Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Pimenta: Para todos os gostos e receitas

Elemento típico das culinárias baiana e mexicana, com saborosas variações, esse fruto pode trazer benefícios à saúde, se consumido com moderação

TEXTO Gabriela Almeida

01 de Outubro de 2013

Foto Divulgação

Assim como todo tempero, a pimenta é, para a culinária, essencialmente um segredo. Por motivo claro aos que são conhecedores da arte de cozinhar, ela cai bem com tudo. Para uma massa italiana ou para uma sobremesa com chocolate e sorvete, não importa, a pimenta vai com toda comida. Sua ampla variedade, formas e cores ainda permitem sabores e aromas diversos, além de funcionar como uma ótima aliada na hora de decorar pratos.Você pode usar a pimenta-de-cheiro para aromatizar uma salada ou peixe, sem qualquer resquício de ardor; optar pela malagueta, quando for preparar a feijoada; ou usar pimentas de pouco ardor e com cores fortes para decorar um prato. A versatilidade da pimenta é tamanha, que ela ainda pode ser encontrada fora da cozinha, em cosméticos ou mesmo no ultimamente tão falado spray de pimenta.

Mas não é de hoje que esse tempero conquista admiradores em toda parte. Segundo ingrediente culinário mais consumido do mundo, ficando atrás apenas do sal, a pimenta é “sagrada” desde o tempo da medicina tibetana, aiurvédica e também na Grécia antiga, quando os alimentos eram vistos como poderosos remédios pelo pai da medicina, Hipócrates. Mais tarde, com as Grandes Navegações e os descobrimentos, a pimenta volta a figurar como raridade. Categorizada como especiaria junto a outros produtos de origem vegetal, como a canela e o cravo-da-índia, ela se tornou produto de luxo na Europa, onde não se tem clima adequado para sua produção.

Mas querer datar o primeiro contato do homem com a pimenta é uma tarefa impossível. O que se pode afirmar é que existem dois gêneros mais conhecidos, o píper e o Capsicum, sendo o primeiro utilizado no Oriente, antes de sua expansão mundial e o segundo encontrado com maior facilidade nas Américas.

Apesar de sermos grandes produtores e consumidores de pimenta, quando se fala nela, na gastronomia, é comum pensar na comida mexicana, que tem como queridinhas a chili e jalapenõ. É quase como relacionar o Brasil ao futebol, carnaval e mulatas: instantâneo. Mas outras cozinhas aderem ao uso da pimenta com gosto, como a tailandesa – na qual, mesmo quando se pede um prato usando a expressão my phet (sem pimenta), ele vem apimentado –, a culinária coreana e a turca, para dar alguns exemplos.


De origem africana, vatapá é prato apimentado típico da culinária baiana. Foto: Divulgação

Em terras canarinhas, a pimenta é regra na culinária baiana. Acarajé, vatapá, cururu e abará parecem não funcionar, se não estiverem apimentados. Comidas herdeiras da cultura africana, uma boa parte vinda da cozinha dos baianos, mas hoje comum a todos, foram adaptações dos escravos trazidos ao Brasil colonial à comida de terreiro. Com poucos recursos, eles tiveram que se moldar a alguns costumes dos seus senhores para continuar a oferecer alimento aos seus deuses. Contudo, a pimenta nunca faltou e, assim, junto com o azeite de dendê, foi considerada por Gilberto Freyre uma das maiores contribuições africanas no regime brasileiro. A presença da pimenta é tão marcante na comida de terreiro, que, entre todos os orixás, apenas Oxalá rejeita o tempero.

BENEFÍCIOS
Há quem acredite ser mais forte por conseguir mascar pimenta como quem desfruta de um doce. Mas a verdade é que “estas pessoas não são melhores que as outras, apenas têm pouca sensibilidade à pimenta. Cerca de 50% da população possui um número menor de botões gustativos por cm3 em suas línguas”, garante o médico homeopata Marcio Bontempo, no livro Pimenta e seus benefícios à saúde.

Esse mito de resistência à pimenta é acompanhado de outros. À mesa, é comum ouvir comentários de que a pimenta pode causar gastrite, hemorroida e pressão alta. Uma grande injustiça, já que ela é classificada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como alimento funcional – aqueles que fazem parte da elite dos nutrientes e “contêm também componentes de ação protetora, medicinal, terapêutica e curativa especial”.

Não existem evidências que provem que a pimenta possa causar doenças como úlceras ou distúrbios digestivos, pelo contrário, estudos científicos e farmacêuticos no mundo inteiro vêm provando os benefícios que ela proporciona à saúde. Mas, claro, devem existir limites no consumo. “A pimenta não faz mal, se utilizada em quantidades sensatas. Ao contrário do que se propaga, em vez de irritar o estômago, a pimenta protege a mucosa estomacal, além de ser rica em propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. No entanto, pessoas com problemas gastrintestinais devem consultar um médico experiente no assunto antes de consumir pimenta”, alerta Bontempo.


Versátil, a pimenta também se mostra eficaz em receitas doces. Foto: Divulgação

Por outro lado, é provado que a pimenta vermelha é uma fonte rica em nutrientes antioxidantes, principalmente as vitaminas A e C. “Apenas 30g de pimenta contêm 70mg de vitamina C, mais que 100% das necessidades diárias (RDA), bem como cerca de 70% da RDA para a vitamina A, sob a forma de betacaroteno. A pimenta tem também seis vezes mais vitamina C do que a laranja.” Ela também pode ajudar na redução de coágulos no sangue, por ser vasodilatadora; estimular a produção de endorfina no cérebro, hormônio que produz a sensação de bem-estar; e pode ser utilizada no tratamento para obesidade, já que é redutora de apetite.

Os estudos mais ousados sobre tratamentos médicos que usam substâncias presentes na pimenta apontam também para a prevenção no diabetes e câncer. Em 2002, pesquisadores da Universidade da Tasmânia, na Austrália, comprovaram, por meio de amostragem de sangue, que o consumo regular de um pimentão picante, parente próximo das pimentas, ajudou a equilibrar a insulina em 60% do grupo estudado, além de reduzir o nível de glicose e proporcionar uma menor secreção de peptídeo C (que elevado altera os níveis de glicose e de insulina). Já em Los Angeles, o doutor Akio Mori, da Universidade da Califórnia, publicou em 2006, no American Journal of Cancer Research, uma pesquisa que mostra os efeitos positivos da capsaicina (substância das pimentas vermelhas do gênero Capsicum) no combate ao câncer de próstata.

Com todos esses índices satisfatórios e valiosas propriedades, a pimenta mostra que sua exuberância visual e seu sabor marcante não são apenas truques para atrair a atenção dos comensais, mas são indícios de que vale a pena cair na sua tentação, por puro estímulo à boa saúde. 

GABRIELA ALMEIDA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

Publicidade

veja também

Pop: Como uma onda no mar

Iconografia do papel-moeda brasileiro

Aloisio Magalhães: Vida dedicada à visualidade

comentários