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Dragão: Eternamente fascinante

Fonte de adoração na China e de medo na Europa medieval, réptil alado assume um caráter misto no mundo de hoje, no qual anima a indústria cultural como símbolo de poder

TEXTO Gilson Oliveira

01 de Abril de 2014

A história de São Jorge surgiu na Idade Média, quando a criatura tornou-se um símbolo do mal

A história de São Jorge surgiu na Idade Média, quando a criatura tornou-se um símbolo do mal

Imagem Raphael/Reprodução

Atualmente, ele já tem direito até a “estudos” na área da anatomia: “Quem nunca admirou as fabulosas viragens de um dragão em voo ou a força harmoniosa que revela em combate? (…) sua força e agilidade fora do comum devem-se a duas vantagens anatômicas: um esqueleto robusto e bem-articulado (composto por uma liga de boro e de silicato praticamente indestrutível) e uma musculatura vigorosa e versátil (feita de um tecido prateado brilhante muito denso e resistente)”, ensina o blog Dragões & Criaturas Fantásticas, um dos milhares de espaços na internet dedicados a esses mitológicos seres.

Na verdade, a presença do dragão é “monstruosa” em várias dimensões do mundo atual, inserindo-se até nas áreas da indústria e do comércio, com seu nome e sua imagem nos mais variados produtos, tão díspares como água sanitária, quimono e salgadinho. Mas é no âmbito da cultura (e da subcultura) que ela deixa mais fortemente as marcas de suas imensas pegadas, numa época em que, devido às novas tecnologias, confundem-se o real e o virtual, a realidade e o mito.

No cinema, é expressivo o número de produções que têm o monstrengo alado como protagonista ou personagem de destaque, muitas das quais com sucesso de bilheteria mil vezes maior que a colossal criatura. Caso de vários títulos da série de Harry Potter, Shrek, O Senhor dos Anéis, Eragon e Reino de fogo – este último ambientado no mundo atual.


A figura cultuada pelos chineses tem forma de serpente e não sabe voar.
Imagem: Reprodução

Disponível no YouTube, um documentário que “reconstitui” a figura da besta voadora é Dragões, uma fantasia que se torna realidade, do Discovery Channel. A ideia do vídeo surgiu depois de encontrado, no Monte Cárpatos, na Europa Central, o fóssil de um animal com as características de um dragão. O que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi uma espada cravada nos restos do animal e, ao lado, cinco corpos humanos queimados.

Outro campo onde o cuspidor de fogo tem soltado suas enormes asas é a literatura, grande fornecedora de histórias para o cinema, como em Harry Potter e O Senhor dos Anéis – baseados, respectivamente, em livros de J. K. Rowling e de J. R. R. Tolkien –, e várias outras produções, a exemplo do também já citado Eragon, inspirado em Ciclo da herança, de Christopher Paolini, e de As crônicas de Nárnia, a partir de textos de C. S. Lewis. A TV paga norte-americana entrou na onda, como mostra A guerra dos tronos (Game of thrones), com base em As crônicas de gelo e fogo, de George R. R. Martin. O último capítulo da terceira temporada da série termina com o voo ameaçador dos três “filhos” da princesa Daenerys Targaryen, que reforçarão o seu exército na batalha pelo trono, prevista para acontecer na quarta temporada, lançada mundialmente no dia 6 deste mês.

DRAGOMANIA
Para quem quiser tornar-se um grande dragonologista, boa opção é o livro Dragonologia – o livro completo dos dragões. A obra tomou como base anotações deixadas pelo pesquisador e membro da Sociedade Secreta dos Antigos, Ernest Drake, no final do século 19. Quem também teria participado de entidade que cultuava as criaturas aladas, na Transilvânia, seria Vlad Tepes, mais conhecido por um nome que significa dragão: o Conde Drácula.

A “dragomania” foi recebida com entusiasmo em várias outras áreas, como a das histórias em quadrinhos, com destaque para os mangás japoneses, e do desenho animado, em que dois exemplos famosos são Cavaleiros do Zodíaco – com episódios como O cavaleiro do dragão e A ressurreição do dragão – e Caverna do dragão. Um dado interessante sobre este último é ter feito parte, inicialmente, do primeiro jogo de RPG lançado no mundo, Dungeons & dragons, de 1974. A versão animada surgiria em 1983.


A princesa Daenerys Targaryen é “mãe” de três dragões na série Game of thrones.
Foto: Divulgação

VERDADES DO MITO
“Mitos, contos de fadas, lendas, provado está, não são historinhas fantasiosas. Estudos determinaram-lhes a íntima conexão com o psiquismo humano. São a expressão de realidades fundas da psique, suas fantasias, necessidades diversas e difusas emoções. (…) Representam uma verdade profunda da mente”, afirma Artur da Távola, no livro Comunicação é mito, acrescentando: “Expressar-se por meios simbólicos é a forma de as mentes individual e coletiva fazerem emergir ao consciente o que nelas jaz ou lateja em profundidade”.

Baseadas nas teorias do psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung, essas afirmativas do escritor e jornalista podem muito bem ser aplicadas à figura do dragão, cujo sucesso na contemporaneidade está vinculado ao fato de ser, conforme opinião de psicólogos e sociólogos, um símbolo do poder e da liberdade, coisas com as quais o ser humano sempre sonhou.

Afinal, trata-se de uma figura que se assemelha a um dinossauro, com a vantagem de ter asas e possuir um potente lança-chamas. Em um mundo constantemente ameaçado por todo tipo de perigo – assaltos, terrorismo, guerra nuclear etc. –, nada melhor do que ter a companhia de um ser tão poderoso e temido. “São Jorge, por favor, me empresta o dragão!”, diz o cantor e compositor Djavan na música Se.

Então, não é sem motivos que os dragões conseguem despertar fascínio nas pessoas, sobretudo nos jovens, que fazem questão de estampá-los em suas indeléveis tatuagens (os répteis voadores são, de acordo com profissionais da área, as imagens mais solicitadas nesse tipo de body art, por homens e mulheres).


Foi encontrada, nos EUA, ossada de dinossauro que se assemelha à cabeça de
um dragão, nomeada “dragão rei de Hogwarts”. Imagem: Divulgação

A “necessidade” de se ter um dragão no mundo da “realidade real” pode ser, talvez, mais uma das explicações para o fato de que lagartos que vivem em ilhas da Indonésia sejam conhecidos como dragão-de-komodo e o monstro de Loch Ness, na Escócia – sobre o qual existem registros datados de 1.500 anos atrás –, seja, para muitos, também mais um remanescente do terrível voador.

DADOS BIOGRÁFICOS
Presente nas culturas de todos os povos e civilizações, desde a pré-história (como atestam pinturas rupestres datadas de cerca de 40 mil anos a.C.), o mito do dragão, como o próprio animal alado, vive numa caverna, no caso, uma escura caverna do tempo, sendo, por isso, impossível identificar sua origem, embora não faltem discussões a esse respeito. Em geral, acredita-se que o mito surgiu no Paleolítico (entre 2,5 milhões de anos a.C. e 10 mil anos a.C.), quando o homem teve contato com fósseis de dinossauros.

Uma defensora dessa tese é a paleontóloga Lilian Bergqvist, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujo pensamento foi recentemente reforçado com a descoberta, nos Estados Unidos, de um crânio de dinossauro tão semelhante à cabeça de um dragão, que a espécie foi batizada como Dracorex hogwartsia, cujo significado é “dragão rei de Hogwarts”, numa referência à escola de bruxaria da série Harry Potter.

Com nome originado no grego drákon, o dragão atravessou as diversas fases da história mantendo forte presença nas mais diversas culturas, nas quais assumiu funções e simbologias diferentes, sendo visto como fonte de sabedoria e bondade e também como monstro destruidor.


Dragão-de-Komodo é uma espécie de lagarto, que vive em uma ilha da Indonésia e lembra figura mitológica. Foto: Divulgação

Foi na China que a visão positiva sobre o famoso réptil mais decolou, chegando os chineses a autodenominarem-se “filhos do dragão”. Diferente do europeu, que se assemelha a um dinossauro, o dragão chinês tem forma de serpente e não sabe voar, o que não o impediu de chegar ao céu, pois é como um ser divino que é visto no país, responsável, entre outras coisas, pela chuva e fertilidade no campo. E foi para celebrar as boas colheitas que os chineses, por volta de 200 a.C., criaram a dança do dragão. Outras homenagens à fera alada são o Festival do Dragão da Primavera e o Ano do Dragão, considerado um período de sorte e oportunidades.

Também na China nasceu o kung fu, cujas técnicas imitam movimentos do monstro voador. Um dos maiores divulgadores das artes marciais orientais no ocidente foi Bruce Lee. Nascido nos Estados Unidos e criado em Hong Kong, o lutador e ator tem a figura do mitológico réptil destacado em seus filmes, como Dragão chinês, O voo do dragão e Operação dragão.

Embora distinto do chinês, com corpo de serpente e cabeça de crocodilo, o dragão japonês, assim como o coreano, também desfruta do status de divindade, o que não impediu que ele se tornasse símbolo de uma das mais temidas organizações criminosas do mundo, a Yakuza, cujos membros possuem uma tatuagem de dragão que cobre as costas.

Na Grécia Antiga, os dragões estavam bem presentes na mitologia, enfrentando heróis como Hércules e Perseu. Já na América pré-colombiana, existem registros de que Quetzalcoatl, um dos primeiros deuses do México, era uma serpente voadora. No Peru, a mitologia da tribo Chincha assinala que Pacha Mama, deusa protetora do plantio e da colheita, era um dragão.


O dragão é símbolo do Bloco Eu Acho é Pouco, que circula em Olinda nos dias de Momo. Foto: Divulgação

As relações da Europa da Idade Média com o dragão são um capítulo à parte na biografia desse animal fabuloso. Foi neste período que ele se tornou símbolo do mal. Isso porque, em algumas culturas, o dragão tinha as formas de serpente, que foi responsável pela expulsão de Adão e Eva do Paraíso e era vista pelos cristãos como a representação do Diabo. Foi nessa época que surgiu a figura de São Jorge, que, para salvar uma donzela e uma cidade, matou um dragão. Mas, ao contar essa história, escritores cristãos a converteram num símbolo da vitória de sua religião sobre as antigas crenças e tradições de povos que traziam imagens de dragões nos estandartes de guerra e nos brasões familiares. Mensagem que ficou: para o catolicismo vencer o paganismo era necessária a morte do dragão.

BRASIL É FERA
Descoberto durante o Renascimento, período de ruptura com a cultura e a ideologia medievais, o Brasil não tem dragão na sua fauna mitológica, embora exista um ser com várias características semelhantes, o boitatá, cobra gigantesca que cospe fogo. Batizado com o nome dragão só existe no país o da inflação, que assusta mais que os monstros medievais.

Na esfera cultural, no entanto, o Brasil solta as feras, como na música popular, a exemplo da já citada Se, de Djavan; de Menino do Rio, de Caetano Veloso (“dragão tatuado no braço”); de O mestre-sala dos mares, de João Bosco e Aldir Blanc (“Há muito tempo nas águas da Guanabara/ o dragão do mar reapareceu”), homenagem ao marinheiro João Cândido e ao pescador Chico da Matilde, conhecido como “dragão do mar”, por lutar pelo abolicionismo no Ceará, onde hoje existe, também para homenageá-lo, o Centro Cultural Dragão do Mar.

Das maiores paixões brasileiras, o Carnaval e o futebol não poderiam ficar alheios ao ser mitológico. Na folia de Olinda, um personagem muito querido é o dragão do bloco Eu Acho é Pouco, em cujo ventre os carnavalescos costumam entrar. Sobre essa experiência, diz a jornalista Marcela Balbino, no site Recife Estranho: “(...) saí de lá uma nova foliã. Com energia triplicada para o restante do Carnaval”. Achando realmente pouco, o bloco criou sua versão infantil, o Eu Acho é Pouquinho, cuja alegoria é um dragão criança com chupeta. Misturando o esporte com Carnaval, a torcida do São Paulo Futebol Clube criou o Grêmio Recreativo Dragões da Real, que edita o jornal O Dragão

GILSON OLIVEIRA, jornalista e revisor do suplemento Pernambuco.

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