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Vicente Masip: O pensador que não protela a ação

A rotina estoica do linguista e professor espanhol apaixonado pela sistematização das línguas clássicas, pela filosofia, pelo piano e por... motocicletas

TEXTO Marcelo Abreu

01 de Outubro de 2014

Vicente Masip

Vicente Masip

Foto Roberta Guimarães

Quando acordo, eu normalmente não tenho nada para fazer, porque tudo o que tinha a fazer, fiz na véspera. Não deixo nunca nada para depois”, diz o professor Vicente Masip. Ao ouvir do repórter a observação de que no seu vocabulário, então, não existe o verbo “procrastinar”, ele rebate: “Sabe de onde vem ‘procrastinar’? Cras, em latim, quer dizer amanhã, então significa deixar para amanhã”. Como não deixa nada para o dia seguinte e vive o presente trabalhando e cultivando hábitos monásticos, Masip, esse acadêmico espanhol de 67 anos, radicado no Brasil desde 1969, tornou-se um dos intelectuais mais produtivos do país, sobretudo na área da Linguística. Somente nos últimos 16 anos, escreveu e publicou 32 livros.

Atuando no curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco desde 1994, Vicente Masip iniciou, em 2002, a preparação de uma série de livros que tem o objetivo de explicar os fundamentos de quatro línguas clássicas que considera fundamentais para o conhecimento aprofundado do idioma português. Os quatro livros já publicados – sobre latim, grego, hebraico e árabe – são o resultado de um dedicado estudo da linguagem e sistematização de conhecimentos dispersos.

Partindo da experiência com o ensino do espanhol para brasileiros, Masip investiu em trabalhos que tentavam dirimir – através do estudo da fonética e da fonologia – as dificuldades enfrentadas pelos estudantes na pronúncia da língua estrangeira. Constatou que o estudante brasileiro tem problemas na ortografia, por vir de um ambiente de ensino que prioriza a escrita, mas não leva em conta a fonética – área da Linguística que se dedica ao estudo da articulação dos sons.

Percebendo que outra grande lacuna era o desconhecimento total do latim pelas novas gerações, surgiu o interesse em transmitir noções básicas dessa língua. Em 2002, Masip lançou o livro Latim instrumental – curso sistemático e progressivo de tradução, no qual procurava dar aos estudantes de Letras uma base para conhecer melhor a própria língua. A experiência com o latim despertou nele o interesse por outro idioma da Antiguidade, que havia estudado nos tempos de colégio, na Espanha. “Chegou um momento em que passamos a sentir verdadeira fome e sede de grego, do grego clássico, da variante ática na qual se expressaram Platão e Aristóteles”, afirma na introdução do seu Manual introdutório ao grego clássico para falantes do português, lançado em 2008.

Depois, ele passou a estudar o hebraico bíblico, importante na Península Ibérica durante séculos. Masip conta que o seu interesse pelo hebraico foi motivado pela importância que a língua teve, junto com o árabe, em dar continuidade ao alfabeto fenício, formado só por consoantes. “O hebraico foi o ponto de referência para os gregos, que tiveram como grande mérito a inclusão das vogais no sistema.” Alfabeto este que evoluiu ao usado pelo latim, idioma do qual português e espanhol são variantes. Em 2009, surgiu, então, o seu Manual introdutório ao hebraico bíblico.

Concluindo o ciclo, foi lançado em 2013 o Manual introdutório ao árabe clássico para falantes de português, que sistematiza a língua do Corão e mostra suas grandes influências no vocabulário das línguas ibéricas.“Na Europa, é inconcebível um curso de Letras sem conhecimento de latim, grego, árabe e hebraico. Gostaria que tivéssemos aqui algumas noções dessas línguas e estamos dando pelo menos alguns cursos de extensão.”

Masip aprendeu latim a partir do Ensino Fundamental, na Espanha, e foi aperfeiçoando o conhecimento nos anos em que estudou em um seminário para se ordenar padre. Com o grego, foi o mesmo processo. Quanto ao hebraico e ao árabe, estudou sozinho, com a ajuda de uma grande biblioteca, em parte adquirida em sebos, e com a ajuda de gravações sonoras obtidas na internet. Mas fundamental mesmo foi sua rigorosa rotina de estudos em casa.

“Foi um desafio tão grande, que não sei como cheguei tão longe”, diz agora, aliviado. Cada uma das línguas foi uma aventura especial. “O grego, então, é uma ‘maravilha’”, diz, referindo-se à inacreditável riqueza da língua clássica, repleta de declinações e contendo um sistema sofisticado de vozes, aspectos, modos e tempos verbais. “Mas eu queria terminar o percurso linguístico para que tivéssemos pontos de referência, para não ficar somente no latim.”

No aprendizado, ajudaram as gravações do Antigo Testamento em hebraico, disponíveis na internet. Quanto ao árabe, Masip estudou o Corão, base do árabe clássico falado hoje em muitos países da África e Oriente Médio. Decorou partes do texto sagrado, na forma tradicional usada pelos recitadores árabes. Durante a entrevista, cantarola trechos ao explicar as regras da recitação religiosa dos muçulmanos. “O árabe foi o ponto de chegada na pirâmide”, resume o professor.

MEIO CATALÃO
Masip, porém, é muito mais do que um linguista apaixonado pelo Classicismo. Nasceu na cidade de Carcaixent, perto de Valência, na Espanha, em 1947. Na região, a língua majoritária é o valenciano, uma variedade do catalão. O pai falava valenciano, mas Vicente Masip teve o castelhano como sua primeira língua por influência da mãe. Foi alfabetizado na língua de Cervantes. Na época da ditadura de Franco, o catalão era proibido de ser ensinado nas escolas.

Aos 18 anos, entrou para o seminário. Estudou Letras e Teologia. Veio para o Brasil em dezembro de 1969, numa missão jesuítica. Passou um ano na cidade de Ribeirão, na mata sul de Pernambuco, para adaptar-se ao país. Ensinava Moral e Cívica e era conhecido na comunidade como Vicente Maxixe. Ao chegar, o que mais lhe chamou a atenção foi a variedade das frutas tropicais, o calor e a cortesia das pessoas. “Na Espanha, todos estavam discutindo o tempo todo, aqui havia mais afabilidade”, relembra o professor.

Terminou o curso de Filosofia na Faculdade Nossa Senhora Medianeira, ligada à USP, e estudou Teologia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Ordenou-se padre em 1974. Fundou o movimento conhecido como Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes, baseado na escola francesa de psicologia patológica, que ajuda as pessoas a superarem o sofrimento causado por doenças. Chegou a escrever quatro livros sobre o assunto, nos anos 1970.

Deixou o celibato em 1981 e passou a dar aulas na rede estadual de ensino, em Pernambuco. Casou, ficou viúvo, e casou de novo, dessa vez com a antropóloga pernambucana Fátima Quintas, com quem tem um filho. Nos anos 1980, decidiu fazer mestrado em História. Entrou no campo da Linguística no começo dos anos 1990, concluindo seu doutorado em 1995. No mesmo ano, fundou no Recife, com apoio do governo espanhol, o Centro Cultural Brasil-Espanha (hoje substituído pelo Instituto Cervantes), para ensino do castelhano.


O linguista é professor da UFPE desde1994 e atualmente coordena o curso de Letras.
Foto: Marcelo Abreu

Mas qual o motivo da passagem por tantas áreas das ciências humanas? Masip conta ter estudado Filosofia e Teologia por vocação. Iniciou o mestrado em História influenciado por seu sogro, o historiador Amaro Quintas. “Fui seu aluno e ele me animou a aprofundar um episódio praticamente ignorado até hoje: o levante de outubro de 1931 em Pernambuco, tema da minha monografia”. Por fim, fez doutorado em Linguística porque lhe pareceu o caminho para aprofundar estudos de fonética contrastiva entre o português e o espanhol.

Ao ser perguntado sobre como gostaria de ser definido, Masip responde sem titubear: “Eu me definiria como um professor compilador, porque nenhum desses conhecimentos é meu. Mas procurei reuni-los, dar uma certa coesão. Tudo foi escrito a partir de necessidades e premências que eu percebia”. Diz que herdou do pai a curiosidade pelas palavras e a necessidade de definir tudo o que vê pela frente.

LÓGICA FORMAL
“Estamos rigorosamente no cronograma. Temos 15 encontros e hoje é o quarto. Antes de entrar em campos semânticos, vamos revisar o que vimos nas aulas passadas.” Assim começa uma aula de Lógica Formal, dada por Masip no mestrado de Linguística na UFPE. Ele aciona o data show para uma breve revisão do conteúdo dado na disciplina.

Camisa quadriculada ensacada, calça baggy, sapatilha, passos apressados e decididos, maneiras polidas. Demonstra certo jeito de sacerdote. Um leve sotaque estrangeiro acompanha seu português perfeito. Confere com os alunos o significado de certas palavras e não hesita em dar gargalhadas, quando se surpreende com as curiosidades que a língua apresenta. Uma de suas tiradas típicas: “Tenho a sensação de que neste curso vamos descobrir alguma coisa nova. Inovar na matemática ou mesmo na fonética é muito difícil, mas nesse campo da semântica, onde há ainda muita confusão, pode ser mais fácil”.

A Filosofia e a Lógica são dois campos de interesses do professor espanhol, autor de quatro livros dedicados ao assunto. “O problema no Brasil é que não se tem noções básicas de Lógica e Filosofia. A Lógica é um esqueleto sem o qual é impossível fazer outras coisas.” Segundo ele, isso se reflete na qualidade da produção acadêmica no país. As ciências humanas ficam dando voltas ao redor, criando modas, mas não avançam, porque se esqueceram da origem da linguagem e não conhecem a Lógica”, critica Masip.

Para ele, os problemas de alfabetização no Brasil são derivados do desconhecimento, por parte dos professores, da fonologia e da fonética do português. “Querem ensinar o povo a ler e escrever, mas não fazem a ponte com a língua oral, não conhecem os sons da língua, a dimensão sonora.” Daí, deriva parte dos problemas de ortografia, as famosas confusões entre o uso do “s”, “z”, “ss”, “ç” etc. Sua atuação na área de fonologia e fonética tem tido o objetivo de dar uma base que facilite o trabalho de professores. A terminologia complicada usada no ensino é outro de seus alvos. “As gramáticas no Brasil são verdadeiros manuais de ocultismo”.

São problemas que ajudam também a fortalecer a linguagem baseada na onda do politicamente correto. Ele critica o uso de eufemismos (“deficiente auditivo” no lugar de “surdo”, por exemplo), e a mania recente de usar masculino e feminino, separadamente, para descrever as pessoas, como no caso de “bom-dia a todos e a todas”. “A morfologia conquistou, ao longo dos séculos, uma simplificação da língua: ‘criança’ sempre significou ‘menino’ e ‘menina’, ‘homem’ vale para ‘homem’ e para ‘mulher’, muitas vezes. Agora, querem regredir na morfologia. Vamos respeitar as pessoas, mas não precisamos empobrecer a língua”.

Masip é conhecido por sua organização e objetividade. Alguns poderiam pensar que ele é apressado. Mas ele se defende. “Eu resolvo as coisas logo. Não tem aquela coisa de ‘deixa aí, que depois eu olho’. Agora, isso é um pouco neurótico, mas também sou tolerante.” Em geral, a coisa funciona: “Às vezes, me arrependo de fazer uma coisa de forma um pouco apressada, mas para cada uma que eu erro, acerto 99”.

ROTINA PERIPATÉTICA
Quando não está estudando ou dando aulas, Masip é um homem adepto de uma rotina que varia entre hábitos monásticos e lúdicos. Acorda às 4h30 da manhã e vai para o computador resolver assuntos práticos e ler os jornais. Toma café às seis. Uma hora depois, já está a caminho da universidade, montado em uma moto do tipo Honda Bros de 150 cilindradas, protegido por joelheiras, cotoveleiras e capacete.

Passa as manhãs no Centro de Artes e Comunicação da UFPE, onde coordena o curso de Letras. Em uma das manhãs, dá aulas na pós-graduação em Linguística. À tarde, recolhe-se ao apartamento em Casa Forte para estudar. Caminha cerca de oito quilômetros por dia. Resolve tudo a pé, no próprio bairro. Tem grandes ideias caminhando. Lembra com gosto o hábito do filósofo Aristóteles e de seus discípulos que, na Grécia Antiga, desenvolveram o chamado método de estudo peripatético – baseado na caminhada. “Nietsche dizia: desconfie das ideias que você teve sentado.” Quando não tem para onde ir caminhando, complementa o roteiro diário numa esteira rolante, na varanda.

Divide o tempo no final da tarde entre caminhadas e o piano. Masip toca “bastante mal”, segundo diz, mas sabe de cor 42 peças curtas adaptadas ao piano, em geral canções de trilhas sonoras de filmes de sucesso como Doutor Zhivago, Titanic Adivinha quem vem para o jantar. Ele costuma tocar as 21 primeiras peças sempre na mesma ordem, durante meia hora, em dias alternados: segundas, quartas e sextas. As outras 21 peças são executadas nas terças, quintas e sábados. Isso ocorre há 20 anos. Tempos atrás, chegou a ter o hábito de tocar às cinco da manhã, usando um sistema de abafar o som do piano. Mas teve pena dos vizinhos e voltou a tocar às 17h30. Nos últimos três meses, a prática do piano está suspensa porque se choca com a necessidade de caminhar no mesmo horário. Exausto, vai dormir às oito e meia da noite. Dorme no chão, porque se sente melhor.

Aos sábados, vai à missa e ajuda na distribuição da comunhão a pessoas que não podem sair de casa e ir à igreja. Aos domingos, pratica mais uma de suas paixões: o motociclismo. A bordo de uma Harley-Davidson de 1.600 cilindradas, percorre estradas próximas à cidade, todo protegido com jaqueta, calça de couro e capacete. Gosta de moto desde os 14 anos. No Recife, tentou se entrosar com outros motoqueiros para passeios em turma, mas achou o grupo muito desorganizado, pouco afeito à pontualidade que lhe é tão cara.

Masip é um defensor da organização e do método como fundamentais para o estudo. “Fiquei marcado pela necessidade de definir termos e ser o mais preciso possível. Quantos professores tivemos que realmente foram bons, que tenham nos marcado?”, pergunta. “Pouquíssimos. Então, vamos ver se meus alunos pelo menos conseguem entender o que eu digo.” Ele lembra que o filósofo francês René Descartes dizia que todos têm uma inteligência parecida, assim como os órgãos do corpo. “A diferença é que uns têm método e outros não têm.”

O espanhol Vicente Masip não faz a sesta. Sentado na varanda de seu apartamento, em um começo de tarde abafado, aponta para a mesa onde está uma pilha de livros escritos por ele ao longo dos anos. “Se ficasse sentado com tudo isso aí, ficaria doido.” Prefere, então, caminhar e se cansar ao máximo durante o dia, para dormir bem à noite. “Aqui seria a região por excelência da sesta. Mas o Brasil é um país tropical de ritmo frenético.” 

MARCELO ABREU, jornalista, autor de livros como De Londres a Kathmandu e Viva o Grande Líder - Um repórter brasileiro na Coreia do Norte.

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