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Imagem: Do autorretrato às selfies

Gênero responsável por obras memoráveis da História da Arte chega ao século 21 numa perspectiva mais popular e menos autorreflexiva

TEXTO Olivia de Souza

01 de Fevereiro de 2015

Imagem Karina Freitas

É difícil compreender por que o gênero autorretrato (self-portrait), na pintura e na fotografia, permaneceu até pouco tempo um tópico pouco discutido fora do âmbito artístico e acadêmico, ainda que reúna alguns dos melhores exemplares da História da Arte. Para o artista, historiador e curador Lawrence Gowing (1918-1991), há de se reconhecer sua importância: “The moment when a man comes to paint himself – he may do it only two or three times in a lifetime, perhaps never – has in the nature of things a special significance” (“O momento em que um homem vem a pintar a si mesmo – e ele pode fazê-lo apenas duas ou três vezes em vida, ou talvez nunca – tem na natureza das coisas um significado especial”). Gowing, ele próprio autor de muitos autorretratos, afirmava que a opinião do artista sobre si mesmo é parte de seu equipamento. Esse gênero surge, então, como um exercício de descoberta de si mesmo e experimentação de diferentes técnicas.


Na pintura O casal Arnolfini (1434), pintor compõe seu reflexo
no espelho. Imagem: Reprodução

Antes de se tornar um gênero fotográfico, o retrato já fazia parte do legado artístico. Os primeiros registros datam do Egito Antigo, em que faraó e família gozavam do privilégio de terem suas imagens eternizadas. Na Grécia Antiga, as moedas eram cunhadas com a imagem dos soberanos, e, entre os romanos, retratos eram utilizados como culto aos antepassados. Mas o conceito de retrato só foi popularizado a partir do século 15, durante a Renascença italiana, período marcado por importantes mudanças de caráter sociocultural, com o aumento da riqueza decorrente da ascensão da burguesia e a valorização do homem no sentido individualista. Jacob Burckhardt, no ensaio A cultura do Renascimento na Itália (1860), afirma que o período caracteriza-se pelo surgimento do culto à personalidade: “Desconhecendo limites, milhares de rostos adquirem feição própria (…); ser humano algum receia sobressair, ser e parecer diferente dos demais”.

A priori, não havia, na antiguidade, essa compreensão do ‘eu’. Basta ver, por exemplo, como eram as representações plásticas do corpo na Idade Média. Eram sofridas, oprimidas, os corpos eram mirrados. Quando você sai daquilo e parte para o Renascimento, percebe toda uma mudança de característica, de posicionamento do que passa a ser um homem em sociedade. O corpo não é visto mais como um problema”, afirma o fotógrafo e pesquisador da UFPE, José Afonso Jr.


Detalhe da pintura O casal Arnolfini. Imagem: Reprodução

É também nessa época que se refinam as técnicas de fabricação dos espelhos, e sua manufatura ganha escala comercial. Os espelhos passam a fazer parte da composição de pinturas, sendo integrante delas o reflexo do artista enquanto trabalha na concepção da obra, como nas pinturas de Jan van Eyck e Velázquez – O casal Arnolfini (1434) e As meninas (1656), respectivamente. Aproximadamente uma centena de autorretratos foram produzidos por Rembrandt (1606–1669), que, pintando-se obsessivamente e sem vaidades, produziu uma biografia visual única. Compondo o filão de prolíficos autorretratistas, está o pós-impressionista Vincent van Gogh: o Autorretrato com a orelha cortada (1889) é uma das famosas obras de sua vasta produção (foram mais de 30 autorretratos produzidos pelo holandês entre 1886 e 1889).

Entre os exemplos mais contemporâneos, impossível não citar a mexicana Frida Kahlo (1907-1954), em que a vasta obra compreende, quase que em sua totalidade, autorretratos. Seus quadros refletem uma vida conturbada, marcada por dores e tragédias, mas também por superações, muita intensidade e paixão. “Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.” Seu marido, o muralista Diego Rivera, afirmou que Frida era “um exemplo único na história da arte de alguém que abre seu peito e seu coração para mostrar sua verdade biológica e como se sente com isso”.


A artista mexicana Frida Kahlo afirmava que se retratava  porque era
sozinha e esse era o "assunto" que mais conhecia. Imagem: Reprodução

FOTOGRAFIA E AUTORREFLEXÃO
Antes da consolidação do retrato como algo popular, o homem obtinha acesso à própria imagem apenas através do espelho ou da pintura, recurso limitado aos aristocratas. Seu domínio público se dá no século 19. Em 1838, Louis Daguerre capturava com seu daguerreótipo a primeira imagem humana (um homem tendo seus sapatos engraxados), na famosa fotografia do Boulevard du Temple, em Paris.

No ano seguinte, outro pioneiro da fotografia, o químico norte-americano Robert Cornelius, fotografava a própria imagem através de um daguerreótipo aperfeiçoado. O feito originou o primeiro retrato bem-sucedido de um ser humano, na América. Para reduzir o tempo de exposição, Cornelius optou por fotografar do lado de fora de sua casa, com luz natural. Depois, colocou a câmera num suporte firme e removeu a tampa da lente, permaneceu parado por alguns minutos, e depois a colocou de volta. A obra, que hoje faz parte da coleção da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, é reconhecida como o primeiro autorretrato fotográfico – a primeira selfie – e o ato foi reproduzido ao longo dos anos, tanto pelos grandes nomes da fotografia contemporânea, como pelos anônimos.


No quadro As meninas, de 1656, Velázquez cria reflexo improvável de
si mesmo. Imagem: Reprodução

No âmbito artístico, o autorretrato é uma manifestação que consiste em aprofundar a reflexão do sujeito fotógrafo/fotografado sobre si mesmo. Nesse sentido, ao longo da história da fotografia, transformou-se numa de suas principais formas de expressão, bem como de composição da imagem que o observador tem da personalidade do autor. Pioneiro de diversas técnicas fotográficas, o famoso retratista parisiense Félix Nadar (1820-1910) produziu uma extensa coleção de autorretratos, que o permitiu testar poses, gestos e posicionamento da câmera antes de virá-las para seus clientes, entre os quais estão Victor Hugo, Charles Baudelaire e Eugene Delacroix.

No entanto, observando atentamente seus autorretratos, percebe-se que tal experimentação não se restringia meramente à técnica, segundo a descrição do J. Paul Getty Museum (Los Angeles) para uma de suas obras: “Talvez Nadar estivesse apenas olhando para um assistente que o ajudava a fazer a exposição, mas ele claramente pretendia projetar uma imagem de si mesmo como um artista romântico e intenso. (…) Essa fotografia foi feita no meio de sua carreira; Nadar já era um célebre escritor, caricaturista e fotógrafo de retratos. Ele estava, portanto, livre para brincar com a autorrepresentação, explorando as muitas personas que compunham um homem complexo e talentoso”.


Van Gogh foi um prolífico autorretratista com obras importantes como Autorretrato
com a orelha cortada (1889). Imagem: Reprodução

Devido à forte carga de temas sexuais explícitos, e ao envolvimento com a subcultura gay sadomasoquista de Nova Iorque, a obra de Robert Mapplethorpe (1946–1989), mesmo depois de sua morte, foi envolta em polêmicas que visavam diminuir sua importância. A provocação oriunda da sexualidade, tema recorrente em seu trabalho, permitiu a Mapplethorpe ultrapassar os limites da fotografia convencional, tanto pelas escolhas estéticas, quanto pela técnica. Além de ser um excelente retratista (entre seus trabalhos de destaque, estão fotos de importantes ícones da cultura pop, como Andy Warhol, Keith Haring, Iggy Pop e Patti Smith), ele ficou famoso nas décadas de 1970 e 1980 por fotografar o nu masculino e o imaginário gay sexualmente explícito, uma ode à liberdade individual. O Tate Museum faz uma descrição exata de sua obra: “Elas não foram feitas para serem excitantes, chocantes ou obscenas, mas bonitas de uma forma tradicionalmente clássica”.

Notório também por seus autorretratos, ele usava o próprio corpo para pôr em questão gênero e sexualidade. O bad boy com cigarro na boca, expressão fechada e jaqueta de motoqueiro faz contraste à delicadeza e feminilidade de um Mapplethorpe travestido e sorridente – duas imagens que compõem capa e contracapa de um de seus livros, Certain people: a book of portraits. Tal dualidade o colocava em dois extremos, duas possibilidades opostas para a época – o Mapplethorpe censurado e isolado no submundo gay e o fotógrafo renomado que fazia fortunas –, enquanto refletia sua obra, na qual ele fotografou de tudo, de membros da realeza a prostitutas e transexuais.


Fotógrafo Mapplethorpe usava o próprio corpo para pôr em debate gênero e sexualidade. Fotos: Reprodução

Indo de encontro à ideia tradicional, de que um autorretrato seria o ato de voltar-se para si, num exercício constante de introspecção, a norte-americana Cindy Sherman usou seu trabalho para explorar outras perspectivas. Protagonista de todas as suas fotografias, ela incorpora diversas personas em seus ensaios, com o objetivo de levantar uma série de reflexões e questionamentos. Sua performance não é, a priori, a respeito de si: em sua obra, põe em discussão vários estereótipos femininos, numa crítica ácida, irônica, por vezes grotesca, à visão da cultura ocidental a respeito do papel da mulher na sociedade.

Na famosa série Untitled film stills (1977–980), graças à sua habilidade camaleônica, ela reproduz, de maneira bastante fiel, cenas cinematográficas (ou publicitárias) que compõem o imaginário produzido pela indústria cultural, nas sociedades de consumo. Por trazer à tona diversos personagens, facetas – e um distanciamento do “eu” fotográfico, do subjetivo –, muitos apontam que a obra de Cindy Sherman não se enquadra no gênero autorretrato. Já outros creem que sua reflexão vai além de uma suposta “verdade individual do autor”, dirigindo-se a uma verdade coletiva.


Retratista parisiense Félix Nadar testou poses e posicionamento da câmera.
Imagem: Reprodução

SUJEITO-ESPETÁCULO
“As primeiras câmeras, produzidas na França e Inglaterra, no início de 1840, tinham apenas seus próprios inventores para operá-las. Uma vez que não havia fotógrafos profissionais, não poderiam também haver os amadores, e o ato de fotografar ainda não compunha um ‘ato social’. Uma atividade artística, sim, mas com poucas pretensões de ser uma arte.”

Publicado originalmente no Brasil em 1983, Sobre a fotografia, de Susan Sontag, do qual o trecho acima foi extraído, reúne seis ensaios escritos na década de 1970 pela filósofa e crítica de arte, em que ela analisa a fotografia como o fenômeno de uma civilização, desde a invenção do daguerreótipo, no século 19. Nele, Sontag anuncia uma fotografia cada vez mais desligada de uma expressão artística, e mais vinculada ao entretenimento de massa: “(…) como toda obra de arte produzida em massa, a fotografia deixa de ser praticada como uma forma de arte, pela maioria das pessoas. Faz parte, principalmente, de um rito social, uma defesa contra a ansiedade, e um instrumento de poder”.


Cindy Sherman incorpora variadas personas em seus autorretratos. Foto: Reprodução

Se, nos anos 1970, Sontag alertava para uma possível utilização excessiva do aparato fotográfico, causada pela industrialização (e a consequente popularização) do mesmo, atualmente, com a simplificação dos processos, resultado da digitalização da fotografia a partir dos anos 2000, da consolidação da internet banda larga e do surgimento das redes sociais, não mudou apenas o instrumento, que se multiplicou em diversos aparelhos. Mudou também o suporte, que migrou da cópia em papel para as telas dos computadores, dos smartphones e tablets.

Para o fotógrafo e pesquisador da UFPE José Afonso Jr., o advento das redes sociais multiplica as formas de construção da subjetividade, através do Facebook, dos blogs, dos sistemas de compartilhamento de imagens como Flickr, Instagram e tantos outros. “É natural que as pessoas estabeleçam uma narrativa da própria vida ‘editando’ esse cotidiano. Ou seja, fotografando e mostrando aquilo que lhe interessa. Do mesmo modo que um álbum de fotografia familiar é uma edição da vida privada em forma de imagem”, aponta.


Francamente narcísicas, selfies mobilizam dos autores o imediato compartilhamento das imagens. Fotos: Reprodução

De acordo com o Oxford Dictionary, que em 2013 elegeu selfie como a palavra do ano, o tão inflamado termo define “uma fotografia que uma pessoa tira de si mesma, através de um smartphone ou webcam, que é compartilhada através das mídias sociais”. A selfie se afasta da noção tradicional do autorretrato por adquirir características menos comprometidas com a autorreflexão e mais engajadas com a escolha da imagem e seu compartilhamento. Suscitando, por exemplo, mais questionamentos acerca do narcisismo, expressão de si e objetificação.

Segundo a concepção freudiana sobre narcisismo, para o sujeito conseguir estabelecer bons vínculos sociais, é necessário que, durante a infância, ele tenha sua afetividade estimulada, sobretudo pelas figuras familiares, de forma a se sentir amado. O modo de ele experienciar isso irá posteriormente exercer influência nas relações que estabelece com as pessoas e consigo mesmo. Trazendo para o contexto contemporâneo o mito de Narciso – que sucumbiu à própria imagem ao apaixonar-se por seu reflexo nas águas de uma fonte –, essas relações que se estabelecem através das redes sociais não apenas estão ligadas ao simples ato do indivíduo de se expor; há também uma expectativa pela contrapartida do “outro”, através de comentários, elogios e curtidas.

“Nós saímos um pouco da ideia das mídias de massa para as massas com mídia, e isso é algo forte, ou seja, a possibilidade e o poder de estabelecer um registro, um comentário, um ponto de vista, e também a possibilidade de construir a nossa própria imagem de maneira permanente (não só a imagem visual, mas, através dela, a característica de uma imagem pública), esse aspecto está absolutamente atado, linkado com o que a gente pode entender de uma pessoa urbana, contemporânea. Esse fenômeno é tão forte, que fico imaginando como conseguimos viver tanto tempo sem isso”, indica Afonso.

Já o jornalista e curador de fotografia Diógenes Moura aponta a proliferação das selfies como uma patologia dos tempos modernos. “Não é fotografia, é imagem. A questão do autorretrato para mim, nesses 30 anos que escrevo e pesquiso, nasce sobretudo de uma pesquisa dos próprios fotógrafos, de uma sequência de descobertas, muitas vezes, imagino, ligada à lembrança. A diferença do selfie para isso é que a imagem do homem contemporâneo se transformou, se tornou fragmentada. A abundância de informações e de imagens no nosso cotidiano é tão grande, que nos fazem cegar, perder a sensibilidade do olhar. Essa necessidade de perpetuar algo que somos nós mesmos vem da nossa própria fragilidade, de um mundo cada vez mais fragmentado, frágil e violento”, opina. 

OLIVIA DE SOUZA, editora da Continente Online.

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