mesmo o primeiro grande antecessor do ensaio –, sem dúvida quem realiza as operações discursivas decisivas para o gênero é Montaigne.

CONTINENTE Que características podem determinar se um texto é ou não um ensaio?
LILIANA WEINBERG O ensaio é prosa de ideias, escritura de interpretação, estilo de reflexão, que nos oferece uma perspectiva do mundo e convida o leitor a participar, como dizia Ortega y Gasset, de novas maneiras de ver as coisas. O primeiro traço que o caracteriza é que se escreve a partir de um eu que pensa e sente o mundo. O ensaio está sempre assinado, porque evidencia a responsabilidade pela palavra. O que buscamos no ensaio é um estilo do pensar e do dizer, um modo expressivo, uma escritura, um tom conversacional que inclui o leitor. Nele há uma apaixonante combinatória entre o fator pessoal, subjetivo, e o interpessoal. O ensaio é um gênero que, para dizê-lo com Pierre Glaudes, mostra-se, ao mesmo tempo, “egoísta e cívico”, ao vincular o íntimo, privado, particular, peculiar, próprio de um autor, com um alcance geral, destinado a interpretar e valorar distintos aspectos do mundo, conversar com os leitores e não só convencê-los, mas seduzi-los, aproximá-los não somente das ideias senão também da escritura. Quando nos aproximamos do ensaio, buscamos uma visão ou uma versão de distintas questões a partir do ponto de vista pessoal. Como disse Adorno, no ensaio não só se apresentam temas, problemas, conteúdos, senão o processo mesmo de pensá-los e o modo como o ensaísta nos inclui – seus leitores amigos – no processo de pensamento: convence-nos, faz-nos partícipes, como amigos aos que – como em uma conversação – deve-se ao mesmo tempo saber convencer e seduzir com suas intuições, imagens e demonstrações. Alguns leitores podem fazer uma abordagem superficial, pragmática, instrumental, interessada, coisificadora, do ensaio – que só busque unidades informativas ou atenda só aos conteúdos. Por exemplo, posso ler Casa grande & senzala porque quero extrair dados sobre certa etapa da vida do Brasil. Fazê-lo assim implicaria um tipo de leitura que Paulo Freire – e depois dele José Luis Gómez-Martínez – considerava instrumental, interessada. Mas também lemos um ensaio para alcançar uma experiência plena, desinteressada, conversacional, interpretativa, que nos permita dirigir nossa atenção à escritura, ao estilo, à experiência estética e ética. Regressando ao meu exemplo, posso ler através do ensaio de Gilberto Freyre um modo de interpretar a vida do Brasil, de descobrir estrategicamente certas zonas da cultura que podem ser chave para apoiar tal interpretação. A esse tipo de leitura podemos denominar “humanística”. Desse modo, posso chegar a ver como, graças ao prodigioso enfoque de G. Freyre, a “casa grande” e a “senzala” se convertem em um par de opostos que estabelecem entre si uma relação dialética que acompanha a interpretação de uma matriz cultural básica do Brasil, e funcionam em vários níveis ao mesmo tempo: literalmente, como formações culturais descritíveis por um historiador ou um antropólogo, mas também metaforicamente, inclusive como personificações e como chaves capazes de condensar diversos níveis de sentido.


Imagem: Reprodução

CONTINENTE Um valor filosófico central na modernidade foi o da “certeza”. O ensaio, não obstante, caracterizar-se-ia por não garantir nada e nem tampouco por esgotar os temas. Como o ensaio pode desenvolver-se sem levar em consideração essas “regras” filosóficas?
LILIANA WEINBERG Um tema que me obseda é precisamente o da boa fé e da verdade no ensaio: o ensaísta fala de boa fé ou de má fé? O ensaísta busca a verdade? E de que tipo de verdade se trata? Porque não é efetivamente uma certeza de caráter positivo, ou uma verdade popperianamente falseável. Em primeiro lugar, como diz Tomás Segovia, o ensaio se nutre precisamente dessa inadequação básica entre verdade e sentido na linguagem. É uma permanente busca de sentido guiada por uma fidelidade à verdade. Empregando uma imagem muito expressiva, Segovia diz que a verdade não é nem a inquilina nem a caseira da linguagem, nem a arrendadora nem a arrendatária: é sua fiadora. O ensaio lida com a verdade em um mundo feito valor, feito sentido. Por outra parte, diferentemente do que demanda a Lógica, que persegue univocidade e desambiguação, o ensaio trabalha com as línguas naturais, e é dentro delas que busca sentido: dentro da ambiguidade e da polissemia. O uso da linguagem que faz o ensaio não é meramente instrumental, não aspira só fixar significados em um domínio específico da realidade, como exigem, por exemplo, as perspectivas positivistas e cientificistas – são aproveitados os níveis expressivos, figurativos, simbólicos, como também as operações poéticas, para esclarecer o sentido e religar domínios. Em minhas aulas, quando procuro mostrar a diferença entre discurso científico e discurso ensaístico, sempre evoco o fato de que Florestan Fernandes declarou que Casa grande & senzala era um grande “antecedente” do conhecimento científico da sociedade. O ensaio de interpretação foi, assim, no momento da normatização das ciências sociais, convertido em um avô venerável, mas que devia ser mantido calado e tratado como familiar distante: um antecedente impressionista, um parente incômodo… E, contudo, sobreviveu à própria crise das ciências sociais.

CONTINENTE Muitos pensadores (como Ernesto Grassi ou José Ortega y Gasset) assinalam um vínculo forte entre o ensaísmo e a tradição de pensamento humanista. A senhora está de acordo? Que tipo de relação seria essa?
LILIANA WEINBERG Estou de acordo. O surgimento do ensaio coincide em boa medida com o projeto humanista: uma recuperação das fontes clássicas, relidas com um enorme interesse de trazê-las ao presente e fazer conversarem os grandes mortos gregos e latinos com os vivos que querem incidir na consciência humana. No ensaio, evidenciam-se muitas das características do melhor humanismo: maior interesse pelo homem, reconhecimento da história como disciplina formativa, renovado interesse pela leitura e pelo livro, apropriação das fontes com um sentido de atualização, enorme atenção aos valores e interesse pela redefinição do conhecimento humano. O ensaio surge num momento chave, em que coincide a expansão do humanismo europeu, assim como também sua entrada em crise.

CONTINENTE Que papel joga a metáfora – recurso muito comum no ensaísmo – no conhecimento filosófico?
LILIANA WEINBERG Sempre considerei a metáfora como uma figura ligada àquilo que os antropólogos estudam como “participação”, isto é, a possibilidade de enlaçar mundos e realidades diferentes através da postulação de uma analogia e uma afinidade qualificada entre mundos e níveis aparentemente diversos e impossíveis de combinar. O ensaísta amplia as dimensões do nominável e do inteligível; diz de maneira nova coisas novas, mas também se atreve a estabelecer relações impensadas por outros atores culturais. Gosto de dizer que o ensaísta converte os temas em problemas e os problemas em temas. Coincido também com aqueles que veem nas metáforas a possibilidade de modelar a realidade: aqui também nos aproximamos ao labor do ensaísta.


Voltaire. Imagem: Reprodução

CONTINENTE É possível falar de tradições ensaísticas diferentes de acordo com épocas ou países? Ou o gênero possui uma história única e continuada?
LILIANA WEINBERG Assim como Renato Ortiz se pergunta se é possível falar de uma ou de várias Américas Latinas, também é possível perguntar sobre se devemos falar de ensaio ou ensaios, e examiná-los efetivamente à luz de distintas tradições. Por exemplo, considero que a tradição latino-americana do ensaio não coincide com a peninsular. Para começar, vejo no Padre Bartolomé de Las Casas um antecedente do gênero, que se constitui como tal precisamente enquanto Las Casas toma uma distância crítica da cultura na que ele mesmo nasceu – agora convertida em cultura de conquista – e a denuncia. Por outra parte, o ensaio latino-americano do século 18 tem uma enorme proximidade com o ensaio da Ilustração, e a riquíssima prosa da independência se nutre de autores como Voltaire, Rousseau, assim como também da prosa que começa a circular a partir da França revolucionária e das ex-colônias norte-americanas.

CONTINENTE Há espaço para o ensaio no ambiente filosófico pós-moderno?
LILIANA WEINBERG Não só há espaço, senão que grande parte do modo como se conforma o pensamento pós-moderno é já, em si mesmo, ensaístico. Contudo, há várias mudanças importantes entre a concepção moderna do ensaio no que se refere ao estatuto de verdade e ficção, ou ao estatuto de subjetividade etc.; e, sobretudo, quanto ao conceito mesmo de verdade, que se transformou muito – de maneira excessiva – na pós-modernidade. Desde meu ponto de vista isso deve ser repensado. A partir do momento em que a crítica da cultura e dos valores passa a ser considerada, com pleno direito, como instância filosófica da maior importância, o ensaio deixa de ser algo auxiliar para se converter em central. Considero que com Nietzsche se abrem as comportas que dividiam filosofia e literatura, e o ensaio alcança uma nova etapa na qual já não se pode separar a dimensão epistemológica da dimensão criativa.

CONTINENTE E quem são os grandes ensaístas hoje em dia?
LILIANA WEINBERG Aqueles que são capazes de levar o ensaio a dimensões criativas e críticas cada vez mais audazes e sugestivas. Aqueles que seguem tentando reunir mundos e tarefas neste momento de especialização e coisificação. Na América Latina contamos com figuras-chave como Borges, Lezama Lima, Sarduy, Paz, Zambrano, que estabeleceram novos vínculos e cruzes entre ensaio e ficção, ensaio e narrativa, ensaio e poesia, ensaio e filosofia. Ou narradores que a partir do romance se avizinharam abismalmente do ensaio, como Clarice Lispector. E entre aqueles que levaram a própria crítica a novas dimensões que superam em muito o exercício meramente profissional para honrar a leitura e a interpretação, como não pensar no próprio Antonio Candido ou em Ángel Rama, figuras que, ademais, começaram a construir pontes entre o Brasil e a América Espanhola. Penso no ensaio sociológico de Renato Ortiz. Nos cruzamentos entre arte, estética e literatura por parte de John Berger. No resgate da experiência estética por parte de Muñoz Molina. Nos luminosos ensaios críticos – que ele provocativamente chama “formas breves” – de Ricardo Piglia. Na relação entre ensaio, moral e crítica política de Tomás Segovia. Nos ensaios de poética histórica de Derek Walcott. E acaba de morrer minha admiradíssima Nadine Gordimer, grande novelista, grande ativista sul-africana contra o apartheid, e também grande ensaísta. E cito só uns escassos nomes de uma lista infinita, a partir dos textos que eu mesma mais frequento como leitora. 

EDUARDO CESAR MAIA, jornalista e doutor em Teoria da Literatura.

Publicidade

veja também

Coletânea: Para entender uma filmografia

Narrar de qualquer maneira, sempre narrar

'David Copperfield': O filho dileto de Dickens

comentários