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Continua em cartaz: blockbuster x filme de arte

Disputa entre grandes estúdios cinematográficos e produções independentes evidencia desproporção crescente na ocupação de salas de exibição

TEXTO Fernando Vasconcelos

01 de Abril de 2013

A francesa Gaumont teve importante atuação, trazendo para o Brasil obras de cineastas europeus, como 'Querelle', de Fassbinder

A francesa Gaumont teve importante atuação, trazendo para o Brasil obras de cineastas europeus, como 'Querelle', de Fassbinder

Foto Reprodução

Em 1989, um pequeno filme americano, escrito, dirigido e realizado por um jovem e desconhecido diretor de 26 anos, Steven Soderbergh, com pouco dinheiro, conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O longa- metragem era sexo, mentiras e videoteipe (assim mesmo, em minúsculas, como uma homenagem do diretor ao poeta e. e. cummings, que assim assinava). A indústria cinematográfica americana não considerou o longa tão relevante – recebeu apenas uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. Mas logo seria reconhecido como um marco do novo cinema independente, distribuído com sucesso pela Miramax, empresa dos irmãos Robert e Harvey Weinstein, que ficariam famosos na década seguinte como produtores de filmes como Cães de aluguel (1992), O piano (1993) e Pulp fiction – tempos de violência (1994), os dois últimos também vencedores da Palma de Ouro em Cannes.

Paralelamente ao cinema dos grandes estúdios, novas pequenas produtoras disputavam espaço nos multiplexes com filmes “difíceis” para o grande público, numa época de incrível vitalidade comercial num circuito mais diversificado, marcado também pelo boom das videolocadoras, que ampliavam o interesse do mercado pelas pequenas produções. No Brasil – que viu o fechamento da Embrafilme na era Collor –, no governo seguinte, foi criada a Lei do Audiovisual e esse cenário refletiu-se na chamada Retomada do Cinema Brasileiro, tendo como referência inicial o sucesso da comédia Carlota Joaquina – princesa do Brasil (1995), de Carla Camurati. Em Pernambuco, Baile perfumado (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, também iniciava uma surpreendente retomada da produção local, com sucessos como Amarelo manga (2003), de Cláudio Assis, e Cinema, aspirinas e urubus (2005), de Marcelo Gomes.

Desde os anos 1990, os grandes estúdios americanos compraram as pequenas produtoras, certos de que obtinham lucrativo nicho. A Miramax era de propriedade da Disney, que foi diminuindo os investimentos e, enfim, anunciou o fechamento daquela subsidiada em 2010. Os irmãos Weinstein já haviam saído da empresa e fundado a The Weinstein Company, ainda forte hoje, com campanhas agressivas para as produções independentes no Oscar, como as que, por exemplo, conquistaram a vitória de O artista, em 2012. A New Line Cinema trabalhava independente desde os anos 1970 e produziu sucessos comoUma noite alucinante (1881), de Sam Raimi, A hora do pesadelo (1984), de Wes Craven, e filmes prestigiados como Garotos de programa (1991), de Gus Van Sant, Boogie nights (1997) e Magnólia (1999), ambos de Paul Thomas Anderson. Ela foi comprada pela Time Warner, em 1996, e produziu, em fusão com Warner Bros, a trilogia blockbuster O Senhor dos anéis (2001-2003).

A Polygram Films, produtora independente da companhia fonográfica homônima, foi fundada em 1980 na Inglaterra, onde produziu sucessos como Quatro casamentos e um funeral (1994), Trainspotting(1996) e Fargo (1996), este, dos diretores norte-americanos Joel e Ethan Coen. Comprada pela Universal Pictures em 1998, encerrou suas atividades no ano seguinte. O tradicional estúdio francês Gaumont criou um braço brasileiro, nos anos 1970, quando bancou a reforma do famoso espaço Belas Artes de São Paulo (que fechou as portas em 2011) e lançava no Brasil filmes como A mulher do lado (1981), de François Truffaut, e Querelle (1982), de R. W. Fassbinder. A Gaumont do Brasil encerrou suas atividades nos anos 1990 e, hoje, a produtora opera globalmente a partir da França em parcerias com outros grandes estúdios, como a Sony Pictures e a Paramount. Passando por dificuldades financeiras recentemente, teve uma excelente recuperação com o sucesso internacional de Intocáveis (2012), que é o filme francês mais visto no mundo até hoje. Na França, um terço da população assistiu ao longa nos cinemas.


Dos filmes realizados no Recife, Era uma vez eu, Verônica, está entre os que poderiam ter tido melhor distribuição. Foto: Divulgação

ENTOCADOS
No Brasil, nunca foram feitos tantos filmes pouco assistidos como hoje. Obras como O som ao redor (2012), de Kleber Mendonça Filho, uma das produções brasileiras mais aclamadas e comentadas internacionalmente nas últimas décadas, distribuído pela pequena Vitrine Filmes, conseguiu apenas um público em torno de 100 mil espectadores, lançado num circuito restrito desde o início do ano. Um sucesso, considerando as poucas cópias e salas, mas um número irrelevante considerando que uma comédia comercial como De pernas pro ar 2 foi vista por quase 4 milhões de espectadores, lançada com estrutura esmagadora em 700 salas de exibição.

Mais de 30 anos separam sexo, mentiras e videoteipe e O som ao redor, filmes irmãos em termos de produção e distribuição, considerando as diferenças dos mercados norte-americano e brasileiro. Nessas três décadas, aumentou o número de salas, o número de filmes produzidos, e a revolução digital facilitou os meios de produção e distribuição. Tudo apontava para uma relação mais saudável na briga do cinema blockbuster x filme de arte nas salas de exibição e, no entanto, consolidou-se justamente o contrário. O cinema independente encolheu nos últimos anos, no Brasil e no mundo, e nunca foi tão difícil fazer uma pequena produção ser descoberta pelo público.

O que aconteceu? Vários fatores podem ser considerados. Lá fora, a crise financeira internacional, que abala o primeiro mundo desde 2008, teve forte impacto na indústria cinematográfica, com queda alarmante nos números das bilheterias dos grandes estúdios e efeitos devastadores no cinema independente. Diminuiu o número de salas para filmes de pequeno porte, mais destinados ao público adulto, tanto nos EUA como na Europa. Com o cinema popular direcionado para o público mais jovem, as produtoras de TV encontraram um nicho de espectadores fiéis para séries e filmes mais adultos e ousados, e uma boa parte do público adulto prefere hoje o conforto do lar a sair de casa para ver blockbusters de super-heróis, fadas e gnomos.


Produção francesa Os intocáveis se manteve em cartaz por semanas, no circuito alternativo. Foto: Divulgação

Por outro lado, há uma constante e nociva concentração de mercado, com controle massivo das grandes empresas produtoras e distribuidoras que, de forma paradoxal, diminuem cada vez mais a variedade de títulos nos cinemas, privilegiando os grandes lançamentos com uma quantidade cada vez maior de cópias, com incontáveis salas exibindo os mesmos filmes. Isso, facilitado pela exibição digital, que elimina a complexa logística de reprodução de cópias em suporte material (celuloide). Uma ironia, já que era previsto que a exibição digital abriria as portas para um ambiente mais plural.

Aqui, no Brasil, esse domínio de mercado hoje tem seu melhor exemplo na Globo Filmes, que padronizou uma linha de montagem de cinebiografias populares e comédias de estética televisiva que, apoiada por marketing e propaganda da própria rede de TV, arrastam grandes plateias não para assistir, mas para consumir filmes semelhantes em forma e conteúdo durante o ano inteiro, já adaptados a concorrer de igual para igual com a outra parcela de filmes, também padronizados, que dominam o grande circuito comercial, os americanos.

Alguns dos melhores filmes brasileiros recentes simplesmente não encontraram seu público, vítimas dessa segregação. Os novos filmes dos pernambucanos Cláudio Assis e Marcelo Gomes, A febre do ratoEra uma vez eu, Verônica, embora com bom destaque na mídia, receberam distribuição e público menor que os filmes dos citados diretores pernambucanos, lançados uma década atrás.

REAÇÕES, DISSIDÊNCIAS
Ainda há sinais animadores no setor, existe uma geração que assumiu um estimulante espírito de “novo cinema de guerrilha”, para tentar furar o cerco aos independentes. O Som ao redor é um ótimo exemplo. Dentro do limite financeiro para sua distribuição e divulgação, o filme consegue ser visto nos cinemas, trabalhando com divulgação nas redes sociais, em especial no Facebook, onde temfan page, e é também um sucesso no formato digital iTunes, oferecido agora pela internet para download ou exibição online em qualquer lugar do mundo, enquanto continua em exibição em salas das capitais brasileiras e em várias cidades pelo mundo.


Autor de obras “difícieis”, David Lynch declarou sua aposentadoria da direção, desmotivado pelo mercado. Foto: Divulgação

Mas, de uma forma geral, há bastante pessimismo quanto ao cerco cada vez mais forte à chegada do cinema independente ao público. A nova cinefilia migrou para o mercado oficial e pirata de filmes digitalizados e baixados da internet. Em 2009, o cineasta alemão Wim Wenders comentou que um trabalho como Asas do desejo (1987), realizado fora do padrão industrial, a partir de um roteiro livre e improvisado, talvez não conseguisse ser financiado e produzido. E questionava: mesmo se conseguisse filmar Asas do desejo agora, haveria público para assisti-lo?

David Lynch, diretor de obras aclamadas, mas pouco comerciais, como O homem elefante (1980), Veludo azul (1986) e Cidade dos sonhos (2001), todos indicados ao Oscar de melhor direção, eCoração selvagem (1990), vencedor da Palma de Ouro em Cannes, realizou obras cada vez mais “difíceis” e não encontra mais público nem quem produza seus filmes. Aos 62 anos, em 2008, declarou encerrada sua carreira nos cinemas e hoje escreve livros e corre o mundo dando palestras e seminários sobre cinema, meditação e outros temas.

Steven Soderbergh, que, involuntariamente, começou essa onda de sucesso do cinema independente na virada dos anos 1990, seguiu carreira profícua de diretor e produtor, realizando sucessos e fracassos, indo de filmes mais comerciais (Erin BrockovichTraffic, a trilogia Onze homens e um segredoMagic Mike) a projetos quase experimentais aos quais pouca gente assistiu (KafkaFull frontalBubble) e, aos 50 anos, também anuncia sua aposentadoria em filmes para cinema, pretendendo dedicar-se ao teatro e às artes plásticas, além de um projeto de um livro sobre cinema. Coincidência ou não, a saída de cena desses grandes nomes do cinema independente aponta para o final de um ciclo desse mercado, esmagado pela padronização global atual que reduziu drasticamente o espaço no circuito exibidor para filmes “fora da curva”. Em 2008, 10% do circuito nacional era formado por salas com programação alternativa. Esse número hoje está em torno de 5%, e os chamados “filmes de arte” dividem pequenas salas, com poucas sessões, muitas vezes com apenas uma exibição diária. É um cenário desanimador para os espectadores cinéfilos. E ainda não se vislumbram sinais de mudanças positivas para os próximos anos. 

FERNANDO VASCONCELOS, Crítico de cinema, editor do site Kinemail e blogueiro.

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