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Por um acervo permanente da música digital e analógica

TEXTO Jarmeson de Lima

01 de Maio de 2013

Imagem Karina Freitas

É inegável que o suporte digital facilitou – e muito – a vida da gente. Por conta da praticidade dos mecanismos portáteis, temos agora uma infinidade de registros, sejam eles textos, fotos, vídeos ou músicas. A música, por sinal, por ser uma manifestação artística imaterial e não palpável, precisa ser capturada em materiais palpáveis. Diferente de outras formas de arte, ela não dispõe de um aparato físico e concreto que podemos ver ou tocar. É possível reproduzir ou esboçar uma pintura através de desenhos ou de uma fotografia, e, então, poder apreciá-la indefinidamente.

No caso da música, isso é mais complicado. Você pode pegar num violino, mas ele por si só não toca música alguma. Graças à criação e à evolução do fonógrafo de Thomas Edison, dispomos de tantos mecanismos de gravação e reprodução sonora. A maior parte desses mecanismos está condicionada, entretanto, a aparelhos físicos para reproduzir a música que queremos, mesmo sendo ela códigos binários processados por computador.

No entanto, em algum momento, esse acervo que está sendo migrado lentamente para a “nuvem”, pode correr o risco de não ser mais acessado. Temos essa rede digital com bilhões de dados correndo soltos por wi-fi, cabo e satélite, mas que pode não valer nada daqui a um tempo.

Quando a Nasa nos alertou sobre o risco de uma tempestade solar e a perda temporária de comunicações, isso mostrou o quão frágil pode ser a conservação de dados digitais. E o mais grave é que isso pode acontecer sem que a gente veja de fato o que ocorreu. Afinal, a radiação é invisível aos nossos olhos e tais ocorrências podem se dar a qualquer instante. Vale lembrar que os aparelhos de raio X presentes nos aeroportos foram responsáveis por estragar o trabalho de muitos profissionais ao danificar cartões de memória e HDs.

A confiança exclusiva no digital tem esse risco. Por outro lado, a praticidade de possuir mais de 10 mil arquivos de música, fotos e filmes em um só pen drive, no lugar de 10 estantes de CDs, discos e DVDs, compensa, se você mora nos imóveis atuais, com menos de 70m². O problema é que os produtores e compositores da nova geração artística estão perdendo a vontade ou o costume de reproduzir sua música em formato “analógico”. A prensagem de CDs em tiragem industrial ainda é cara e tem um retorno incerto. Mas é importante fazer? Sim! Mesmo em escala reduzida, é necessário ter um registro físico da música desta época e em boa qualidade. Senão o breve episódio da história da música recente corre o risco de se perder.

Por mais que os artistas lancem discos diretamente na iTunes Store ou cineastas façam filmes com lançamento digital, quem garante que esse acervo ficará disponível daqui a três, oito ou 20 anos? Se o futuro das mídias e dos equipamentos que reproduzem música é incerto, quem garantirá a perenidade dos formatos MP4, MP3 ou WMA?

A TRAMA
O fato é que nossa crença no futuro – que demora a chegar – nos torna despreocupados com o legado artístico e a manutenção de um acervo que deveria ser obrigatório. Até o fim de março, a Trama Virtual era o maior repositório de músicas da cena independente do país, principalmente de bandas nascidas entre 2000 e 2010. Muitas delas nem chegaram a gravar um disco oficial, mas fizeram carreira e um relativo sucesso apenas com arquivos em MP3.

Eram 78.731 artistas e 205.381 músicas cadastradas no portal, embora não detivesse o maior acervo musical de artistas brasileiros. Outros sites e serviços, como o Palco MP3, possuem tecnologia e um número similar de artistas, mas não agregavam conteúdo ou divulgavam seus produtos como fazia a Trama, que ainda dispunha de jornalistas para produzir notícias e um programa de TV que chegou a passar algumas temporadas no canal Multishow e na TV Cultura.

Como se não bastasse esse esquema de autopromoção, o portal também criou um novo modelo de negócios que parecia ser o futuro para o problema de pagamento de artistas na internet. Através do sistema de “download remunerado”, os grupos que tivessem mais músicas baixadas poderiam ganhar dinheiro. Ou ter direito a isso, uma vez que sua remuneração mensal viria de um cálculo entre o valor total do patrocínio do portal e de outras empresas com relação aos mais acessados de acordo com o número total de downloads de maneira proporcional. No entanto, com o passar dos meses, a verba disponível foi diminuindo e, com isso, o interesse das bandas em permanecer ali. Obviamente, quem já estava por lá deixou suas músicas, mas quem tinha chegado recentemente não se empolgou em disponibilizar suas obras.

Agora, com o fim do portal, para onde foram esses registros? Se formos otimistas, podemos crer que todas as bandas que largaram suas músicas por lá mantiveram ainda seus backups e, em breve, vão disponibilizar suas obras novamente na internet, em sites semelhantes. Se formos pessimistas, teremos que catar um a um, em diferentes acervos particulares, os principais nomes dessa biblioteca virtual.

Em meio a tal contexto de incertezas, temos que louvar a iniciativa de pessoas como os norte-americanos Bob George e David Wheeler (já falecido), que criaram um museu da música contemporânea, em 1985. O ARChive of Contemporary Music (arcmusic.org) é uma coleção de fonogramas mantida de forma independente e construída através de doações do mundo inteiro, contendo atualmente mais de cinco milhões de itens, entre LPs, compactos, CDs e outros formatos de música gravados a partir de 1940.

Sua sede, em Nova York, contém todas as raridades previstas na história da música contemporânea. A ação merecia ser copiada também no Brasil, para além dos registros que existem na Biblioteca Nacional. E, num país onde a memória é precária e a preservação do patrimônio ainda pior, uma iniciativa como a Trama Virtual deveria ser tombada e guardada como um retrato do passado recente que corre o risco de se perder em meio à efemeridade da internet. 

JARMESON DE LIMA, jornalista e produtor cultural.

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