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Coleção Odorico e eu

TEXTO José Cláudio

01 de Maio de 2013

Rabisco feito na visita à exposição do quadrinho de Di Cavalcanti comentado nesta crônica (reprodução não consta no catálogo)

Rabisco feito na visita à exposição do quadrinho de Di Cavalcanti comentado nesta crônica (reprodução não consta no catálogo)

Imagem Reprodução

Sonhei que vivia sessenta anos atrás sem ser Pai João mas ainda rapaz na Bahia assim que entrei na exposição da coleção do pernambucano, de Timbaúba, Odorico Tavares, no Instituto Ricardo Brennand, organizado pelo meu amigo Emanoel Araújo. Parecia-me conversar com o pintor José Pancetti no Café das Meninas, esquina no centro de Salvador, onde ele me disse uma tarde que um amigo, cuja mulher dava aulas de acordeón, queria pintar alguma coisa alusiva na parede da escola. “Falei com o Mário, ele te indicou.” Será que ainda existe algum vestígio dessa garatuja na parede dessa escola num primeiro andar da Avenida Sete? Era justamente Dia da Independência e Abelardo da Hora, de passagem por Salvador, viera me procurar no atelier do escultor Mário Cravo Júnior, onde eu morava, e agora ali me fazia companhia: da varanda assistimos à parada do Sete de Setembro, Abelardo de cueca samba-canção para não melar a roupa de tinta, feita com ovo, têmpera de ovo, eu esquecera de trazer o ovo, deixei Abelardo lá assistindo à parada e saí para procurar ovo no feriado, tarefa difícil. Me lembrei também da casinha em Itapuã, naquela época um deserto, onde morava o pintor: a pequena prancheta de desenho onde, debaixo, ia acumulando as telas que despregava do suporte e jogava ali naquela tulha. Ele tinha terminado um quadro, escreveu atrás de maneira rápida “Pancetti” e o ano. Jogou debaixo da prancheta e viemos embora. A casinha era humilde mas de taco bem lustroso. Falava-se que a mulher dele, depois de lustrar o taco, forrava o piso com as telas formando uma passarela para as visitas pisarem em cima sem sujá-lo. Perguntem a José Roberto Teixeira Leite. Nessa hora não havia ninguém em casa. Não sei se a mulher já tinha deixado ele, o que, dizem, motivou o samba Pois é, “Pois é/falaram tanto/que dessa vez/a morena foi embora/Disseram que ela era a maioral/e eu é que não soube acreditar/Endeusaram a morena tanto tanto/que ela resolveu me abandonar//A maldade nessa gente é uma arte/Tanto fizeram que houve a separação/Mulher a gente encontra em toda parte/Só não encontra é a mulher que a gente tem no coração”, feito pelo seu amigo Ataulfo Alves, gravado por Carmem Costa. Ou estou misturando. Carmem Costa foi quem gravou a resposta, de autoria de Mirabeau, compositor carioca, não confundir com o escultor baiano Mirabeau Sampaio: “quem sabe a quentura da panela/é a colher/é a colher/chega o que você já sofreu/ ele vocês já conhecem/e a morena sou eu”.

Às vezes dávamos, eu e Carybé, uma parada num café embaixo do prédio d’A Tarde na Praça Castro Alves, e Carybé batia papo com Odorico, antes de seguirmos para a Caixa d’Água, Centro Carneiro Ribeiro, criado por Anísio Teixeira, que uma vez eu vi, miudinho, andar ligeiro, visitando os murais de autoria de Carybé, Mário Cravo Júnior e Jenner Augusto: trabalhei com os três (ver no meu livreco Viagem de um jovem pintor à Bahia, 1965, se é que existe algum, cap. “Garçons de andaime”). Eu ficava de parte, para não ser intrometido.

Di Cavalcanti. Tem na coleção um quadrinho de “Seu Di”, como aprendi com a empregada a chamá-lo quando trabalhei com ele no Edifício Três Leões, Av. São João, São Paulo, que é uma maravilha. Dificilmente ele se dá ao luxo de se perder completamente no meio do quadro, principalmente no centro do quadro, onde Corot disse: “Todo quadro tem que ter no centro um ponto claro”. Pois justamente aí que o quadrinho é mais confuso, figurativamente falando, obscuro, quanto à cor e sem nitidez, mas de uma riqueza pictórica que dá a medida de sua capacidade de lidar com tintas e formas, seus inesgotáveis recursos, coragem, infinita capacidade de seguir sem rumo na aventura do quadro até à exaustão, lembrando eu aqui o pintor Francisco Brennand em entrevista recente na Revista da Cultura citando Cézanne: “Não existe quadro acabado, existe quadro abandonado”. Parece que estou vendo ele dizer, eu estava ali ao seu lado junto do cavalete: “Para que me enganar? Eu não sei como terminar o quadro”. E assinou. Esses são os seus quadros geniais.

E assim ia seguindo as paredes da exposição, me lembrando mais de mim do que dos quadros ou esculturas, ou das obras e seus autores, mais em relação a mim, ou porque nos quadros, qualquer quadro, nos vemos a nós próprios. Uma cabeça em pedra sabão me transportou violentamente para o atelier de Mário Cravo, 1953, onde eu vivia, comia e dormia, quase como um orgasmo, uma síncope no tempo. Ouvi as risadas de Agnaldo me chamando “Pernambuco”, o chiado da solda de Mário Cravo soldando, segurando a máscara, até o matagal em volta, Avenida Garibaldi, onde passava o Rio Vermelho de cima. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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