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Um forte

TEXTO José Cláudio

01 de Abril de 2013

Retrato do poeta José Mário Rodrigues, José Cláudio (1990), pincel e nanquim sobre papel, 28 x 21 cm

Retrato do poeta José Mário Rodrigues, José Cláudio (1990), pincel e nanquim sobre papel, 28 x 21 cm

Imagem Reprodução

Nunca fui muito macho. Na hora do confronto, eu abria. Não propriamente por medo físico, e sendo, porque não queria ser assassinado antes de fazer o que queria: chegar a ser pintor. Era esse o “heroísmo” que me interessava. Uma vez um colega, não sei se de faculdade, Rildo Souto Maior, foi me buscar para fazer piquete ou distribuir panfleto numa fábrica. Eu pulei fora. Não seria melhor, eu disse a ele, que eu me transformasse num pintor, como Portinari, por exemplo, para melhor servir ao Partido? Ele contestou. Deu como exemplo Mao Tsé Tung, que era poeta e abandonou a poesia para servir à causa.

O sertanejo é antes de tudo um forte, um macho. Estou mais para boêmio do litoral. Minha mãe dizia, e não vai isso aqui por pilhéria, primeiro: os homens da família dela não tinha um que prestasse; segundo: homem de beira de praia não vale nada. Segundo ela, na nossa família, só as mulheres mereciam confiança. Homem, tinha de ser do sertão, embora meu pai, com quem era casada, nascido nuns mangues pro lado do Cabo, tenha sido homem de bem, exemplar. Não sei de onde lhe veio essa ideia euclidiana do sertanejo, desde que nunca teve notícia de “Os Sertões”.

Me lembrei muito desse estigma dos homens de minha família quando abandonei os estudos, já dentro da faculdade, sendo que, naquela época, por vários motivos, pouca gente chegava lá. Para ser pintor. Leia-se “vagabundo”. E tinha fama de inteligente. Tanto que Pedrinho, pedreiro, amigo de meu pai, disse: “Zezé foi que nem garapa de mé: apurou, apurou, e sumiu”. Eu até já falei disso, de eu me sentir “a garapa que sumiu”, de eu ter me volatilizado. Sempre computei isso como uma grande vitória, o meu único ato de coragem, essa queda, essa quebra de decoro. Mas daí a me considerar um macho, um forte, qualidades atribuídas ao sertanejo, tenho minhas dúvidas.

Do sertão eu não sabia nada. Em São Paulo, naquela época, década de 50, bastava dizer que era de Pernambuco ipso facto pensavam que eu era sertanejo. Logo, muito macho. Ficavam com raiva quando eu dizia que não conhecia croa-de-frade, um cacto em moda para ter num caco dentro de casa. Tinha artista nordestino que só faltava andar de gibão e chapéu de couro. Eu nunca tinha visto mandacaru quando fulora na seca nem seca nem nada disso. Para minha desgraça ainda era gorducho e, por mais que disfarçasse, não totalmente analfabeto. Ter ouvido falar de Rembrandt era demais. Não combinava. Até perguntei a Aldemir Martins que danado era croa-de-frade. Ele disse: “Você sabe. É porque não se lembra”.

Outro azar é que não era menino de engenho. Eu entrava no canavial com um caixeiro da loja de meu pai, ele armado de uma quiçé, para chupar cana. Ou para apanhar caboje na época do plantio. Também não era de praia, tendo ido a Cupe, Porto de Galinhas, em piqueniques na carroceria de caminhão. Essa vista do mar entre os coqueiros conservo na retina até hoje, tomada da carroceria do caminhão. Nascido e criado em Ipojuca, filho de dono de loja, eu era totalmente urbano, se é que se pode falar em “urbano” numa cidadezinha como Ipojuca naquela época, sem água encanada, sem uma rua calçada e luz do motor de cinco da tarde às dez da noite.

De onde terá surgido essa ideia de que pernambucano é macho? Da guerra holandesa, da batalha dos Guararapes? Das revoluções libertárias? De Luiz Pajeú? De Lampião? Me ocorreram essas ideias ao ler a crônica de José Mário Rodrigues Pequenos aquáriosJornal do Commercio, Recife, 14/02/13:

“venho de um lugar que não tem nada a ver comigo (Flores-PE). Seria muito falso dizer que amo o lugar que nasci, pois, não gosto de mato seco, caatinga, mandacaru, algaroba e leito de rio temporário (o Pajeú) que mais parece um deserto. Meu espírito não é, verdadeiramente, de sertanejo. Gosto de viver no Nordeste do litoral, onde a todo o momento, pelo reflexo da luz, o mar muda de cor. Gosto da sombra dos coqueiros, de água de coco, do som das ondas, dos arrecifes nos dando de presente uma imensidão de pequenos aquários, onde mergulho e renasço com o sol e o sal, num constante batismo de prazer. Não há muito o que contar. É assim que sou. É assim que vou.”

Amigo velho, este é um dos teus melhores poemas, inserido na despretensão de uma crônica no meio da semana. Sei não. Ganhaste aquele teu quinhão de eternidade. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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