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Teatro do mundo inteiro

Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, idealizada por Antonio Araujo e Guilherme Marques, leva 11 espetáculos para a capital paulista, além de atividades de reflexão e crítica

TEXTO Pollyanna Diniz

01 de Março de 2014

Dirigido pelo argentino Rodrigo García, 'Gólgota Picnic' aborda questões de fé e provocou polêmicas, sobretudo na França

Dirigido pelo argentino Rodrigo García, 'Gólgota Picnic' aborda questões de fé e provocou polêmicas, sobretudo na França

Foto David Ruana/Divulgação

Os trabalhos do Teatro da Vertigem são fundamentais na historiografia do teatro brasileiro contemporâneo. Desde 1992, quando estreou Paraíso perdido, as montagens dirigidas por Antonio Araújo investigam procedimentos teatrais e se debruçam sobre problemas e temáticas coerentes com o cotidiano de uma metrópole e do homem circunscrito nesse espaço. Já Guilherme Marques, produtor, gestor cultural e ator, é o idealizador e diretor-geral do Centro Internacional de Teatro Ecum (CIT-Ecum), um dos espaços mais profícuos na atual cena paulistana. Inaugurado em 2013, o local abriga espetáculos e projetos que relacionam arte e pedagogia.

Há alguns anos, Antonio Araújo e Guilherme Marques discutem o fato de São Paulo não possuir um festival internacional de teatro. Mesmo sendo destino de muitas produções estrangeiras, inclusive por conta do apoio e do trabalho de instituições como o Sesc, a cidade não contava com uma mostra específica. “As pessoas sempre me dão motivos para isso. Dizem que São Paulo é uma cidade desagregadora, grande, de deslocamento difícil. Não discordo desses argumentos, mas, para mim, não há justificativa”, avalia Antonio Araújo. “Nós tínhamos, até os anos 1990, os festivais promovidos por Ruth Escobar, e depois ninguém assumiu essa função”, comenta Guilherme Marques. A atriz e produtora cultural realizou o 1º Festival Internacional de Teatro em 1974, quando vieram ao Brasil trabalhos de nomes como Jerzy Grotowski (1933-1999), dramaturgo, diretor e teórico polonês; e Bob Wilson, diretor americano. O último foi em 1999, dedicado à cultura cigana.

Nesse cenário, Araújo e Marques idealizaram a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, marcada para acontecer entre 8 e 16 de março. Tudo indica que será o evento de artes cênicas mais importante do ano no país, ao menos no que diz respeito ao teatro contemporâneo – mesmo que programações de relevância como a do festival Porto Alegre em Cena ainda não tenham sido divulgadas. A MITsp apresentará 11 espetáculos, todos inéditos na cidade. Apenas quatro deles – Sobre o conceito da face no filho de Deus, De repente fica tudo preto de gente, Eu não sou bonita e Gólgota picnic – já foram vistos noutros locais do Brasil. Nenhum esteve em Pernambuco.

A mostra não está vinculada a nenhum tema específico. “Não queria esse formato porque muitas vezes o tema acaba virando uma camisa de força”, explica Araújo. Ao invés disso, eram a cena e o teatro contemporâneo que interessavam. “Preferi pensar uma curadoria em rede, procurando criar diálogos entre os diferentes trabalhos. São questões e eixos que aparecem em algumas montagens. É uma curadoria polifônica”, avalia.


Espetáculo Sobre o conceito da face no filho de Deus usa pintura clássica de Antonello de Messina. Foto: Claus Lebfevre/Divulgação

FÉ E CULPA
Os espetáculos Sobre o conceito da face no filho de Deus e Gólgota picnic, por exemplo, discutem questões ligadas à fé, mas de formas bastante distintas. O primeiro, da companhia italiana Societas Raffaello Sanzio, carro-chefe da programação do Festival de Porto Alegre, no ano passado, traz para o palco uma reprodução da face de Cristo, obra renascentista criada pelo pintor italiano Antonello da Messina (1430-1479). Numa das cenas, crianças arremessam granadas de alumínio contra a imagem. Mas, segundo Paula de Renor, atriz e produtora do Janeiro de Grandes Espetáculos, é a figura de um pai que sofre de incontinência fecal que, realmente, causa o maior desconforto na plateia.

“É um espetáculo muito forte, que trata da chamada ‘culpa cristã’. Com toda paciência do mundo, o filho limpa o pai, veste, arruma. Minutos depois, o pai está todo sujo novamente. O cheiro insuportável toma conta da plateia. O pai sofre por fazer o filho passar por aquilo e o filho sofre pelo pai, mas também por se sentir culpado de não aguentar aquela situação. Quantos de nós não passamos por isso?”, comenta a produtora, que viu o espetáculo concebido e dirigido por Romeo Castellucci durante o Festival Internacional de Buenos Aires.

Gólgota picnic é uma montagem dirigida por Rodrigo García, argentino que vive na Espanha desde 1986, e tem um trabalho vinculado às artes visuais e à música. No caso de Gólgota, o cenário é composto por cerca de 25 mil pães de hambúrguer. O local de suplício de Cristo se transforma em espaço para piquenique e o elemento sagrado da ceia cristã, que simboliza o corpo de Cristo, está no palco, mas ali fazendo referência a ideias de consumo e mercantilização. A sinopse da peça também adianta que a ação inclui a “crucificação” de uma atriz. Tanto Sobre o conceito... quanto Gólgota foram alvo de polêmicas e insatisfações na Europa, especificamente na França. O site da BBC noticiou que protestos contra Gólgota estavam sendo planejados na cidade de Toulouse por fundamentalistas cristãos.

Outros dois espetáculos, entre os quais podem ser traçados paralelos, são Ubu e a Comissão da verdade, da Handspring Puppet Company, da África do Sul, e Escola, do dramaturgo e diretor chileno Guillermo Calderón, reconhecido como um dos nomes mais expressivos do teatro latino-americano. Ubu é uma releitura do texto de 1888, de Alfred Jarry, colocado em diálogo com o trabalho da Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul. Escola traz ao palco um grupo de militares de esquerda que recebe treinamento para resistir e derrubar Pinochet e a ditadura militar no Chile. “Tanto no apartheid quanto na ditadura militar estamos falando de perdas de direitos civis. De morte, de violência, de falta de liberdade. E claro que essas montagens também nos fazem lembrar a ditadura militar no Brasil, que está completando 50 anos agora em 2014”, avalia Antonio Araújo.


Peça sul-africana Ubu e a Comissão da Verdade é releitura de texto de 1888, de Alfred Jarry. Foto: Frederico Pedrotti

Se uma das críticas aos festivais espalhados pelo país é de que eles não fomentam a reflexão de maneira mais efetiva, mas apenas a circulação de espetáculos, a MITsp tem como um dos seus pilares justamente o pensamento e os diálogos construídos a partir do fazer teatral. Fernando Mencarelli, diretor e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, e Silvia Fernandes, dramaturga, professora do Departamento de Artes Cênicas da USP e uma das principais estudiosas do teatro contemporâneo no país, realizaram a curadoria de uma série de atividades intituladas Olhares críticos.

Logo depois das sessões, por exemplo, pensadores e artistas, grande parte não diretamente ligados às artes cênicas, terão o desafio de criticar os espetáculos. O escritor e religioso Frei Betto vai tratar de Escola; já Vladimir Safatle, filósofo, professor e colunista trará suas impressões sobre Ubu e a Comissão da Verdade; a psicoterapeuta, professora e crítica Suely Rolnik comentará Eu não sou bonita, solo de Angelica Liddel; e assim por diante.

Também fazem parte dessa série de ações textos escritos por um coletivo de críticos formado por profissionais de sites, blogs e revistas, que viram na internet a possibilidade da manutenção do espaço de reflexão sobre o teatro. Além de terem suas resenhas numa publicação idealizada pelo evento, os críticos participam de uma ação que envolve o Facebook, na tentativa de levar para a escritura a polifonia de sentidos que podem ser derivados de um espetáculo. “Talvez o grande mérito do MITsp não seja a circulação de espetáculos, mas o espaço de discussão, reflexão, pensamento. Tenho a impressão de que o pensamento crítico sobre teatro aqui, em São Paulo, perdeu espaço na mídia formal, mas está nas revistas de pós-graduação. Só que para um público muito especializado. Como ter ações que aproximem essa crítica do público? Queremos discutir questões como essa”, propõe Antonio Araújo. 

POLLYANNA DINIZ, jornalista, crítica de teatro e colaboradora do blog Satisfeita, Yolanda?.

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