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Maracatu: Com o agô dos orixás

Leão Coroado completa 150 anos de atividades ininterruptas neste mês de dezembro, mantendo as condutas e práticas religiosas herdadas do século 19

TEXTO ISABELLE CÂMARA
FOTOS DIEGO DI NIGLIO

01 de Dezembro de 2013

Afonso Gomes de Aguiar Filho recebeu a liderança do maracatu nação das mãos de Luiz de França

Afonso Gomes de Aguiar Filho recebeu a liderança do maracatu nação das mãos de Luiz de França

Foto Diego Di Niglio

Ele se autodenomina “zelador das tradições” do maracatu Leão Coroado. Mas, há 17 anos, é dele a missão de salvaguardar, preservar, desenvolver e renovar a cultura do mais antigo maracatu nação de Pernambuco em atividades ininterruptas, transmitindo saberes e fazeres aos cerca de 90 integrantes da agremiação – papel desempenhado pelos mestres da cultura popular.

Afonso Aguiar, 65 anos, babalorixá, assumiu a honrosa função no dia 19 de outubro de 1996, quando o mestre Luiz de França dos Santos, sacerdote do culto dos orixás e destacado membro das irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, já muito doente, percebeu que estava na hora de repassar o comando do folguedo, atividade à qual se dedicava desde 1954.

“As pessoas tendem a acreditar que o dirigente de uma organização carnavalesca é a própria organização. Mas Luiz fez uma autocrítica e, em determinado momento, talvez tenha sentido que, se ele desaparecesse, o maracatu, da forma como ele o conduzia, corria o risco de não prosseguir. Luiz criou a consciência de que o maracatu não era ele. A partir de então, passou a perseguir, com urgência, a ideia de encontrar um sucessor”, conta José Fernando Souza e Silva, pesquisador em cultura popular e membro da Comissão Pernambucana de Folclore.

A confirmação de que estava na hora de encontrar um substituto veio de maneira metafísica, mas que faz sentido na cosmologia dos cultos afro em nagô, com os quais o maracatu se mimetiza e confunde. Mestre Luiz consultou os búzios e os orixás, e Nanã, que no candomblé representa a protetora dos idosos e doentes, senhora da morte e guardiã dos portais da encarnação, avisou que era chegada a hora de Mestre Luiz.


Cauã Aguiar da Silva veste as cores de Xangô, orixá patrono
do Leão Coroado

De acordo com José Fernando, Roberto Benjamin, também pesquisador em cultura popular, autor de vários livros e artigos científicos sobre cultura afro-brasileira e ex-presidente da Comissão Pernambucana de Folclore, falecido no último dia 20/10, indicou o nome de Afonso Aguiar – ainda que este soubesse quase nada sobre maracatu e mestre Luiz não o conhecesse. A indicação foi confirmada por Xangô, “pai” de mestre Luiz, padrinho do Leão Coroado e orixá do fogo, dos raios e trovões.

Numa cerimônia realizada no sítio do Pai Adão, ou Ilé Obá Ogunté, a mais antiga casa de culto nagô de Pernambuco (fundada em 1875), a transição foi anunciada ao som do agogô e dos ilus. A posse também foi acompanhada por Roberto Benjamin, José Fernando e pelo babalorixá Manoel Papai (Manoel do Nascimento Costa).

Depois desse ritual, a residência de Afonso ganhou um novo hóspede: mestre Luiz, que, na ausência de familiares, passou a receber os cuidados de Afonso e sua esposa, Janeth de Aguiar, 63. “Eu trabalhava como serviços gerais num hospital. Quando chegava em casa, ele estava lá. Dava banho, arrumava, fazia a comida, acompanhava nos médicos”, recorda ela. “Acredito que a passagem dele lá em casa foi só pra entregar o maracatu pra gente”, sugere Janeth, que hoje atua como dama do paço e costureira do grupo. “Foram seis meses de muito aprendizado. Conversávamos dia e noite, madrugada a dentro, sobre maracatu. Ele me ensinou o baque secular, que ele aprendeu com o pai, tocando na mesa, explicou a função de cada instrumento, as toadas, repassou os segredos e a parte religiosa”, lembra Afonso.

José Fernando também fala sobre esse período: “Luiz era um portador extraordinário da religiosidade de matriz africana nagô e tinha muito forte a característica dos transmissores de conhecimentos africanos, montada numa pedagogia da oralidade. Não apenas mestre de folguedo, mas de uma teologia dos cultos afro em nagô. Luiz reconheceu que estava encontrando um sacerdote que tinha uma consistência religiosa tão grande quanto a dele e passou a ensinar a Afonso, sem abrir mão da maneira tradicional que ele tratava os saberes”. Luiz de França faleceu no dia 3 de maio de 1997, em decorrência de uma metástase, provavelmente provocada por um câncer de próstata. 

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