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Manaus: Belle Époque tropical

A cidade é um símbolo urbano da época de ouro dos seringais, que legou à região uma importante herança artística e cultural

TEXTO E FOTOS AUGUSTO PESSOA

01 de Setembro de 2014

O Teatro Amazonas é importante ícone da riqueza e do refinamento trazidos pelos barões da borracha

O Teatro Amazonas é importante ícone da riqueza e do refinamento trazidos pelos barões da borracha

Foto Augusto Pessoa

A dura jornada dos seringueiros floresta adentro rendeu, além das toneladas de borracha que subsidiaram a fabricação de pneus durante o boom automobilístico do início do século 20, um dos mais expressivos patrimônios do Norte do Brasil, uma espécie de belle époque tropical, que legou ao coração da Amazônia uma herança artística e cultural só comparável ao ciclo do café no Sudeste. Manaus, capital do maior estado brasileiro e símbolo urbano desse período, resguarda parte significativa desse patrimônio e revela uma cidade pulsante, ao mesmo tempo nostálgica, um retrato vivo da força da colonização europeia na porção mais selvagem do Brasil.

Em lugares como o Teatro Amazonas ou o Mercado Adolpho Lisboa, ambos construídos com dinheiro e materiais vindos da Europa, é possível ter uma ideia da época em que a cidade possuía a então rara luz elétrica, avenidas construídas sobre pântanos e se dava ao luxo de trazer espetáculos teatrais diretamente de Paris. Quando Euclides da Cunha visitou a cidade, em 1905, afirmou que Manaus havia entrado numa profunda crise de identidade, negando, por um lado, sua origem indígena e, por outro, buscando uma identificação europeia absolutamente inacessível.


Parte do centro histórico ainda está emm processo de restauração

No Mercado Adolpho Lisboa, erguido à margem do Rio Negro com toneladas de ferro trazidas da Inglaterra, visualizamos o nível de europeização a que Manaus foi submetida no auge da economia oriunda do látex. Inaugurado em 1882 e inspirado no famoso Mercado de Les Halles, de Paris, o Lisboa é o segundo mercado construído no Brasil e é tombado pelo Iphan em função da sua importância histórica. Em estilo art nouveau, o exemplar da arquitetura do ferro é composto por um pavilhão central de alvenaria e dois pavilhões de ferro fundido e vitrais coloridos com motivos florais. Depois de passar sete anos fechado, foi totalmente restaurado e reinaugurado em 2013, sendo hoje um dos principais pontos turísticos da cidade. Para os seus vendedores de peixe, hoje, no entanto, o Lisboa está longe de ser a porta de entrada dos produtos amazônicos como foi tempos atrás. “Ele é lindo, mas é atração para turista fotografar. Peixe mesmo, para vender em quantidade, só se for no mercado popular”, diz o pescador, enquanto apresenta um fotogênico tambaqui.

Muito da cultura tipicamente amazônica, no entanto, ainda pode ser encontrada entre os labirintos de ferro do antigo edifício, a exemplo da imensa variedade de frutas, ervas e extratos medicinais vendidos pela população ribeirinha. Ao seu lado, fica o Porto de Manaus, também projetado e construído por ingleses no início da década de 1900 e de onde saem diariamente centenas de embarcações para toda a bacia do Rio Amazonas e seus afluentes. Barcos de três andares chegam e partem apinhados de gente, com suas galerias coloridas por redes, e criam quase que um congestionamento fluvial no começo da manhã. Nos arredores do porto, no meio do burburinho urbano da margem do rio, é possível encontrar ainda outros exemplos da arquitetura surgida no auge econômico da cidade, como o antigo Palácio Rio Negro e o prédio da Alfândega, este último erguido todo em tijolo aparente importado da Inglaterra e considerado uma das primeiras obras pré-fabricadas do Brasil. Parte desse centro histórico ainda está em processo de restauração.

Um pouco mais acima, imponente e majestoso, está o Teatro Amazonas, que talvez seja o mais importante ícone da riqueza e do refinamento trazidos pelos barões da borracha. Além da madeira, retirada da floresta ali ao lado, todo o material utilizado na construção do teatro veio da Europa. O teto, pintado em perspectiva pelo italiano Domenico D’Angelis, as 12 mil peças de madeira nobre encaixadas sem cola e as colunas de ferro trazidas da Escócia são apenas alguns exemplos da riqueza da casa. Em estilo eclético, o teatro também é imponente em sua fachada, com destaque para a famosa cúpula composta de 36 mil peças de escamas em cerâmica esmaltada e telhas vitrificadas, vindas da Alsácia e adquiridas na Casa Koch Frères, em Paris. No final do século 19, o Jornal do Amazonas criticou o estilo da cúpula, refletindo a má aceitação popular da proposta. Na época, comparavam a cúpula a uma mesquita mulçumana. As escamas, na verdade, estilizam a bandeira brasileira e dão ao teatro a mesma função da cúpula da Ópera de Paris, assinalando a presença de uma casa de espetáculos em seu interior.


Do Porto de Manaus partem centenas de embarcações para a bacia do Rio Amazonas e seus afluentes

Além da excelência arquitetônica, o teatro mantém uma extensa e variada programação, que faz da casa de espetáculos uma referência na cultura manauara. O lugar recebe anualmente o Festival Amazonas de Ópera, que este ano homenageou óperas com mulheres em papéis importantes, a exemplo de Onheama, obra inédita destinada ao público infantojuvenil, encomendada a João Guilherme Ripper, regente e diretor da Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, e que tem como base o poema A infância de um guerreiro, do amazonense Max Carphentier.

E como quase tudo por ali veio de fora, com a maquete do teatro não poderia ser diferente. Estrategicamente localizada no final do roteiro de visitação pelo prédio, a miniatura é composta por 30 mil peças de Lego e foi produzida pela fábrica da empresa, na Dinamarca. Do lado de fora, na bonita Praça São Sebastião, o piso em mosaico revela mais um item importado. Decorado com pedras vindas de Portugal, pelo menos 10 anos antes de o Rio de Janeiro fazer o mesmo, o desenho escolhido é semelhante ao que se empregaria no calçadão de Copacabana. A justificativa para o desenho é popularmente atribuída ao encontro das águas do Rio Negro com o Solimões.


Inaugurado em 1882, o Mercado Adolpho Lisboa é inspirado no famoso Mercado de Les Halles, de Paris

NAS ÁGUAS
É no encontro desses dois gigantescos rios que Manaus parece guardar aquilo que possui de mais original. Com uma natureza extraordinária, que atrai turistas e pesquisadores, a Floresta Amazônica parece lembrar, insistentemente, a real localização geográfica da capital. Manaós, como era antigamente chamada em homenagem à tribo que os colonizadores portugueses encontraram, é uma metrópole com mais de dois milhões de habitantes, mas que jamais perdeu o seu espírito amazônico.

A cidade inteira vive sob a força e o domínio do Rio Negro, um afluente tão grande do Amazonas, que, em alguns pontos, é impossível avistar a outra margem. Diversos parques se espalham pelos arredores de Manaus e revelam a cobiçada biodiversidade dessa região do Brasil. No exato ponto onde os rios Negro e Solimões se encontram, o espetáculo cromático sempre intrigante. Por possuírem temperatura, densidade e velocidades diferentes, as águas dos dois rios não se misturam e correm lado a lado por vários quilômetros até formarem o Rio Amazonas.


O piso em mosaico na Praça São Sebastião foi executado pelo menos 10 anos antes de o Rio de Janeiro imprimir desenho semelhante no calçadão de Copacabana

No Parque Ecológico do January, um dos mais visitados, samaúmas gigantes, igapós e casas flutuantes fazem a alegria dos turistas, estrangeiros na maioria. Em quase todos os passeios, crianças se aproximam dos barcos com jacarés, preguiças e outros animais silvestres, para serem fotografadas em troca de gorjetas, embora a contribuição com a atividade seja uma forma de incentivar a retirada dos animais de seus ambientes naturais, sem que isso signifique um ganho social efetivo para as populações ribeirinhas.

Assim como no passado, quando os senhores da borracha tinham o privilégio de frequentar o Teatro Amazonas, ainda hoje é visível a situação marginal em que foram colocadas as populações locais, verdadeiras donas do patrimônio natural que subsidiou tanta opulência no passado. Consideradas orgulhosas pelos portugueses, por se negarem a servir de mão de obra escrava, as tribos indígenas que sobreviveram ao ainda em curso processo de colonização seguem na luta pela preservação da sua casa verde, a Floresta Amazônica. 

AUGUSTO PESSOA, jornalista e fotógrafo.

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