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Shiko

Baseado na cultura pop

TEXTO Olivia de Souza

01 de Maio de 2013

Universo underground interessa ao artista

Universo underground interessa ao artista

Imagem Divulgação

Quando criança, muito do que Francisco José de Souto Leite compreendia como arte vinha, literalmente, de duas paredes bem distintas. Eram as imagens de santos da casa de seus avós e os pôsteres de mulheres peladas da oficina mecânica de seu pai. Seu trabalho resulta exatamente da junção desses dois mundos: a exuberância estética tanto das imagens sacras quanto das pin-ups, ambas ligadas a elementos da cultura pop presentes no cotidiano suburbano.


Moça com brinco de pérola, de Vermeer, foi "atualizada"
por Shiko. Imagem: Divulgação

Os livros do “velho safado”, Charles Bukowski, a revista Animal (publicação de quadrinhos lançada nos anos 1980), o cinema, o rock’n’roll. A estética urbana sempre se fez presente no imaginário de Shiko – como é reconhecido no meio artístico –, que nasceu em Patos, alto sertão da Paraíba, em 1976. Tais referências, apesar de conectadas a um mundo até então distante dele, transpuseram as barreiras geográficas e o fizeram um artista antenado com o seu tempo.


Corpos sensuais são recorrentes em seus trabalhos. Imagem: Divulgação

“Cresci muito longe de escolas de arte e de museus, numa era pré-internet, um menino leitor de gibis e livros de bolso. Então, minhas influências sempre foram do ‘baixo clero da arte’. Capas de livro de espionagem e terror, shapes de skate e camisetas de bandas de rock, capas de discos de metal, gibis do Conan, cartazes de filmes de faroeste, tatuagens, entre outros”, comentou.


Obra em diálogo com iconografia religiosa. Imagem: Divulgação

Ilustrador, quadrinista, grafiteiro e animador de cinema. São muitos os adjetivos profissionais que se aplicam a Shiko – menos o de artista plástico, título que nega veementemente, apesar de dominar técnicas como aquarela, nanquim e acrílica. Sua arte estampa capas de discos, livros, storyboards, flyers, cartazes, quadrinhos, anúncios publicitários. Seu trabalho também tem sido visto em exposições coletivas e individuais.


Shiko cria com realismo figuras prosaicas. Imagem: Divulgação

Seu universo artístico, bastante autorreferente, contempla o erotismo, a melancolia e a solidão dos bares, música, religião, cinema. “Acho que é assim que funciona com todo mundo. A gente vê, ouve e lê um monte de coisa que, depois, decanta no fundo do juízo para bem mais tarde ser recolhido e transformado. Até hoje, os quadrinhos são a minha escola e são eles que me impõem os maiores desafios, não só estéticos, mas narrativos”, disse o paraibano, que faz parte do leque de artistas escolhidos para realizar releituras de personagens da Turma da Mônica. Atualmente, trabalha na HQ de Piteco, que deverá ser lançada ainda este ano.


Chama atenção em seu trabalho a referência ao sexo. Imagem: Divulgação

Uma das marcas registradas de seu trabalho são as provocantes mulheres sensuais e hiperrealistas, como a da pintura Da mulher e suas circunstâncias, de uma releitura erótica da personagem Olivia Palito (da HQ Popeye), e de outra, da famosa pintura Moça com brinco de pérola, do holandês Johanes Vermeer, que ganhou dreadlocks e piercings no lugar do clássico adereço.


Muitos de seus desenhos são relacionados ao campo da música.
Imagem: Divulgação

“Por que desenhar tantas mulheres? Porque as meninas são bonitas e os caras são feios. E elas têm tantos tipos de roupas, de penteados, pulseiras, colares, meias, maquiagem... É uma estética muito mais rica. E acho que, sendo homem, é natural que eu tenha prestado muito mais atenção nas meninas durante a minha vida, de modo que posso abrir um caderno e desenhar uma moça, mas também uso muita foto e, algumas vezes, desenho com modelo”, afirmou.


Olívia Palito é um dos personagens retrabalhados pelo paraibano. Imagem: Divulgação

Recentemente, Shiko foi morar em Florença (Itália) para acompanhar a esposa, que faz doutorado na cidade. O acaso acabou lhe sendo bastante conveniente, visto que o país foi berço de grandes artistas como Guido Crepax (Valentina), Tanino Liberatore e Stefano Tamburini (Ranxerox), referências diretas do quadrinista.


Aquarela aponta para domínio técnico de Shiko. Imagem: Divulgação

Com planos futuros de voltar para João Pessoa, por enquanto, Shiko sossega e produz. A distância não é problema para ele, que envia seus trabalhos por e-mail. “Ter vindo morar aqui não mudou muita coisa na engenharia do trabalho. A grande diferença é que produzo muito mais, já que não tem tantos amigos me chamando para cervejinhas, prainhas e almoços.” 

OLIVIA DE SOUZA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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