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Suzhou: Para contemplar a passagem do tempo

Na cidade vizinha de Xangai, na China, são mantidos desde 514 a.C. jardins cujo paisagismo recria a beleza assimétrica e harmônica da natureza em suas variadas expressões

TEXTO Marcelo Abreu

01 de Outubro de 2014

Foto Latinstock/©Viewstock/Corbis/Corbis (DC)

No céu há o paraíso, na terra há Hangzhou e Suzhou.” O velho provérbio chinês, lembrado hoje nos folhetos turísticos, tem uma origem nobre e antiga, bem anterior ao fenômeno do turismo de massa. No século 13, o aventureiro veneziano Marco Polo passou pelo estuário do Rio Yangtze, no centro-leste da China. Ficou mais tempo em Hangzhou, na época a capital da corte dominada pela dinastia Song. Mas, em 1276, passou também pela cidade de Suzhou e não deixou de observar e apreciar as sedas finas, as mulheres graciosas e a já então centenária arte dos jardins ornamentados.

Desde então, os jardins da cidade têm servido de ambiente de reflexão e deleite a nobres, artistas, intelectuais e altos funcionários da corte chinesa. Hoje, são relíquias do passado clássico e preservados como patrimônio da humanidade pela Unesco, desde 1997. A arte da jardinagem é uma das preciosidades da cultura do Extremo Oriente. Está presente em torno de palácios e templos antigos na China, na Coreia e no Japão. E também em espaços originalmente privados, como as casas da antiga aristocracia, onde a fortuna e o poder político conviviam com o bom gosto estético e o refinamento artístico.

Ao contrário da tradição ocidental, nos jardins da Ásia não era costumeiro o cultivo de flores, nem se dava importância aos canteiros organizados. A arte do jardim oriental se baseia numa recriação estilizada e assimétrica da natureza, feita a partir de pedras, seixos, vegetação nativa e plantas. O cenário, que reproduz a natureza em miniatura, situa-se em torno de pequenos lagos. Às vezes, pontes curvas e charmosas, feitas de madeira ou de pedra, cruzam os lagos em cujas margens há salões com tetos de beirais empinados, como nas imagens típicas do Oriente. Há pavilhões que fazem referência, em seus nomes, a obras literárias e poéticas. Em seu interior, abrigam exemplos de artes decorativas e peças de caligrafia. Existem também aposentos residenciais onde viviam, no passado, famílias da antiga aristocracia.

O efeito paisagístico retrata com fidelidade uma sociedade que valorizava muito o diletantismo de homens de letras, pessoas que não precisavam se preocupar com a sobrevivência material. Apesar do aparente hedonismo, os jardins são encarados como uma forma de arte séria, que exige do observador curiosidade, tempo e lastro cultural para apreciá-la em sua riqueza de detalhes.


Criado em 1509, Zhuozhèng Yuán é o maior e mais imponente dos jardins de Suzhou.
Foto: Latinstock/©Viewstock/Corbis/Corbis (DC)

Acredita-se que os jardins favorecem a conexão do homem com a natureza, ajudam a meditação e estabelecem relações com várias vertentes da filosofia chinesa, como é o caso do confucionismo, do taoísmo e do budismo. Ao longo da história da China, os nobres, intelectuais e artistas se deleitavam nos quintais privados, sobretudo à beira dos lagos onde liam, compunham poemas, praticavam caligrafia, ouviam música suave vinda das cordas de pequenas orquestras, observavam a mudança das estações, meditavam, tomavam vinho e recebiam amigos. A base de tudo era a contemplação da natureza e da passagem do tempo.

Em poucos lugares eles foram tão bem-preservados como na cidade de Suzhou, próxima a Xangai, no leste da China. Lá existem cerca de 70 conjuntos de jardins muito interessantes, todos construídos entre os séculos 11 e 19.

O mais famoso é chamado de Jardim do Mestre das Redes (Wangshi Yuan). É um dos menores (apenas meio hectare de área) e dos mais peculiares. O nome deriva do fato de que, quando um vice-ministro chamado Shi Zhengzhi morou em Suzhou no ano de 1140, costumava chamar sua casa de “O retiro do pescador”. A ideia foi aproveitada por volta de 1785 por um burocrata aposentado chamado Song Zongyuan, quando decidiu reformar a área. No centro, há um lago com muitos peixes, carpas vermelhas que docilmente se aproximam para comer o alimento jogado pelos visitantes.

Ao redor, a natureza trabalhada através da vegetação planejada e da colocação de pedras ressalta valores como proporção, equilíbrio, variedade e harmonia. A disposição dos elementos faz com que o espaço pareça muito maior do que é, na verdade. Dependendo da época do ano, são feitas apresentações de ópera chinesa em torno do lago, à noite. O Mestre das Redes é considerado tão importante, que parte dele foi recriada numa exposição no Museu Metropolitano de Arte de Nova York, em 1981.

PAVILHÃO DA ONDA AZUL
Um dos jardins que mais evocam o comportamento da elite culta e diletante do passado é o chamado Pavilhão da Onda Azul (Cang Làng Ting), localizado no sul da cidade, à beira de um riacho. É o mais antigo dos ainda existentes, datando do ano de 1044, quando foi criado pelo poeta Su Sunqin, no lugar de um horto ainda mais antigo. Ao longo dos séculos, foi destruído e reconstruído várias vezes.


Usualmente, os jardins orientais buscam recriar a natureza de maneira estilizada, com o uso de pedras, plantas, seixos e vegetação nativa. Foto: Divulgação

O destaque do conjunto são os aposentos de uma grande residência de madeira escura, aconchegante. Como é um dos que atraem menos visitantes, pode-se passear com tranquilidade entre os cômodos vazios, parando aqui e ali para observar pequenos detalhes. Ao redor da casa, ouve-se o barulho dos grilos, as folhas de bambu farfalhando ao vento, o canto de um passarinho e pode-se acompanhar a passagem de uma eventual borboleta. Aqui se percebe claramente a atmosfera que envolvia a elite ociosa, que consumia seu tempo com atividades artísticas.

No Pavilhão da Onda Azul, tudo remete à imagem que se tem da China clássica, com suas casas de chá adornadas por lanternas de papel vermelho, utensílios feitos de jade, objetos de madeira laqueada e passarinhos retratados em rolos de seda. É um milagre que um local tão sugestivo dos hábitos distantes do ideal marxista do século 20 tenha sobrevivido à destruição dos guardas vermelhos durante a chamada Revolução Cultural (1966-1976), no curso dos últimos anos do governo de Mao Tsé-tung. E que também tenha sobrevivido – até aqui, pelo menos – à sociedade de consumo atual e à expansão imobiliária galopante do capitalismo chinês.

O horto exemplifica bem como os intelectuais chineses “harmonizavam seus conceitos estéticos num ambiente de reclusão no meio de uma aglomeração urbana”, como afirma um documento da Unesco, que recomendou a escolha do jardim como patrimônio da humanidade.

EVOCAÇÕES SENSORIAIS
O Jardim do Administrador Humilde (Zhuozhèng Yuán) é o maior e mais imponente de todos. O lugar já era usado como residência de nobres desde o século 2 d.C. Mas foi o inspetor imperial Wang Xiancheng que criou o parque, ao se aposentar e voltar para a cidade em 1509. O nome veio de um texto escrito na dinastia Jin (1115-1234), intitulado Sobre a vida idílica, no qual se afirma: “Construir casas e plantar árvores, aguar o jardim e cultivar verduras são tarefas do homem humilde”. Na sua área de quatro hectares, há vários lagos, interligados por pontes em zigue-zague, com passarelas cobertas.


Foto: Divulgação

É dividido em seções com nomes pitorescos que dizem muito sobre a paisagem, como o Salão das Fragrâncias Distantes, o Pavilhão da Brisa de Lótus, a Casa do Arroz de Cheiro Doce, o Salão das Camélias, o Portão da Lua e o Salão dos Trinta e Seis Pares de Patos Mandarins. Neste mundo de simbolismos, os patos mandarins representam a fidelidade conjugal. O lótus simboliza a pureza. E o bambu, a força e a resistência. No chamado Pavilhão para Observação da Lua, se for noite de lua cheia, pode-se ver o satélite refletido, ao mesmo tempo, em um espelho na parede, nas águas do lago e também no céu.

A evolução dos jardins de Suzhou está documentada em antigos poemas, pinturas e mapas de variados períodos históricos. Através dos registros, chegou-se à conclusão de que eles existem desde a fundação da cidade, no ano 514 a.C., embora tenha sido durante a dinastia Song (960-1279) que mais floresceram. Estima-se que chegaram a existir, simultaneamente, cerca de 200 hortos privados, no século 18. Hoje, nove deles são reconhecidos pela Unesco como patrimônio da humanidade.

Além dos três citados, estão oficialmente protegidas áreas como o Bosque do Leão (de 1342, na dinastia Yuan); o Jardim do Descanso, o Jardim do Cultivo e a Chácara da Montanha com Beleza Abrangente (os três do século 16, na dinastia Ming); o Retiro do Casal (do começo do século 18); e o Jardim do Retiro e da Reflexão (de 1885, na dinastia Qing, a última antes da república). Afora essas, cerca de 60 outras áreas de menor importância são protegidas pelo Conselho de Estado chinês como sítios de preservação prioritária.

Durante a dinastia Song, foi desenvolvido também o estilo poético conhecido como ci. Dividido em duas vertentes – a haofang (espontaneidade heróica) e a wanyue (sujeição e sutileza) –, certamente foi muito praticado na beira dos lagos, à sombra dos pavilhões. O poeta Yan Shu, por exemplo, no poema intitulado Córrego para lavar seda, menciona um dos jardins: “Profundamente, suspiro pelas flores caídas em vão/ Vagamente, pareço saber que as andorinhas virão de novo/ No caminho do jardim perfumado, sozinho ainda permaneço”.

APARÊNCIA TRANQUILA
Na China, o tumulto histórico dos últimos séculos e a revolução comunista de 1949 fizeram muito para destruir as tradições do passado. Somente nos últimos 30 anos, os chineses começaram a perceber que estavam apagando o próprio patrimônio arquitetônico e começaram a tomar iniciativas para reconstruí-lo, geralmente de uma forma apressada e consumista, compondo uma espécie de Disneylândia oriental fake, de segunda categoria.


A contemplação dos jardins inspirou poetas do oriente.
Imagem: Reprodução

Mas, em Suzhou, isso até agora não foi necessário. Por não estar no centro de nenhuma das bruscas transformações políticas e econômicas, os jardins tradicionais acabaram sendo melhor preservados. A cidade fica na província de Jiangsu, localizada a 66 quilômetros de Xangai, percorridos em 45 minutos em um trem de alta velocidade. Apesar de ter oficialmente uma população de mais de quatro milhões de habitantes, Suzhou consegue manter uma aparência até tranquila, pouco barulhenta, com jeito de uma cidade “pequena”, pelo menos para os padrões chineses. O velho muro medieval que cercava a área central já desapareceu, mas ainda existem pequenos canais e córregos que dão à paisagem um toque pitoresco, quase de uma Veneza do Oriente, como chegam a afirmar alguns chineses.

No passado, a região ganhou importância econômica com a inauguração do Grande Canal – obra que levou mil anos sendo construída e só ficou pronta no século 6 d.C. –, ligando Hangzhou, também na bacia do rio Yangtzé, a Pequim, no norte do país, a 1.700 quilômetros de distância. A produção de seda passou, então, a chegar a lugares distantes. Na sua visita, no século 13, Marco Polo dedicou os maiores elogios a Hangzhou, que fica 121 quilômetros ao sul e até hoje se beneficia da propaganda, explorando o turismo nos seus lagos.

Mas foi Suzhou que manteve os jardins famosos e firmou-se como centro da produção de seda. O Grande Canal ainda passa no centro. Atualmente, a mistura de vias aquáticas com ruas estreitas, onde artesãos trabalham com madeira e à noite são acesas lanternas vermelhas, além dos jardins, minimizam a real dimensão da cidade.

A área conhecida como Pan Men, restaurada recentemente, é o que sobrou de um dos portões do muro antigo que circundava o centro e reforça a paisagem tradicional, combinando elementos como pontes, canais, um pagode (templo religioso com múltiplos tetos) e construções em estilo antigo.

NO JAPÃO E NO OCIDENTE
Já na dinastia Tang (618-907), a arte do paisagismo estava completamente desenvolvida. Durante a que é considerada como a Era de Ouro da China, muitos elementos dessa cultura foram levados para a península coreana e, de lá, pelo mar, chegaram ao Japão. Hoje, algumas tradições das Eras Tang e Song são mantidas de forma mais viva no Japão do que na própria China.


No paisagismo desses ambientes, há sempre a presença de pequenos lagos.
Foto: Divulgação

zen, vertente do budismo conhecida entre os chineses como ch’an, que se desenvolveu no Japão, também dá muita importância à meditação em lugares que reproduzem cenários naturais. Os praticantes acreditam que a observação calma da natureza reorganizada pelos humanos, seguindo preceitos do budismo e do taoísmo, ajuda a meditação e propicia paz interior. No Japão, os chamados jardins de pedra se desenvolveram em três estilos bem mais austeros e minimalistas do que os chineses: o karesansui (usado para meditação a partir de um ponto de observação fixo), o tsukiyama (que destaca vales e montanhas e permite o deslocamento do visitante) e o chaniwa (usado para a cerimônia do chá).

Não por coincidência, a cultura do zen-budismo e dos jardins chegou ao Ocidente através das influências japonesas ao longo do século 20. A partir dos anos 1950, os escritores norte-americanos da geração beatdesempenharam um papel importante na divulgação, sobretudo o poeta Gary Snyder, que morou no Japão e depois levou para a Califórnia algumas dessas tradições.

Os jardins de Suzhou nunca foram visitados pelos jovens beats no apogeu do movimento (décadas de 1950 e 1960) porque, na época, a China estava fechada ao mundo. Mas figuras como Gary Snyder e o escritor inglês Alan Watts (grande divulgador do budismo no Ocidente) se encontrariam espiritualmente com os grandes nomes da poesia chinesa do passado como Hanshan, Wang Wei e Du Fu, todos do período Tang. As áreas preservadas compõem um cenário adequado aos grandes poetas do verso clássico coreano conhecido como sijô. E, claro, são perfeitos para o universo dos haicais escritos por nomes como Matuo Bashô e Yosa Buson.

Brasileiros como os poetas Haroldo de Campos e Paulo Leminski, e também o citarista Alberto Marsicano, foram adeptos da tradição contemplativa, tradutores da poesia clássica e grandes apreciadores da cultura do Oriente. Certamente se sentiriam também em casa nos jardins de Suzhou.

MARCELO ABREU, jornalista, autor de livros como De Londres a Kathmandu e Viva o Grande Líder - um repórter brasileiro na Coreia do Norte.

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