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Iconografia do papel-moeda brasileiro

TEXTO Hans da Nóbrega Waechter

01 de Outubro de 2013

Colagem Janio Santos

Observar as imagens das cédulas do papel-moeda brasileiro nos conduz a um passeio histórico e cultural por aproximadamente três séculos atrás. Com uma economia tradicionalmente instável, o Brasil registra muitas emissões de papel-moeda, diferentemente de outros países que produziram poucas emissões em decorrência de uma economia estabilizada.

Mesmo circulando nas mãos da maioria das pessoas todos os dias, as informações contidas nas cédulas são minimamente observadas pelos usuários. As cores das cédulas é a linguagem visual mais memorizada, porque é através dela que muitas pessoas distinguem os valores das mesmas. O seu formato é outro recurso gráfico diferenciador dos valores, mas, se perguntarmos quais são as imagens presentes, provavelmente, poucos saberão responder.

O papel-moeda, enquanto artefato gráfico, sempre apresentou propostas visuais elaboradas, indicando que houve uma coerente intervenção do design gráfico e da informação, mesmo em épocas em que o criador da proposta visual era um designer não especialista, sem formação técnica ou acadêmica, conhecendo os fundamentos da concepção do produto através da prática e da oralidade.

No que se refere às imagens, elas sempre foram, considerando a hierarquia da informação, o elemento com maior destaque na cédula; geralmente presentes nas duas faces e, em alguns casos, em grande número. A área central da cédula é o seu lugar privilegiado e, muitas vezes, a imagem usada passa a ser o nome popular dado a ela em relação ao seu valor, como no caso da cédula de mil cruzeiros com a imagem do barão do Rio Branco, que era chamada de “barão”.

As imagens começaram a ser usadas no papel-moeda na medida em que a tecnologia gráfica para a produção do mesmo evoluiu. As primeiras emissões, em torno de 1810, apresentavam poucas imagens, produzidas em clichês tipográficos, mas havia uma predominância de ornamentos. As cédulas (bilhetes) para o troco de cobre, impressas em uma só face e em forma de talão com canhoto, apresentavam como única imagem o brasão do Brasil Império e pequenas imagens produzidas em clichês.

Antes da efetivação da Casa da Moeda do Brasil como única responsável pela emissão do papel-moeda, por vários períodos, as cédulas foram impressas fora do Brasil, e as ilustrações criadas por artistas gráficos das casas americanas, francesas e inglesas não eram relacionadas às marcas culturais, históricas, geográficas, étnicas ou políticas do Brasil. As imagens eram muito semelhantes às criadas para as cédulas dos países europeus, influenciadas pela estética dos movimentos artísticos romântico e realista.

PERSONAGENS HISTÓRICOS
As ilustrações principais mais recorrentes nas cédulas do papel-moeda são as personagens da história do Brasil. Também as deusas da mitologia grega, sabedoria, justiça. Governantes, mártires, políticos, escritores, pintores e músicos. Fatos históricos, paisagens nacionais, reproduções de obras de arte, etnias e animais. Quanto às ilustrações secundárias, existe uma grande variedade de temas e, geralmente, são integradas a vários ornamentos – moirés e guilhochés – e elementos esquemáticos (brasões, fitas, arcos, listéis etc.).

A partir de 1942, inicia-se um período de emissões de muitas séries de papel-moeda, decorrentes dos altos índices de inflação, que não correspondiam aos valores presentes nas cédulas. Em 40 anos, foram cerca de oito emissões: Cruzeiro (1942/1967), Cruzeiro Novo (1967/1970), Cruzeiro (1970/1986), Cruzado (1986/1989), Cruzado Novo (1989/1990), Cruzeiro (1990/1993), Cruzeiro Real (1993/1994) e Real (1994/2013).

Dadas todas essas emissões, o número de ilustrações usadas nas cédulas ganhou em diversidade, como também na qualidade da reprodução das ilustrações, graças ao avanço da tecnologia gráfica e do design da informação, que evoluiu com o tempo, situando adequadamente a ilustração na hierarquia das informações das cédulas.

Nesse período, pinturas que registraram fatos importantes do Brasil, como “Lei Áurea”, “Grito do Ipiranga” e “Primeira Missa do Brasil” foram reproduzidas nos anversos das cédulas. Tiradentes e seu enforcamento e Santos Dumont e o 14 Bis também foram ilustrados nas notas, referendando o status das personagens que fazem a história do Brasil.

Em 1966, Aloisio Magalhães (1927-1982) vence o concurso das novas cédulas para o padrão monetário Cruzeiro e, em março de 1970, inicia-se uma nova fase de utilização de imagens no papel-moeda. As ilustrações são inseridas em medalhões e retratam desde personalidades, como Dom PedroI e II, Deodoro da Fonseca, a obras de Portinari e Aleijadinho.

Uma das emissões mais criativas entre as realizadas nas quatro últimas décadas do século passado foi a série denominada “Carta de baralho”, de autoria do designer pernambucano Aloisio Magalhães, que propiciava a mesma imagem da cédula para quem a oferecia e para quem a recebia, através do rebatimento vertical das imagens e dos valores.

As notas do padrão monetário Real, que circulam na atualidade, foram criadas em 1994 e têm como temática principal, para as ilustrações do verso das cédulas, as espécies de fauna brasileira em extinção (tartaruga-marinha, garça, arara, mico-leão-dourado, onça pintada e garoupa), em sintonia com viés da sustentabilidade. Elas chamam a atenção para um dos grandes problemas ambientais, que é o desaparecimento de vários animais em todo o mundo.

Em todas as cédulas do Real, a imagem da face principal é a efígie da República, a informação de maior tamanho, que ocupa o seu lado direito. Poucas pessoas reconhecem a imagem que representa a República e, curiosamente, as do verso têm direção de leitura vertical, diferente da frente, que é horizontal. Na mais recente emissão do Real, a partir de 2012, as imagens do verso das cédulas voltam ao sentido horizontal.

Se juntarmos em forma de bloco todas as cédulas emitidas no Brasil, de forma cronológica, teremos como resultado um livro de história do Brasil ilustrado. Tudo que mais se destacou na história da política, economia, turismo, música, literatura, artes plásticas, bem como as datas mais importantes para o país estão retratados ali. Frutos de uma economia pobre, mas rica na qualidade iconográfica, as cédulas constituem uma legítima memória brasileira. 

HANS DA NÓBREGA WAECHTER, designer, mestre e doutor em Comunicação Audiovisual, pesquisador e professor da graduação e pós-graduação em Design da UFPE.

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