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Jornalismo: Resgate de um evento quixotesco

'Último porto de Henrique Galvão', da autora pernambucana Ana Maria César, reúne história, literatura e documentação, para remontar o caso do sequestro do navio português Santa Maria

TEXTO Priscilla Campos

01 de Novembro de 2014

Navio sequestrado atraca no Porto do Recife

Navio sequestrado atraca no Porto do Recife

Foto Sapo.PT/Reprodução

"A História sempre me fascinou. Em 1961, acompanhei pelos jornais a saga de rebeldes antissalazaristas e antifranquistas em um navio sequestrado com 600 passageiros a bordo, que mudou seus rumos e veio parar no Nordeste brasileiro. Não fui recebê-los no porto – como muitos o fizeram – porque no dia do desembarque não me encontrava no Recife. O assunto foi constante por algum tempo, mas logo voltamos às nossas atividades e, de certa forma, o esquecemos. Mas o interesse em resgatar o contemporâneo me veio com a maturidade”, reflete a escritora pernambucana Ana Maria César sobre o seu novo livro, Último porto de Henrique Galvão.

A publicação, a ser lançada pela Cepe Editora, traça um panorama histórico e, principalmente, jornalístico do sequestro do navio português Santa Maria, comandado pelo poeta revolucionário Henrique Galvão. Dois aspectos, um relacionado à escolha de fontes documentais e outro à construção narrativa, destacam-se na escrita de Ana Maria: sua base de dados, focada na reconstituição factual provinda de uma pesquisa profunda nos arquivos de imprensa da época, e o fio condutor como elemento surpresa de um evento que já foi contado e documentado antes. O texto da pernambucana não parece repetir relatos de um passado recente, Ana Maria consegue extrair certo suspense de antigas situações e esse é o maior triunfo almejado por quem deseja agregar história, literatura e documentação em uma só obra.

Cercado de diferentes depoimentos, boatos, acordos políticos, conspirações e declarações polêmicas, o sequestro da embarcação portuguesa foi um importante ponto de intersecção na convivência histórica moderna entre Brasil e Portugal. Imersos em uma longa ditadura, que tinha como centro opressor o campesino da região de Vimieiro, Antônio de Oliveira Salazar, Henrique Galvão e Souto Mayor (assistidos em longa distância por Humberto Delgado) iniciariam uma operação quixotesca em seus mínimos detalhes. A ela, os revoltosos chamaram de Dulcineia. Ao tomar o navio, os oposicionistas criavam uma terra portuguesa liberta de todos os males salazaristas que assombraram a população ibérica durante tantos anos.


Em primeiro plano, o poeta Henrique Galvão, ladeado à direita pelo companheiro de revolta Souto Maior. No fundo, à direita, o capitão do Santa Maria, comandante Maia.
Foto: Sapo.PT/Reprodução

De acordo com Ana Maria, a ideia de sua pesquisa é abordar o acontecimento na ótica das aventuras vividas pela população, pelos políticos locais, diplomatas e, sobretudo, pela cobertura da mídia nacional e internacional que esteve na capital pernambucana. “Eu inverti o ângulo de visão e escrevi a história a partir do Recife, de sua gente, suas autoridades, sua imprensa. Hoje, tenho firme a certeza da importância de nos apropriarmos da contemporaneidade, pois os fatos de hoje serão história amanhã. Mas, para que no amanhã exista uma história, o hoje precisa ser registrado, estudado, analisado, se possível, pelos que vivenciaram os fatos, porque é neles que reside o sentimento mais puro e a visão mais arguta”, explica.

FAÇANHAS
Em um dos capítulos de Pensando contra os fatos – jornalismo cotidiano: do senso comum ao senso crítico, a professora de Jornalismo e doutora em Serviço Social, Sylvia Moretzsohn, traz para sua análise o pensamento do pesquisador, e também professor, Antonio A. Serra para discutir jornalismo, verdade e política. Para Moretzosohn, o trabalho jornalístico é uma “profissão de fronteira”, definição que ela defende citando Serra: “Pois o jornalismo se propõe a dizer o que é o político. Propõe-se, assim, a ser, por um lado, uma ‘voz’ a serviço da Verdade, e, por outro, um narrador de nível da realidade que é ambíguo e mutável – sobretudo que envolve as ações, com sua rebeldia à evidência lógica ou factual”. Esse narrador que pode não apresentar atitudes coerentes com o fato apurado e a possibilidade de mutações, característica intrínseca a todo ser humano, é bem-exemplificado na figura do então jornalista do Diario de Pernambuco, Eunício Campelo. No tópico dedicado a Campelo, a escritora disserta sobre a paixão do repórter pelo mar e seus mistérios. Responsável pelo setor de noticiário de navegação, o pernambucano decidiu juntar-se aos rebeldes após alguns dias de cobertura.

Ana Maria escreve: “Dias depois, o navio fundeado ao largo, conseguiu, num rebocador, chegar a bordo do paquete rebelde para entrevistar o capitão Galvão. Findo o trabalho jornalístico, enquanto os demais repórteres desembarcavam, decidiu permanecer. Trocou a roupa de tropical inglês pelo uniforme revolucionário. Contou sua longa militância democrática e pediu a Galvão para se incorporar ao grupo”. Ali, Campelo deixava para trás a sua posição de “voz” em busca da verdade e entregava-se aos deliciosos impulsos da rebeldia.

Sobre o embasamento de pesquisa focado em uma investigação comunicacional, a pernambucana relembra a frase de Michael Dobbins: “O jornalismo é o rascunho da História” e a relaciona com sua trajetória.


Em foto publicada pela revista Life, detalhe da proa do navio, com a faixa "Santa Liberdade". Foto: Sapo.PT/Divulgação

“Desde meu primeiro trabalho, descobri que os jornais representavam uma fonte das mais importantes para a pesquisa, haja vista que, neles, os acontecimentos são apanhados com a visão do momento. Por trás dos fatos assim registrados, percebe-se o entorno, sente-se o meio no qual sobrevieram, chega-se à análise de uma época. Sobretudo se dela fizemos parte. Registrar histórias passadas nos anos 1950/1960 me traz a percepção das mudanças que o tempo operou na sociedade e em nós. Quando decido escrever, primeiro leio a literatura existente, caso haja, busco documentos, entrevisto pessoas e complemento com a leitura de jornais. Imprescindível, também, conhecer os lugares onde se desenrolaram os fatos. Então, com as imagens gravadas na memória, mergulho no tempo pretérito e refaço as ações. A forma de abordagem, a divisão dos capítulos, tudo vai surgindo lentamente”, descreve.

De fato, a autora parece pensar em todos os detalhes que compõem o seu objeto final. A organização do projeto gráfico de Último porto de Henrique Galvão está alinhada com o aspecto do mecanismo narrativo. Ana Maria conta que, durante o processo de criação, deparou-se com a necessidade de desenvolver assuntos que, de certa forma, não se ajustavam ao modelo de texto corrido. Diante disso, optou pelo uso de duas fontes e diagramações textuais diferentes.

“Nesses casos, escritores utilizam rodapé ou referências no fim do trabalho. Desgosto de ambos, principalmente, porque minhas informações eram longas. Com esse contraste entre as fontes, de um lado, os fatos seguem cronologicamente; de outro, viajo ao mundo dos personagens, justifico decisões, complemento informações, para que o leitor vivencie a narrativa com mais cumplicidade. Essa estrutura veio ao encontro do estilo que pretendia imprimir ao relato”, observa.

FONTE ARCAICA
Ainda refletindo sobre o caráter fronteiriço do jornalismo, Sylvia Moretzsohn segue as ideias de Antonio A. Serra a esse respeito: “Para compreender melhor essa tensão, Serra propõe um recuo ao que considera a fonte mais arcaica do jornalismo: a História, palavra que, na Antiguidade, significava (…) ‘expor as informações’, e que se ligava a outras, como histôr (‘juiz de uma contenda’, ‘testemunha’) ouoída (‘eu sei porque eu vi’), implicando, ao mesmo tempo, a ideia de que o relato dos fatos era indissociável da ação subjetiva (do julgamento) de quem os testemunha (…)”.


A presença do Santa Maria atraiu a população recifense, a imprensa local e internacional. Foto: Sapo.PT/Divulgação

Serra sublinha esses aspectos ao recordar que as motivações dos historiadores clássicos eram “justamente enfrentar esta teia complexa e ambígua das ações humanas, mas enfrentá-la em nome da Verdade. Daí o equilíbrio que tanto o historiador quanto o jornalista devem perseguir, simbolizado no exemplo de Heródoto, empenhado em escrever sobre a guerra entre gregos e persas, para que não chegue a desvanecer-se com o tempo a memória dos fatos públicos dos homens, menos ainda a obscurecer as grandes e maravilhosas façanhas, tanto dos gregos quanto dos bárbaros”. A ideia de capturar o instante, relacionada por Serra à experiência do filósofo grego, permeia toda a saga dos jornalistas e profissionais envolvidos na cobertura da chegada do Santa Maria ao Porto do Recife. Em paralelo à conturbada viagem pelos mares e às dúvidas dos rebelados – iriam mesmo sair de águas internacionais e desembarcar alguns passageiros no Brasil? –, profissionais europeus, norte-americanos, latino-americanos, brasileiros, tentavam, em tempo real, produzir um material que contemplasse tanto o território livre de Portugal (o navio) quanto as decisões diplomáticas, e ainda as opiniões a favor do governo de Salazar. Esse interessante malabarismo noticioso com ares de filosofia grega permeia toda a publicação assinada pela pernambucana.

Questionada sobre o interesse que ainda cerca a travessia do Santa Maria e seus desdobramentos, Ana Maria afirma que o motivo principal está na ausência de livros sobre assunto e espera que o Último porto de Henrique Galvão faça com que esse episódio seja conhecido, sobretudo, pelos que fizeram parte dele. “Direcionar o tema para o Recife transformado, por alguns dias, no ‘centro do mundo’ certamente fará com que os pernambucanos se sintam protagonistas dessa história que também foi nossa. Muitos foram ao porto assistir ao desembarque dos passageiros, ou ao Clube Português para servir-lhes lanche, ou os acolheram em suas casas, ou visitaram os rebeldes no quartel da Polícia Militar, ou participaram da homenagem a eles prestada pelos professores e estudantes da Faculdade de Direito do Recife. Penso que muitos pernambucanos se reconhecerão na multidão que acompanhou a saga do navio Santa Maria.” 

PRISCILLA CAMPOS, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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