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O instinto agregador de Maurício Cavalcanti

Compositor pernambucano soma talentos de amigos e familiares para criar o conceito de seu terceiro disco autoral, 'Simples e composto'

TEXTO Marina Suassuna

01 de Maio de 2013

Maurício Cavalcanti

Maurício Cavalcanti

Foto Clara Falcão/Divulgação

Quando gravou seu primeiro projeto autoral, em 1998, o recifense Maurício Cavalcanti estava num momento de experimentação. Sem arranjos prévios ou qualquer pré-produção, o disco intitulado Nós – que passeia por diversos gêneros como frevo, baião, ciranda e maracatu – foi concebido 100% dentro do estúdio e produzido coletivamente, com participações de Claudionor Germano, Nonô Germano, Dalva Torres e diversos compositores amigos. Em 2006, o compositor e músico instrumentista voltou aos estúdios e lançou seu segundo CD, Além das fronteiras do universo, disco comemorativo aos 18 anos de parceria musical com o poeta Marcelo Varella, com produção de Zé da Flauta e direção musical de Nenéu Liberalquino.

A parceria com Zé da Flauta repetiu-se no segundo semestre de 2012, quando Maurício entrou no estúdio Udigrudi, do amigo, para gravar, de forma independente, mais um trabalho. Chamado provisoriamente de Feito em casa, o disco, encartado nesta edição da Continente, foi rebatizado de Simples e composto para melhor sintetizar o espírito com que foi elaborado. “Em cada canção, soa o trabalho simples da composição e o desafio que ser simples representa para qualquer compositor que se preze”, afirma Conrado Falbo, primo do músico e responsável pela texto de apresentação do disco.

A sugestão do título foi de Cláudio Negrão, o “faz tudo” do projeto. Amigos desde o final dos anos 1990, quando o produtor tocava no Coral Edgar Moraes, para quem Maurício escrevia canções, os dois mantiveram grande sintonia em todo o trabalho de produção. Durante o processo, Negrão, ex-integrante do Bonsucesso Samba Clube e Zé Cafofinho e suas Correntes, tendo produzido os dois CDs do último grupo, dividiu-se entre as funções de técnico de gravação, produtor, diretor musical, arranjador, editor, além da mixagem.

“O nome do disco ia ser Feito em casa, porque Maurício queria gravar na sala da casa dele. Aí eu disse que ia haver muita intervenção. Depois, ele deu a ideia de gravarmos num bar, e achei pior ainda, por causa do barulho. No estúdio, ele me perguntou como colocaria o nome do disco. Perguntei por que não se chamava Simples e composto, pois ele é simples em sua concepção e composto por causa dos arranjos, principalmente porque o disco foi ficando bastante elaborado. O que era simples virou composto”, explicou Negrão. “Para mim foi uma experiência fantástica, porque Maurício me deu a possibilidade de mostrar o meu trabalho em todas as situações. Como a gente teve muito tempo para pensar no disco, ele acabou ficando leve e orgânico. Não teve aquela coisa de chegar no estúdio e gravar de uma vez, o disco foi crescendo devagar.”

CANÇÃO POPULAR
Depois de uma pré-produção de quase um ano, Simples e composto acabou reunindo 11 composições, das quais nove são autorais. Na faixa Metade, Maurício presta uma homenagem ao seu tio Zito, autor da canção. Homenageia, ainda, seu irmão, já falecido, Hélio Ricardo, e o primo Júlio Falbo, em You’ve gotta go. “Eles compuseram essa música na década de 1970 e, por isso, o som do disco tem alguma coisa que remete a essa época”, explicou Maurício.

Observando a sonoridade do álbum, identifica-se o domínio da canção popular e seus elementos de tradição, como a voz e o violão, passeando por vários ritmos, e influências de nomes como Alceu Valença, Zé Ramalho, Jackson do Pandeiro, Geraldo Azevedo, Luiz Gonzaga, todos presentes na formação musical de Maurício.

“Neste terceiro disco, eu quis retomar a coisa da diversidade com os parceiros, o que remete ao primeiro, o Nós”. O trabalho conjunto reforça o conceito composto do álbum, que contou com a sensibilidade de compositores como Maciel Melo, Abel Menezes, Marcelo Varella e Romero Amorim.

Para completar, um profícuo time de músicos se apropriou dos arranjos, elaborados por Negrão de forma arrojada. São eles: Vinícius Sarmento (violão de sete cordas), Leo Guita (guitarras), Lucas dos Prazeres (percussão), Lito Santos (teclados), Jerimum de Olinda (percussão), Júlio Falbo (Guitarra, Marcio Silva (bateria), Fred Andrade (guitarras), Júlio César (acordeom), Deneil Laranjeira (teclados), Nilsinho Amarante (trombone), Renato Nogueira (percussão), Valdemir Silva (flauta), Bruno Cavalcanti (cavaquinho), Thiago Duarte (bateria) e Cláudio Negrão (baixo).

“Essas parcerias ocorreram da seguinte forma: eles fizeram a letra e eu musiquei. Não houve uma parceria conjunta, em que dialogamos para fazer música e letra. Eles escrevem, eu recebo e me debruço sobre a letra, até extrair a melodia”.

Há músicas como Molhando o ar e Enseada de Antunes, cujas composição e melodia são de autoria apenas de Maurício. Poeta Gentileza e Bolero jazz foram enviadas por Abel Menezes, de São Paulo, onde esteve fazendo doutorado. Parceiro de Maurício desde o primeiro disco, o compositor também tem um dedo na letra de Borboleta, que Maurício extraiu do livro Delírica dança, lançado por Abel em 1988.

“Fiquei surpreso porque Simples e composto é um disco muito bem resolvido musicalmente. Em relação ao Nós, é mais maduro em todos os sentidos, no que diz respeito aos arranjos e à voz de Maurício, que ganhou maturidade de cantor. No primeiro disco, isso não era claro, o que era normal, porque fazia parte do início. Quando ouvi o resultado, fiquei muito emocionado, principalmente porque todas as minhas letras estão sempre dialogando com a música popular brasileira”, observou Abel.

Segundo Maciel Melo, o trabalho de Maurício Cavalcanti tem sido crescente. “É um disco que você não pula de faixa para ouvir, ele vai deslizando no ouvido da gente. Isso se deve ao zelo de Maurício durante todo o processo, desde a concepção até a encadernação”, comentou o parceiro, autor de A paga e o preço e Das Dores, esta última selecionada para concorrer no Festival de Música e Arte de Garanhuns, em 2009, e interpretada na ocasião por Geraldo Maia, que também emprestou sua voz para a versão gravada no disco.

“Eu me surpreendi muito com os arranjos das minhas canções. O pessoal acha que sou forrozeiro e, por isso, põe logo uma pegada de xote nas minhas canções. Mas, na verdade, faço letra para qualquer gênero. E Maurício costuma trazer uma coisa nova para minha palavra. É sempre uma surpresa quando ele cria uma melodia para uma letra minha, porque me faz fugir do convencional, do que eu faço todo dia”, elogiou Maciel.

As participações não se esgotam por aí. Mariana e Joana Cavalcanti, filhas mais velhas de Maurício, estão no disco cantando. “É uma parceria muitíssimo especial porque elas não são cantoras. Uma é bióloga e, a outra, economista. Mas, como a gente sempre gostou de cantar juntos, eu as convidei para gravarem uma música que preferissem.”

Mariana optou por Molhando o ar, música vencedora do Festival Universitária FM, Recife, representando o estado de Pernambuco na etapa nacional, durante o 4º Festival de Música das Emissoras de Rádio Públicas Brasileiras – ARPUB. A canção ganhou um refrão em italiano na voz de Mariana em dueto com Maurício. Joana preferiu Bolero jazz.

O projeto gráfico do disco é de outra filha, Maria de Queiroga, que tem fotografias de Mari e da caçula Clara Falcão, com exceção da de capa, de autoria do próprio Maurício. “Fui pegando o talento de cada um para somar nesse Simples e composto”, atesta o músico. 

MARINA SUASSUNA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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