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Açúcar: Um comércio meio amargo

Obra revela, a partir de documentos, os bastidores da cadeia de produção e venda do produto que é peça fundamental para se compreender o Nordeste

TEXTO Isabelle Barros

01 de Fevereiro de 2013

A casa-grande dos primeiros engenhos copia as casas de fazenda e de produção de trigo de Portugal

A casa-grande dos primeiros engenhos copia as casas de fazenda e de produção de trigo de Portugal

Foto Reprodução

Em Formação do Brasil contemporâneo, uma das obras mais influentes da historiografia nacional, Caio Prado Júnior cravou uma frase que sintetiza o início da colonização portuguesa nas Américas: “O Brasil é um dom do açúcar”. O sociólogo Gilberto Freyre, por sua vez, chegou a afirmar, em seu livro Açúcar, que, sem a especiaria, “não se compreende o homem do Nordeste”. Afinal, o doce foi um dos grandes responsáveis por forjar a ocupação do território nacional, a partir do sucesso do cultivo da cana, principalmente nos atuais estados da Bahia e de Pernambuco.

Pela própria importância do período colonial, como momento crítico da formação econômica e social do país, foram muitos os autores, além de Freyre e Prado Júnior, que escreveram a respeito do que se convencionou chamar de “civilização do açúcar”. Essa seara é explorada, com um enfoque próprio, no recém-lançado O comércio do açúcar – Brasil, Portugal e Países Baixos (1595-1630), do pesquisador brasileiro Daniel Strum, mestre e doutor em História pela Universidade Hebraica de Jerusalém. O projeto que deu origem ao livro foi o vencedor do 8º Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica Clarival do Prado Valladares e consumiu um ano e meio de trabalho, além de pesquisas em arquivos e coleções particulares de 17 países.

A intenção da obra é revelar, a partir de documentos notariais, contábeis, governamentais e inquisitoriais, quais dificuldades havia em manter a cadeia de produção e venda do açúcar e que estratégias eram usadas para superar esses obstáculos. Afinal, era uma mercadoria frágil, embarcada de um lugar remoto, como era o Brasil, e transportada pelo Oceano Atlântico infestado de piratas, envolvendo também terras inimigas e comerciantes de diferentes religiões – católicos, judeus e protestantes. Na época coberta pelo livro, havia um ponto importante a ser considerado: a União Ibérica. Entre 1580 e 1640, Portugal e Espanha, por meio de laços de sangue entre suas famílias reais, foram governados de forma conjunta. Da mesma forma, a Holanda fazia parte dos domínios espanhóis e desejava mais autonomia, o que adicionava tensões cada vez maiores ao comércio intercontinental de açúcar.

O conteúdo da publicação está dividido em quatro blocos: enquanto o primeiro deles mostra o contexto político-militar da época, a produção e o consumo do açúcar, o segundo versa sobre a navegação e o transporte marítimo do produto. O terceiro, a seu turno, diz respeito ao aspecto financeiro do comércio e o último enfoca as relações de confiança entre os mercadores. Segundo o autor, foi em um período curto, de 35 anos, que a compra e a venda de açúcar se consolidaram como operações financeiras verdadeiramente mundiais, séculos antes que o conceito de globalização ganhasse corpo. A partir de 1595, a cidade de Amsterdã, na Holanda, teria substituído Antuérpia, na Bélgica, como a principal distribuidora do “ouro branco” no Norte da Europa, posto mantido ao menos até 1630, quando a conquista de Pernambuco pelos holandeses transformaria dramaticamente a estrutura desse comércio.


Os engenhos baianos estavam próximos ao mar e à beira de rios, facilitando o comércio. Foto: Reprodução

MASSAPÊ
Na Bahia e em Pernambuco, as condições ideais para o cultivo da cana converteram uma região, antes inexplorada, em tesouro da Coroa ibérica. O clima úmido e a fertilidade do solo massapê, aliados à atração de investimentos externos e ao povoamento do litoral brasileiro fizeram dessas duas regiões as mais pródigas em engenhos. De acordo com o historiador norte-americano Stuart Schwartz, citado no livro de Daniel Strum, havia, em 1629, 346 engenhos no Brasil. Desses, 150 estavam em terras pernambucanas e 80, sob domínio baiano.

Inicialmente, a casa-grande dos primeiros engenhos copia as casas de fazenda e as casas de produção de trigo de Portugal. “Mas há uma mudança importante: ao redor das construções, foi criado um grande terraço, que servia para equilibrar a temperatura acentuada da parte externa com a parte interna, feita de paredes grossas”, explica o arquiteto José Luiz Mota Menezes, que participou da produção do livro de Strum, fornecendo os cartogramas, ou mapas, relacionados a Pernambuco e à Bahia da virada do século 16 para o 17.

As duas localidades tinham condições de produção muito semelhantes, utilizando extensas porções de terra e submetendo contingentes cada vez maiores de mão de obra indígena e negra, a ponto de um ditado corrente naquele tempo assinalar que “sem Angola não há escravos, sem escravos não há açúcar, e sem açúcar não há Brasil”. No entanto, a logística de envio à Europa era um pouco diferente. Os engenhos baianos estavam concentrados no Recôncavo Baiano, próximos ao mar e à beira de rios, e enviavam o açúcar diretamente pela Baía de Todos os Santos, à parte baixa de Salvador, onde se localizava o porto da primeira capital do Brasil.


Instrumentos utilizados nos engenhos de açúcar. Foto: Reprodução

Em Pernambuco, porém, a situação era um pouco mais complexa. Strum assinala que “Pernambuco não tinha a divisão tão simples entre Cidade Alta e Baixa, como Salvador. A primeira corresponderia ao cimo da vila de Olinda, enquanto a segunda era dividida entre o Recife e o Bairro da Ribeira, em Olinda”. O autor acrescenta que as ladeiras eram um desafio “e, geralmente, o açúcar, trazido por via aquática, ficava na parte baixa ou, em alguns casos, quiçá, embarcado diretamente. Já os produtos importados e os comercializados localmente iam à Cidade Alta em Salvador e à Ribeira, em Olinda”.

A relação entre essas praças mais importantes, no entanto, não era exatamente harmoniosa, aponta o pesquisador. “Salvador era a capital administrativa, eclesiástica e judicial. A criação de uma corte de apelação, o Tribunal da Relação, em Salvador, gerou tensões. Os pernambucanos preferiam se submeter diretamente a Lisboa. No entanto, as outras capitanias próximas a Pernambuco, como a Paraíba, também se viam eclipsadas pela vizinha. Na prática, estavam dentro da área de influência da praça de Olinda.”

DO BRASIL À EUROPA
Uma vez no Oceano Atlântico, os navios ainda tinham que passar por outros percalços. Strum ressalva que “o transporte de cabotagem sofria mais com as ‘monções’, ou estações do ano, que a navegação oceânica”. Mas, quanto mais próximo da Europa, maior era o risco do aparecimento de corsários, fossem eles muçulmanos do Norte da África, ingleses, holandeses e calvinistas franceses, ou huguenotes. Para diminuir os riscos, eram contratados seguros, ou a carga era distribuída em várias embarcações. Para contornar o clima belicoso entre a União Ibérica e a Holanda, cargas eram embarcadas em navios de bandeiras neutras, ou por embarcações holandesas que camuflavam suas atividades ao usar bandeiras de outros países, mesmo com o risco de serem pegos.


Daniel Strum pesquisou em arquivos e coleções particulares de 17 países. Foto: Reprodução

O que o livro aponta de novidade na análise dessa rota é o papel da cidade do Porto, no norte português, como praça intermediária entre o comércio com a Holanda, em vez de Lisboa, a capital. Uma das razões é geográfica: a região ficava a um terço do caminho de Amsterdã e a dois terços do caminho do Brasil. Os tripulantes dos navios poderiam, assim, reabastecer suas embarcações com água e comida frescas.

A localidade também tinha uma demanda de produtos norte-europeus, manufaturados, muito maior que a colônia, mas havia muito pouco a oferecer em troca, pois apresentava solo montanhoso e pedregoso, dificultando a produção de cereais. Para atrair mercadorias estrangeiras, seus comerciantes aceitavam uma lucratividade menor no comércio do açúcar, mas ao menos tinham a garantia de um item valorizado para revender. Ao mesmo tempo em que vários carregamentos de açúcar eram encaminhados para o norte, parte da carga vinda da colônia também poderia ser redistribuída para os mercados do sul da Europa.

Embora a cana fosse originária do sudeste asiático e o açúcar, consumido na Europa desde o Império Romano, mesmo em pequenas quantidades, foi apenas com o ganho de escala conseguido pelo produto brasileiro que pratos doces saíram da exclusividade das mesas reais. O produto saiu das mãos de confeiteiros renomados para os tabuleiros de humildes doceiras, de onde foi parar em confeitos e conservas de frutas, formando uma nova classe profissional.


Detalhe de decoração de engenho no Recôncavo Baiano.
Foto: Reprodução

DOCE NEGÓCIO
A princípio, qualquer um poderia se aventurar no comércio do açúcar, como efetivamente aconteceu a pessoas de capital, reputação e experiências diversas. “Podia-se atuar como mercador residente, ou viajante, por conta própria ou como agente de outrem, ou uma combinação dessas alternativas”, afirma Strum. Contudo, os grandes mercadores residentes tinham maior patrimônio e credibilidade que os comerciantes e agentes itinerantes. “No entanto, a concorrência tornava o mercado competitivo, reduzindo as margens de lucro.”

A sociedade mercantil desse tempo já utilizava operações financeiras de maior sofisticação, como letras de câmbio, mas ainda havia um mercado ativo de troca de mercadorias, e o açúcar foi envolvido nessas transações como meio de pagamento. Foi uma solução encontrada pelos mercadores para não ficar no prejuízo em uma época na qual havia restrições religiosas, morais e legais à cobrança de juros e a pagamentos que não fossem à vista.

O comércio dessa especiaria também foi a forma que os judeus portugueses e cristãos-novos encontraram para prosperar em Portugal. “Essa parcela da sociedade também vivia em estado de alerta, pois era permanentemente vista com suspeita perante a Inquisição, e estava sujeita à prisão e ao sequestro de seus bens.” Sua ascensão social por meio do ingresso à alta burocracia e à baixa nobreza era limitada por uma série de normas, os Estatutos de pureza de sangue, nos quais se adequavam apenas os cristãos-velhos, católicos há pelo menos quatro gerações. O açúcar, assim, marcou a história de quatro continentes: a Ásia, de onde surgiu; a África, de onde foi arrancada a maior parte da mão de obra empregada em sua produção; a América, onde foi cultivado em dimensões nunca antes vistas e, por fim, a Europa, onde adoçou a vida de todas as classes sociais. 

ISABELLE BARROS, jornalista freelancer e mestranda em Comunicação pela UFPE.

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