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As palavras que brotam

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

01 de Agosto de 2013

Imagem Karina Freitas

Em fevereiro de 2012, quis percorrer os quilômetros que me separavam da fazenda Lajedo, onde nasci. Fiz o percurso inverso ao de quando deixei o sertão dos Inhamuns e fui morar no Crato, em 1955. Subi a serra do Araripe, atravessei Nova Olinda e Assaré, passei ao lado de Antonina e por fim cheguei a Saboeiro: o Rio Jaguaribe correndo por perto, restos de arquitetura colonial e o passado de riquezas e guerras entre famílias. Quando eu era pequeno, ouvia dos narradores populares as histórias de cavaleiros medievais e jagunços, reis e fazendeiros, princesas e donas de casa. Em 300 anos de isolamento, o mundo sertanejo inventara uma épica particular. Nela se misturavam a mitologia local e a de outros povos, leis e códigos de honra garantidos pela violência. Como no resto do mundo, tudo mudou depois da Segunda Guerra, chegaram o rádio e as indústrias, as pessoas migraram para as cidades. O campo se esvaziou, transformando-se no que é hoje: ruína e periferia.

Minha viagem tinha um motivo. Eu finalizava o romance Estive lá fora e, como em todos os livros anteriores, a memória regressou ao mundo arcaico. Os personagens se moviam no Recife urbano, mantendo um pé no sertão. Talvez temessem se perder nas incertezas da pós-modernidade. Padeço os mesmos anseios do filósofo Hermann Broch: sonho que toda grande arte pode se tornar mythos uma vez mais, representar uma vez mais a totalidade do universo. A cultura dos Inhamuns, por mais que apontasse para a desintegração do mundo e de valores, me parecia guardar os últimos resquícios de uma sociedade mítica.

O pretexto era reencontrar um apanhador de algodão e perguntar a ele quantos quilos apanhava num único dia. Feita a pergunta pragmática, sem a transcendência da que fizera o jovem Parsifal ao rei Amfortas, no Castelo do Graal, retomaria a escrita do romance. Em minha narrativa, eu referia que nos bons tempos, quando o Nordeste brasileiro era um dos maiores produtores de algodão, um homem colhia sozinho, sem a ajuda de maquinários, 90 quilos de capuchos. Mas guardava a lembrança de que Luis Ferreira, vizinho de terras do meu pai, alcançava as 12 arroubas: 180 quilos. Que importância tinha para o romance o dado numérico? Nenhuma. Parsifal perguntou a Amfortas por que ele sofria e com essa pergunta mudou a hierarquia do Castelo. Meu questionamento era raso como o chão duro sertanejo, que não se deixa perfurar.

A partir de Saboeiro, percorri os 18 quilômetros que me separavam da fazenda Lajedo, no carro de um comerciante da região. A estrada parecia ruim como no dia em que fui embora dali. A planura, o céu azul limpo de nuvens e o silêncio também pareciam os mesmos.

Luis Ferreira não estava em casa, trabalhava na roça apesar do feriado de Carnaval. Já não era homem rico, um produtor que vendia algodão às usinas de beneficiamento. A praga do bicudo arruinara os sertanejos, acabando com o sonho do ouro branco. Na sucessão de desgraças, seu pai enforcou-se e o filho de 15 anos também pôs fim à vida. Vínculos fortes o ligavam à minha mãe e ao meu pai, amizade que o tempo e a falta de convivência não conseguiram desfazer. Tinham sido vizinhos muitos anos e os laços familiares remontavam a três gerações. Numa vez em que meu pai precisou de dinheiro, fomos do Crato ao Lajedo e pedimos emprestado. Não sentíamos vergonha, os códigos sertanejos nos facultavam esse direito. Antonio Ferreira e o filho Luis nos atenderam prontamente, sem a burocracia de uma agência bancária. Quando retornei muito anos depois para liquidar a dívida, falaram que haviam esquecido o valor e que não devíamos nada.

Não via Luis Ferreira desde essa época, mas guardava a imagem do rapaz magro, alto, silencioso e trabalhador. Mandaram que eu seguisse de carro pela estrada, o roçado ficava longe, depois de um açude. Apesar dos 56 anos de transformações, das poucas vezes em que retornei ali, eu conseguia recompor cenários e paisagens.

Encontramos um sobrinho de Luis e ele quis nos guiar. Adiante, avistamos uma cerca de arame farpado, um passadouro, um resto de mata e o roçado no chão de cascalhos e pedras. No meio disso, o homem alto e magro cavava a terra e atirava sementes contadas nos buracos. Caminhei de peito aberto pelo descampado, enquanto o rapaz se escondia. Se chegássemos juntos, o tio desconfiaria quem eu era. Quando avancei até bem perto dele, o homem me encarou. Era o mesmo, apesar dos anos.

– Luis Ferreira, perguntei sem preâmbulos, você sabe quem eu sou?

– Ronaldo de Ritinha.

Ele não me vinculava ao pai, mas ao nome da mãe.

– Luis, eu vim aqui porque tinha uma pergunta a lhe fazer. Quanta arrouba de algodão você apanhava, nos bons tempos?

– 12.

E calou. Dos seus olhos esguicharam lágrimas, como dos palhaços no circo. Só que não havia mecanismo falso, nenhum truque. O homem cavando as pedras e os lajedos, plantando sementes a pulso, chorava de verdade.

Seguimos em silêncio pela estrada e até o instante de minha partida Luis não disse uma palavra. Quando entrei na camioneta para ir embora, soube o que ele remoía por dentro.

– Ronaldo, você tem filhos?

– Tenho, sim, já lhe falei de minha vida.

– Desculpe, tive um passamento, só estou voltando agora.

– Eu percebi.

E aí ele se aproximou de mim e tocou o meu braço, de um jeito que apenas os homens sertanejos sabem tocar outros homens.

– Ronaldo, me disse, Ritinha e Joãozinho fizeram bem em ir embora daqui. Se você tivesse ficado, não seria o que é hoje.

Nessa hora, a esposa que assumira um lugar dois passos atrás do marido, avançou até junto de nós e falou:

– Se tivesse ficado por aqui, sempre seria o mesmo homem. Não foi o lugar que fez ele ser o que é.

Olhei abismado o casal e segui de volta. Já tinha resposta. No sertão ainda semeiam palavras. Poucas. De preferência, nas pedras. 

RONALDO CORREIA DE BRITO, médico e escritor.

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