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Experimental: Raro estudo de percussão

Em 'Território XXI', o Grupo de Percussão do Nordeste realiza trabalho em que instrumentos coadjuvantes na música exercem protagonismo com excelência

TEXTO Fernando Athayde

01 de Fevereiro de 2015

Grupo de Percussão do Nordeste

Grupo de Percussão do Nordeste

Foto Divulgação

Formado em 1997, na Paraíba, durante o 2º Encontro Nordestino de Percussão, o Grupo de Percussão do Nordeste acaba de lançar o primeiro disco de carreira, o álbum duplo Território XXI, um apanhado de temas musicais centrados na exploração do ritmo e da percussão erudita. O lançamento, gravado inteiramente no Recife, ao longo de 2013, divide a experiência do ouvinte entre a contemplação de belas melodias e a provocação a compreender, de fato, até onde vão os limites da composição. Ao todo, são 11 faixas, das quais sete foram compostas especialmente para o grupo e quatro são resgates de peças clássicas para o gênero no Brasil.

Encabeçado pelo músico e professor-assistente da UFPE, Antônio Barreto, o projeto é surpreendente, à medida que faz uso exclusivo de instrumentos de percussão para dar forma e linearidade às melodias e harmonias. A primeira faixa do segundo disco, Circuloníricos, de autoria de Silvia de Lucca, é um exemplo perfeito disso. Composta para septeto de percussão e piano, a música traz arranjos assobiáveis, ainda que formados apenas por instrumentos rítmicos. Ao longo de seus oito minutos e meio de duração, são recorrentes os sentimentos de singeleza e alegria causados pelas escolhas harmônicas que a formam.

Por outro lado, instrumentos notórios da percussão erudita, como a caixa branca, a marimba e o vibrafone, aparecem pontualmente como solistas no álbum. Assim, atuando tanto sob complexidade da harmonia quanto no minimalismo da performance solo, Território XXI possui uma gama de texturas sonoras ampla e intrigante. Em Ensaio 79, peça do compositor brasileiro Mário Ficarelli (falecido em maio de 2014) para quinteto de piano e tambores, é notável como está disposta a presença dessa dinâmica. Nela, o virtuosismo rege a composição delimitada pela oscilação de andamento, intensidade e tonalidade.

Outra observação interessante é que o Grupo de Percussão do Nordeste buscou reproduzir com fidelidade os timbres naturais de todos os instrumentos utilizados. Dentro do meio erudito, isso é algo imprescindível para a apreciação das obras. Mesmo hoje, época em que o mundo da música vive um efervescente desenvolvimento das tecnologias de gravação e tratamento de áudio, a utilização de tais recursos só aparece em Território XXI, quando há a necessidade. Gravado no Estúdio Carranca e no Estúdio do Departamento de Música da UFPE, tanto a mixagem quanto a masterização do projeto buscam permitir que cada peça soe exatamente como ela soaria ao vivo.

Essa escolha atinge a presença das dinâmicas sonoras ao longo da obra, o que significa que o nível de compressão aplicado na pós-produção de cada elemento gravado é bastante suave. Como consequência disso, estão preservadas todas as variações de timbres provenientes da força com que foram tocados os instrumentos abordados em Território XXI. Num trabalho do gênero, em que o virtuosismo técnico é o núcleo da performance, esse cuidado é fundamental, pois faz com que o ouvinte tenha acesso pleno à interação entre o músico e a percussão tocada por ele.

ESTUDO DO RITMO
Presente na vida do homem desde o período paleolítico, quando começou a ser explorada através dos batuques feitos a partir de bastões de madeira e pedra, a percussão só veio ganhar espaço dentro da música erudita em meados do século 17. A princípio, foram instrumentos de marcação rítmica, como os tímpanos, os primeiros elementos percussivos incorporados ao universo sinfônico. Gradualmente, porém, o desenvolvimento da experimentação sonora e a busca natural por novos timbres e sons levaram outros instrumentos a dar vida às composições eruditas, como a caixa clara e os pratos. Enfim, na década de 1940, a percussão passou a atuar como solista, servindo de base para um complexo estudo acerca das propriedades rítmicas do som.

Na música popular, o ritmo é associado quase sempre aos compassos quaternários, em que o andamento de uma música é contado de quatro em quatro tempos. Na música erudita, porém, esse padrão rítmico é apenas um dentre tantos outros recorrentes. No trabalho do Grupo de Percussão do Nordeste, a marcação do andamento dos temas musicais leva a possibilidade ao limite e aparece configurada nas mais diversas formas.

Um aspecto digno de atenção dessa característica reside no fato de que, quando um instrumento de percussão aparece isolado no disco, possui uma função ao mesmo tempo rítmica e melódica, afinal, ele é o acompanhamento de si mesmo. É algo tão complexo, que acaba soando apenas como um conjunto de frequências sem nenhuma conotação musical aparente. Graças a isso, algumas das composições de Território XXI – como é o caso de Sorriso bonito, terceira faixa do álbum, da autoria de Tiago Lima e composta para quinteto de percussão – podem soar estranhas ao grande público, habituado a ouvir apenas os moldes rítmicos mais difundidos na música popular.

John Cage, compositor norte-americano pioneiro do gênero da música aleatória e estudioso da música erudita do século 20, afirmou que “a maioria das pessoas escuta o som esperando escutar mais que o próprio som. Elas esperam ouvir o significado contido nele”. Tal análise traduz em poucas palavras os porquês que envolvem essa possível dificuldade de assimilação das peças solo para percussão erudita hoje. E, mesmo sendo incorreto afirmar que a música apresentada em Território XXI habita o mesmo campo conceitual que a obra de Cage, o raciocínio dele pode ser aplicado a essas circunstâncias facilmente.

Assim, é fundamental notar que grande parte das pessoas, ao ouvir uma música, espera encontrar uma interação entre os arranjos dela, como se a composição fosse obrigatoriamente formada pelo agrupamento coeso de mais de um som. Na prática, esse pensamento é uma herança da música popular, algo distante de um trabalho como o realizado pelo Grupo de Percussão do Nordeste, em que o foco é o estudo aprofundado sobre como os elementos percussivos podem integrar o ato de compor. Sejam eles parte de algo maior, ou o próprio núcleo da composição. 

FERNANDO ATHAYDE, estudante de Jornalismo e estagiário da Continente.

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