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O bazar de Paulo Bruscky

Artista lança duas publicações relacionadas ao seu trabalho, abre exposição de fotografias e segue em cartaz em Nova York

TEXTO Mariana Oliveira

01 de Novembro de 2013

'Noiva' é de 2002, que está na retrospectiva 'Paulo Bruscky: A arte é nossa última esperança'

'Noiva' é de 2002, que está na retrospectiva 'Paulo Bruscky: A arte é nossa última esperança'

Foto Reprodução

Em 2006, o artista Paulo Bruscky teve uma primeira publicação sobre sua produção artística. Com textos da pesquisadora Cristina Freire, Arte, arquivo e utopia foi editado e lançado pela Cepe Editora. À época, esse registro coroava a descoberta do artista que, apesar de produzir desde o final da década de 1960, havia permanecido muito tempo no ostracismo, fora dos circuitos da arte. Naquela ocasião, Bruscky tinha vendido sua primeira peça para o Itaú Cultural, sendo reconhecido pelos jovens artistas de uma cena emergente, por críticos e pesquisadores nacionais e internacionais.

Hoje, sete anos depois, existem três outras publicações lançadas sobre o seu trabalho, e suas obras fazem parte de instituições do porte do MoMa e da Tate Modern. Este mês, ele lança no Recife dois livros POIeSIS Bruscky (Cosac Naify) – uma vasta publicação que dá conta da pluralidade de seu trabalho, com análises do crítico, curador e também artista espanhol Adolfo Montejo Navas –, e Arte e multimeios (Independente/Funcultura) – que reúne vários escritos do artista, organizados pela crítica e curadora Cristiana Tejo.

POIeSIS Bruscky é uma obra volumosa e bem-cuidada (traduzida para o espanhol e acompanhada de um CD com poemas sonoros) que registra os diversos caminhos traçados pelo artista. Montejo Navas vai em busca da raiz poética “brusckiana”, apresentando o artista como um produtor de imagens, que atua quando é provocado por estímulos externos e internos. Bruscky seria um inventor cujo ateliê funciona como grande laboratório de seus experimentos. “Talvez o motivo profundo deste livro seja dar voz e relevo a essa matriz do trabalho de Paulo Bruscky, que pode ser reconhecida como poesia expandida, como geração de outras escritas. Isso equivale a registrar as várias enunciações que representam não apenas a poesia visual em sentido estrito, mas também outros trabalhos nos quais a categoria palavra-imagem-signo entra em jogo de forma substancial. Um fio sinuoso e insinuante que parece costurar todo esse universo de produção tão dessemelhante, cujo inventário de atividades pula de linguagem e registro”, escreveu o autor.

A obra registra as suas atividades nos mais diversos campos, sem categorizá-las. Ao longo dos capítulos, os trabalhos vão surgindo, encaixando-se pelas dobras e soluções gráficas, como a que reduz o tamanho das páginas para fazer uma versão fac-símile dos chamados Banco de ideias, pequenos cadernos em que o artista registrava possíveis experimentações. É interessante perceber, através da forma como o próprio livro foi produzido, o quanto a atividade artística e a vida se mesclam, sendo quase impossível determinar as limitações entre essas duas instâncias. Não à toa, sua poesia visual foi, certa vez, publicada num caderno de classificados de jornal diário.

Montejo Navas passeia por importantes referências que marcam a atuação de Bruscky. Sua ligação com o mundo e com a sua terra natal é um dos aspectos levantados. A forte vinculação com o Recife é expressa no uso da cidade como suporte e meio para suas intervenções urbanas. Por outro lado, já na década de 1970, quando começava a tomar os espaços recifenses, ele também dava seus primeiros passos na cena internacional, integrando-se ao grupo Fluxus, trocando correspondências via mail art com pessoas do mundo todo e, um pouco mais tarde, nas residências que teve oportunidade de fazer. “Pode-se dizer também que será quase paralela a sua inscrição no cenário internacional, produzindo um paradoxo artístico territorial que será mais bem-compreendido décadas depois, ou no século 21, já implantada definitivamente a sociedade da comunicação”, pontua o autor, mostrando o pioneirismo de Bruscky.


A sua próxima exposição no Recife será focada no seu trabalho em fotografia.
Foto: Reprodução

Outros pontos fundamentais na poética do artista servem como norte para a reflexão. Montejo Navas trabalha conceitos caros ao pensamento contemporâneo, tais como local e global, erudito e popular, situando a obra de Bruscky num espaço intermediário, que transita por entre todas essas discussões de forma criativa e muitas vezes bem-humorada. O autor pontua como esse jogo entre dois polos é algo que se destaca no trabalho do inventor. A oposição memória x presente é ideia fundante. Ao mesmo tempo que nos postamos diante de um artista inserido na atualidade, dialogando com as novas tecnologias, temos um grande arquivador e catalogador que há anos guarda em seu ateliê um acervo vastíssimo.

MULTIMEIOS E MOSTRAS
Arte e multimeios, também lançada em novembro, traz uma compilação de textos escritos por Bruscky. Segundo ele, boa parte desse material foi publicado originalmente no Suplemento Cultural do Diário Oficial (hoje Pernambuco), na década de 1990. “Há textos sobre xerografia e fax, por exemplo, que contam a história desses equipamentos e falam um pouco de como se dá seu uso na arte. Trago também um texto sobre a história das artes gráficas em Pernambuco”, detalha o autor. No material, há textos inéditos, como os que fazem um histórico do Festival de Inverno da Unicap e do de Garanhuns, projetos que ele ajudou a criar, e outros sobre artistas locais e internacionais. A obra, organizada pela curadora Cristiana Tejo, será ilustrada e traduzida para o inglês e espanhol.

Além dos livros, o pernambucano tem se destacado na cena internacional desde que a exposição Paulo Bruscky: art is our last hope foi inaugurada em Nova York, no fim de setembro. A retrospectiva com 150 obras, inédita no Brasil, tem curadoria de Sérgio Bessa, diretor do Bronx Museum, onde fica em cartaz até março de 2014, quando segue para outras cidades americanas até, finalmente, seguir para o México, em 2015. Essa, que é a maior exposição individual de Paulo Bruscky no âmbito internacional, garantiu elogios do New York Times e matéria na revista de arte Bomb.

Neste início de novembro, Bruscky estará em Nova York para prestigiar a mostra e participar da Performa 13 – única bienal dedicada à nova performance. Os nova-iorquinos vão poder conhecer a performance Jogo, realizada por Paulo pela primeira vez em 1971, no Recife, e depois, já recentemente, em Belo Horizonte. Nessa ação, ele coloca 22 jogadores uns contra os outros, com camisas de times aleatórios. No fim do mês, será inaugurada, na Galeria Amparo 60, no Recife, a exposição Foto/linguagem, com mais de 100 fotografias, a maioria inédita. Segundo o artista, essa é uma faceta pouco conhecida de seu trabalho, ainda que ele já tenha sido premiado na área. Com curadoria de Dária Jaremtchuk, a seleção percorre várias etapas da produção de Bruscky com imagens do início da carreira e outras mais recentes, algumas de 2013. Nos seus experimentos, há fotos analógicas, polaroides e digitais. A exposição, que ficará em cartaz até março, será registrada num catálogo. 

MARIANA OLIVEIRA, editora-assistente da revista Continente.

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