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Fenômeno: A água que cai do céu como metáfora

Nessa época em que esperamos que a chuva venha nos dar alento, depois de longas estiagens e verão massacrante, permitimo-nos divagações sobre ela, para além de sua realidade metereológica

TEXTO Camilo Soares

01 de Julho de 2014

Foto Dailly Mirror Collection/Reprodução

Interrogado sobre o sentido da chuva em seus filmes, Andrei Tarkovski refuta qualquer simbologia dos fenômenos naturais. Chuva basta-se a si mesma, como elemento primordial, tal qual terra, vento, fogo. Em seus filmes, ela materizaliza o ritmo e a densidade do tempo, compondo com seus estalos e reluzes um ambiente no qual passado, presente e futuro se unem nos percalços íntimos de seus personagens. Longe de ser um naturalista, o cineasta russo traz em sua chuva a subjetividade e o misticismo de sua relação entre arte e cosmo, embebedando sua lente de úmida e irresolúvel nostalgia. Sem dúvida, a água que do céu nos cai à cabeça não chega sem recordações, que afloram feito cheiro de terra molhada das primeiras estiagens. Não há quem não tenha uma forte lembrança em relação a dias chuvosos, que a guarde como um velho disco que teima em tocar de vez em quando, acompanhando momentos distintos da vida.

O olhar pela janela, enquadramento original do mundo antes da primeira fotografia, até mesmo do primeiro quadro, é uma pausa do fluxo da vida, momento para divagação. Talvez essa melancolia da chuva seja fruto da contemplação do mundo de fora depois de nos abrigarmos. Umberto Eco diz que os homens vivem em territórios fechados, enquanto os pássaros vivem em territórios abertos. Esse olhar para fora, pensativo, impõe certa distância entre a nuvem (índice de chuva) e a palavra (símbolo ou definição), carregando o conceito com as mais variadas relações afetivas. A chuva de Baudelaire, por exemplo, imita as grades de uma prisão, na vitória da agonia sobre o esperança (Spleen: “Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle”), mas liberta do poeta seu espírito de pássaro, mesmo que para abrir suas asas de corvo (Brumes et pluies). Também em Fernando Pessoa não serena só lá fora, mas dentro: “Ah, na minha alma sempre chove./ Há sempre escuro dentro de mim./ Se escuro, alguém dentro de mim ouve/ A chuva, como a voz de um fim...”(Chove? Nenhuma chuva cai...). A chuva lava as marcas na calçada e as desenha dentro de casa, dentro de si.

Hoje ouvi um pássaro cantar, chovia torrencialmente, e não era canto triste (aonde vão os pássaros quando chove?). Por que a chuva é necessariamente o inverso, como no título célebre de Jacques Prevert, do belo tempo? “Por favor, chuva ruim, não molhe mais o meu amor assim”, já cantamos todos. Que a tristeza e o cinza enalteçam a poesia, mas na chuva também se nasce, se cria, se ama: “Não há guarda-chuva/ contra o amor/ que mastiga e cospe como qualquer boca,/ que tritura como um desastre”, escreve João Cabral de Melo Neto, em Poema a Carlos Drummond de Andrade.

A chuva é também refúgio dos amantes, dos loucos e aventureiros, dos que querem se molhar da vida lá fora, dos que querem ser pássaros. Mesmo que esse desejo se esvaneça depois na água da solidão, nos desencontros, na chuva dos filmes de Wong Kar-Wai, no medo e pulsão dos fluxos líquidos de Bill Viola, haverá ainda o vermelho dos guarda-chuvas de Goeldi, ou o antiguarda-chuva cabralino que não segura nem dias nem cabelos.


Nas cidades, as precipitações são associadas a transtornos.
Foto: Paula Pinto/Agência Estado

REFLEXOS
No voo efêmero da vida, a água deixa no chão o brilho dos olhos, luz na matéria (aparentemente) opaca do mundo, voo-momento eterno da vida do salto captado por Cartier-Bresson, na foto Atrás da estação de trem de Saint Lazare (Paris, 1932). Por um ínfimo instante o reflexo perfeito da poça de lama não se desfaz. Desfar-se-á?

Na impermanência do tudo, tudo parece, como impertinente infração das leis da física, fazer sentido num instante: as barras baudelairianas rimam com os trilhos de trem (que são na verdade uma mera escada esquecida ao chão), que rimam com as grades no fundo, ou os arcos no chão parecem curvar-se ao salto do homem-vulto sobre a água, que se curva ele próprio diante da imagem de outro salto no sentido contrário, impressa no cartaz colado ao muro. Forma-se um círculo completo, como no relógio da estação, parado pela fotografia, ritmo perfeito que quebrará o espelho do céu em mil fragmentos num momento seguinte. Tudo observado de longe por um olhar misterioso, negativo do fotógrafo e única testemunha de uma verdade não revelada.

Reflexo nos leva longe, para além da coisas. Refletir não significa pensar, ponderar? Dias chuvosos dilatam o espaço e a alma, mesmo que a falta de luz mingue as cores e esconda o horizonte. Nos travellings de Béla Tarr, a lama está sempre lá, conduzindo-nos para além da imagem. Vindo de uma Grécia mais ensolarada do que o país do mestre húngaro, Theo Angelopoulus sempre preferiu esperar o inverno para filmar, pois é na bruma e na chuva onde ele encontra a densidade procurada em seus filmes. A desolação nesse “dia negro mais triste que a noite”, nos versos de Baudelaire, é também poesia em certas lentes inspiradas.

Para nós dos trópicos, onde a chuva marca as estações, estradas e modo de vida, sua força também se mescla às palavras. Nesse poema do poeta recifense Erickson Luna, é clara a simbiose entre momento e história, carne e lama. No livro Poesia, mesa de bar e goles decadentes – descaminhos de três poetas marginais do Recife (Nektar, 2012), descrevi essa dissolução para introduzir o poema, em texto que seria escolhido pelo Luna como posfácio de seu próprio livro Do moço e do bêbado.


Nos filmes de Andrei Tarkoviski, a chuva materializa o tempo. Foto: Divulgação.

Deixo aqui como homenagem ao blues do poeta, morto em 2007: “Os primeiros pingos caídos do céu lhe acertam a testa. Segue a chuva, forte. Dessas comuns em meados do ano no litoral de Pernambuco. E a água lava o cheiro forte de aguardente impregnado ao homem. Limpa também velhas angústias, desprendendo-as do corpo para encontrar o amparo do chão. O odor de terra molhada o leva à infância, quando pulava poças em Santo Amaro, bairro onde morava. Os olhos, agora, desfazem-se na corrente que desce sua estatura; a pele os acompanha, diluída. Rápido, o inteiro ser se tinha dissolvido sob o toró que cai, misturando-se à lama da cidade”.

“Choveu/ e há lama em Santo Amaro/ nas ruas/ nas casas/ vós contornais/ eu não/ a mim a lama não suja/ em mim há lama não suja/ eu sou a lama das chuvas/ que caem em Santo Amaro/ Vosso scotch/ pode me sujar por dentro/ cachaça não/ vosso perfume/ pode me sujar por fora/ suor nunca/ porque sou suor/ a cachaça e a lama/ das chuvas que caem/ em Santo Amaro das Salinas” (Erickson Luna, Do moço e do bêbado).

Nesse caráter eminentemente ativo da substância, entre a pureza da água e a impureza da lama, forma-se uma dialética fundamental, segundo Bachelard, da imaginação material, independentemente de sua relação quantitativa: “Basta uma gota d’água pura para purificar um oceano; uma gota d’água impura é suficiente para sujar um universo” (L’eau et les rêves, 1942). Tudo depende dos sentido moral da ação. A imaginação material vira imaginação dinâmica: a água, pura ou impura, não é apenas pensamentos como substâncias, é pensamentos como força. Nada como a realidade das cidades brasileiras, onde chuva é sinônimo de alagamentos, de caos no trânsito, perigo de morte nas encostas de morros, para designar a força entre a pureza do gostar da chuva e a impureza de sua ação devastadora.

No entanto, a moralidade não está na chuva inevitável, mas em como contemplamos e fazemos nossos espaços a cada dia. A violência não está na água, mas no mundo como vontade e representação schopenhauerianas: o mundo como minha provocação. A chuva, elemento material, torna-se um tipo de provocação, de cólera a ser derrotada. Barram-se seus caminhos, como a de um inimigo vencido. Mas ela sempre volta, para retomar seu lugar físico e psicológico, roubado por uma humanidade revoltada e conquistadora de um mundo supostamente passivo e plácido. Custe o que custar.


Na publicação O livro do Sol, de Gilvan Barreto, há o olhar que encontra outra iconografia para as representações da seca e da ânsia por água. Foto: Gilvan Barreto/Divulgação 

Mas, claro, nem sempre a abundância reina. No imaginário da chuva, sobretudo no Sertão, as estiagens prolongadas são mais fortemente representadas. Câmara Cascudo, em seu Dicionário do folclore brasileiro, descreve, em seu longo verbete sobre o tema, versos e benditos implorando chuvas. No entanto, o recurso mais eficaz consiste, segundo ele, em contrariar os santos. Para tal incumbência, faz-se uma procissão para a igreja do povoado vizinho, levando a estátua de São Sebastião da paróquia local e trazendo em troca a imagem do Senhor do Bonfim. Os santos ficariam reféns de seus milagres e não voltariam aos seus respectivos lugares enquanto não chovesse. Iconografia da seca, tão repetidamente abusada e empoeirada, parece ainda poder encontrar sinais de renovação: são motocicletas cortando o árido do romance Galileia, de Ronaldo Correia de Brito; são piscinas vazias d’O livro do sol, do fotógrafo Gilvan Barreto.

Pouca ou muita, a chuva nos acompanha, no corpo e no imaginário. Água, princípio de vida e às vezes da morte, água sem forma, que se corrige diante de novas adversidades, muda de estado em ciclo que representa a sabedoria de adaptação para algumas culturas.

Água e suas lendas, como a do carão, aprisionado na gaiola pelo matuto, para que seu canto traga as preciosas chuvas. Chora, meu carãozinho! E o bicho nem mexia. Canta, meu carãozinho! E nada. Pelo amor de Deus, canta, meu carãozinho! E o pássaro desatou sua melodia. E veio chuva, forte. Logo, a euforia. Todos saíram das casas para confirmar sobre o próprio rosto e nas palmas abertas ao céu a salvação da lavoura, do gado, da vida. Mas a chuva não cessava e, aos poucos, as pessoas foram se recolhendo debaixo de tetos, árvores e outros abrigos improvisados. Tá bom, meu carãozinho! E tome o pássaro cantar e água cair, torrencialmente. Tá bom, meu bichinho! A água ia subindo, carregando já o que estava esquecido em seu caminho. Para, meu carãozinho! Já era um pequeno dilúvio, barreiro transbordando, a lama entrando por debaixo das portas. Cala a boca, carão fi d’uma égua!

Talvez o problema foi ter privado o pássaro de seu território externo e ele não poder ir para aonde vão os pássaros quando chove, deixando-nos com nossas memórias. 

CAMILO SOARES, fotógrafo, professor e doutorando na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne.

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