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Oliveira Lima: Tesouro da história brasileira nos EUA

Os mais de 60 mil volumes (livros, manuscritos, panfletos, etc) que formam a maior brasiliana no exterior, estão na biblioteca que leva o nome do jornalista, historiador e diplomata pernambucano

TEXTO ANNA CAMANDUCAIA, DE NOVA YORK

01 de Abril de 2013

Em 1916, Oliveira Lima e sua esposa Flora decidiram morar nos EUA, onde ficaram até a morte dele, em 1928

Em 1916, Oliveira Lima e sua esposa Flora decidiram morar nos EUA, onde ficaram até a morte dele, em 1928

Imagem Library of Congress/EUA/Reprodução

Dentro da principal biblioteca da Universidade Católica da América, em Washington, existe uma outra biblioteca: a Oliveira Lima. Independente, como exigiu o diplomata, historiador e jornalista pernambucano Manoel de Oliveira Lima, antes de doar sua extensa coleção, em 1916. Os mais de 60 mil volumes – entre livros, manuscritos, panfletos, jornais – formam a maior brasiliana fora do Brasil. O acervo tem também pinturas, esculturas, fotografias e cartões-postais. Tudo dentro de uma linha cronológica que vai do descobrimento do Brasil, em 1500, até o fim da Primeira República, em 1930.

O que essa biblioteca tem de grandiosa, tem de discreta. Ela vive no subsolo, mas espera-se que não por muito tempo. Antes de seguir conosco para onde está guardada a coleção, o atual diretor da biblioteca, Thomas Cohen, apresenta o futuro desse acervo. É no segundo andar, onde hoje está uma sala de leitura.

“O espaço já me foi garantido. Agora, preciso conseguir os recursos para a reforma”, afirma. O projeto inicial deve ficar pronto nos próximos meses e, a partir daí, a campanha para encontrar doadores será reforçada. Cohen calcula que sejam necessários 10 milhões de dólares para colocar o plano de pé. Ele tem conversado com americanos e brasileiros e deve voltar a Pernambuco ainda neste primeiro semestre. “Nós vamos dar à coleção a casa de que ela sempre precisou”, diz.

Enquanto isso não acontece, o diretor e a curadora-assistente Maria Angela Leal organizam e preservam a coleção num conjunto de quatro salas. Maria é mais do que o título sugere. É a alma do lugar. Respira o legado de Oliveira Lima 10 horas por dia. A familiaridade é tanta, que ela cita obra por obra e, sem hesitar, vai direto ao exato ponto onde cada uma delas está guardada.

Pergunto como, no meio de tanta coisa, ela sabe onde está cada livro. Ela ri e fala: “Estou aqui há muito tempo. Nos primeiros anos, não era assim. Mas agora posso dizer que sei onde estão as joias da coleção”. E mostra o livro mais antigo, de 1507. É a primeira narração impressa sobre a viagem de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil.

A biblioteca guarda o primeiro livro impresso no Brasil, ilegalmente, em 1747 – a impressão e publicação de obras só foram permitidas pela Coroa portuguesa em 1808, com a criação da Imprensa Régia. E também o primeiro impresso em Pernambuco, em 1817, que trata da Revolução Pernambucana, último movimento revolucionário antes da Independência do Brasil em 1822.

RARIDADES
Dos livros da biblioteca, 10 mil são considerados raros. E fascinantes são as histórias por trás deles. “Este me dá até arrepio de tão fantástica que é a história”, comenta Maria. É um livro de 1722, que teria sido encontrado pelo general brasileiro Couto de Magalhães na bagagem do marechal Solano Lopez na guerra do Paraguai, em que ele foi morto. Em 1907, a obra foi parar nas mãos de Oliveira Lima – um presente dado pelo sobrinho do marechal. “O general pegou o livro do homem morto. Por anos, perguntei-me por que o marechal andava com aquele livro no meio de uma batalha. Depois descobri que, como era em guarani, servia de dicionário, de referência para que ele conseguisse se comunicar.”


Lima (4º à esquerda, 1ª fileira) e Gilberto Freyre (5º à esquerda, na 2ª fileira), no Congresso Panamericano de Jornalistas.
Foto: The Catholic University of America, Oliveira Lima Library, Washington DC

Raridades também aparecem entre as obras de arte, como as 10 aquarelas pintadas pelo engenheiro militar espanhol Francisco Requena, na Amazônia, por volta de 1780. Não se sabe ao certo quantas teriam sido feitas, mas essa dezena sobreviveu ao tempo. Segundo Maria, já serviram de base para diversos estudos. Muita gente vem atrás delas para que façam parte de exposições ao redor do mundo – sejam as originais, que já viajaram para Lisboa e São Paulo, ou reproduções, como as que estão prestes a completar uma exibição em Leticia, na Colômbia.

O busto de Dom Pedro I, feito em bronze pelo escultor francês Marc Ferrez, é um dos cinco espalhados pelo mundo. E traz uma curiosidade descoberta há menos de 10 anos, quando o Instituto Smithsonian queria a peça emprestada para uma exposição que percorreria algumas cidades americanas. “Depois de uma análise detalhada, chegaram à conclusão de que seria arriscado transportá-la, já que o busto não estava centralizado na base.” Um defeito de fabricação presente em todas as cópias.

As descobertas não param por aí. Uma paisagem do Largo do Machado, no Rio de Janeiro, inicialmente atribuída a um artista amador, acabou se revelando um autêntico Taunay – referência ao pintor francês Nicolas Antoine Taunay.

O espaço dedicado à biblioteca, hoje, está longe de ser ideal para garantir o bem-estar das obras de arte. Três panoramas do Recife de 1860, feitos pelo artista alemão Friedrich Hagedorn, que viveu no Brasil por quase 20 anos, formam, juntos, uma única paisagem. Mas ela não está completa. Um dos quadros foi retirado da parede por causa da umidade e ainda não tem data certa para voltar.

Para evitar danos a um dos mais importantes representantes do acervo, a paisagem de Pernambuco do pintor holandês Frans Post, datada de 1669, foi emprestada para a Galeria Nacional de Arte em Washington, DC., no final dos anos 1990. Antes de ser colocada à mostra, foi restaurada e teve a moldura consertada. O curador do museu Arthur Wheelock diz que existem pouquíssimas obras de Frans Post em espaços públicos nos EUA e que ter uma delas na Galeria Nacional é um verdadeiro tesouro. “Aqui, o quadro pode ser visto por milhões de pessoas.” Em 2012, o museu recebeu 4,2 milhões de visitantes.

Foi com o intuito de garantir uma moradia melhor para todas as obras que o Itamaraty tentou negociar a ida da coleção para o Brasil em, pelo menos, duas ocasiões. A última no início dos anos 2000. Não teve sucesso em nenhuma delas. O desejo de Oliveira Lima, de que sua herança literária ficasse aos cuidados da Universidade Católica da América, vem sendo respeitado. “Eu entendo que esse seja um grande pedaço de patrimônio brasileiro, mas é também um patrimônio mundial”, lembra Maria.

O COLECIONADOR
Quem foi, afinal, o incansável colecionador que deixou tantas preciosidades, principalmente sobre a trajetória do Brasil e de Portugal, mas também algumas contribuições sobre África e Ásia?

Oliveira Lima nasceu no Recife no dia 25 de dezembro de 1867. Filho de pai português e mãe pernambucana, passou a maior parte da infância e adolescência em Portugal, mas tinha uma verdadeira admiração pelo Brasil. Tanto que, quando terminou a faculdade de Letras em Lisboa, decidiu fazer carreira no Itamaraty.


Pintura de Frans Post pertencente ao acervo está emprestada à Galeria Nacional de Washington. Imagem: Cortesia National Gallery of Art

Como diplomata, viajou o mundo ao lado da mulher Flora. Morou em Lisboa, Londres, Berlim, Caracas, Tóquio, Bruxelas e Estocolmo. O interesse pela escrita começou cedo. Aos 14 anos, lançou a revista mensal Correio do Brazil. Foi a largada para os muitos artigos em jornais, como o Diario de Pernambuco, e livros que publicou pela vida afora.

Oliveira Lima escrevia ainda 15 cartas por dia. Ou melhor, ditava 15 cartas por dia para Flora escrever. A caligrafia dele era muito ruim e as pessoas reclamavam de ter que decifrar palavra por palavra. A rede de missivistas era enorme: 1.400 pessoas. Nessa relação, estavam Machado de Assis, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, José Veríssimo, Joaquim Nabuco e outros escritores da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa.

Pelo correio, também chegavam livros. Centenas, milhares deles. “Acho que as pessoas pensavam que, com ele, o livro estaria imortalizado”, diz Maria. Estavam certas. Oliveira Lima sabia muito bem o que queria, quando começou a acumular esse patrimônio cultural. “Além dos livros, ele guardava manuscritos, cardápios, passagens de trem e navio, cartões-postais, tudo que poderia ser do interesse das gerações futuras”, afirma Cohen.

Foi um longo caminho até que tudo isso desembarcasse na universidade. Primeiro, veio a decepção com o Itamaraty. Em 1913, queria se aposentar, a saúde já não ia bem. Ele achava que merecia uma promoção. Até recebeu um convite para ser embaixador em Londres, mas o Senado não aprovou a indicação. Depois de ter escrito sobre a sua simpatia por Dom Luiz de Orleans e Bragança, acusaram-no de monarquista.

O homem corpulento, portador de um vasto bigode e de uma língua solta, fez inimigos por ser muito franco. Criticava as políticas do Barão do Rio Branco e o Itamaraty em geral. Pacifista, era contra a Primeira Guerra Mundial e a favor da neutralidade do Brasil no conflito. Em 1915, Oliveira Lima atravessou o Atlântico para dar aula na universidade de Harvard por um semestre. Foi o primeiro curso de História do Brasil nos Estados Unidos. Seus desafetos fizeram chegar à Inglaterra o que ele havia escrito sobre a guerra e insinuaram que ele era pró-Alemanha. Considerado persona non grata, não podia mais pisar em Londres – justo lá que era sua base, onde ele mantinha a maior parte da sua coleção.

Em 1916, Oliveira Lima e Flora decidiram que seguiriam de vez para os Estados Unidos. Foi o amigo e vice-presidente da Universidade de Stanford, John Casper Branner, quem sugeriu que ele procurasse a Universidade Católica. “Ele mesmo havia elogiado a instituição no livro Nos Estados Unidos: impressões políticas e sociais”, lembra Maria. “Ofereceu sua coleção, pedindo em troca que a universidade fizesse o traslado das obras, divididas entre Londres, Bruxelas e Lisboa, e o nomeasse primeiro bibliotecário da Oliveira Lima.”

A chegada em Washington foi em 1920 e o que se pensava ser uma coleção de 16 mil livros, revelou-se muito maior. “Numa carta a Gilberto Freyre, disse que estava exausto só de desempacotar os livros. Um ou dois anos antes de morrer, em 1928, deu-se conta de que tinha reunido cerca de 40 mil títulos.” Essa coleção não para de surpreender até mesmo quem tem a biblioteca como sua segunda casa.

Dentro de Nos Estados Unidos está anexada uma carta a Machado de Assis. Nela, o diplomata perguntava se podia mencionar que era da Academia Brasileira de Letras, mesmo sem ter tomado posse. Apesar de ter sido eleito para ocupar a cadeira de número 39, em 1897, só foi empossado em 1903. O então presidente da ABL autorizou. O mundo de Oliveira Lima parece não ter fim. É para ser descoberto e explorado por muitas gerações. Quem tiver a chance de ir a Washington, não pode deixar de bater na porta e entrar. 

ANNA CAMANDUCAIA, jornalista, e produtora da Rede Globo (NY).

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