Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

A “bela natureza”

TEXTO José Cláudio

01 de Fevereiro de 2013

José de Barros Andrade Lima (Recife, 1943-94), 'Dois Irmãos' (Fernando de Noronha), acrílico sobre eucatex, 85 x 170 cm, 1992

José de Barros Andrade Lima (Recife, 1943-94), 'Dois Irmãos' (Fernando de Noronha), acrílico sobre eucatex, 85 x 170 cm, 1992

Imagem Reprodução

O quadro tem seu querer, suas ideias próprias, sua atmosfera que não a mesma que se encontra na natureza. A própria natureza, esteticamente, é o reflexo do que nos vai n’alma, a maneira de ver de cada um. Daí, creio eu, a “bela natureza” de que fala o abade Charles Batteux (1713-1780, comemorando-se pois o tri-centenário de nascimento) no seu livro As belas-artes reduzidas a um mesmo princípio. Ultimamente eu tenho lido umas obras de alto nível, acredite se quiser, e este é um dentre muitos volumes, todos magníficos, que me foram presenteados pela amiga ilustre Cecília Scharlach, editados pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

O quadro tem uma segunda natureza que vem da hora do pintor mais do que a do relógio e o pintor é um enquanto pinta e outro quando espectador de sua própria pintura. Gauguin disse: “Olha a natureza; mas fecha a cortina e pinta teu quadro”. Mesmo com a fotografia na mão – e desde Courbet os pintores pintam por fotografia bem antes da fotografia em cores, Delacroix chegando a montar cenários e personagens à imitação dos seus quadros – ou diante do modelo paisagem, gente, bicho, natureza-morta, o que os olhos vêem o coração sente diferentemente, se é que a mão consegue segui-lo.

O olho. Certa vez Carybé disse que queria viver mesmo que fosse somente um olho pendurado num prego na parede ali da sala (estávamos, eu e ele somente, na sala da frente do sobrado do espanhol Jesus – sobrado de dois andares além do térreo, Carybé morando no primeiro e Jesus no segundo, sendo a entrada para o primeiro independente, pelo Largo de Sant’Ana, no Rio Vermelho, Salvador, perdoai-me o devaneio, e das seis janelas da frente e outras tantas de lado se via o mar e a igrejinha meio troncha no meio da praça – e na verdade o que ele disse mesmo foi “nem que fosse um olho pendurado ali naquele prego”, disse apontando para um prego na parede). Mesmo aquele olho, sem pé, sem braço e sem mão nem cérebro nem coração, veria, ou melhor selecionaria do que via, determinados objetos, os objetos do desejo: uns, objetos, se o olho fosse de Carybé; outros, se o olho fosse de outra pessoa.

Todo mundo sabe que se botarem dez pintores diante da mesma paisagem ou uma cena qualquer sairão dez quadros diferentes, como feito aqui no Recife, pintores daqui, levados para pintar Fernando de Noronha, quadros que lembro sempre pois ornam as paredes da CEPE, Companhia Editora de Pernambuco, que edita esta Revista Continente: ai que saudades de José de Barros, extraordinário pintor, e que morreu tão moço!

Houve época em que a referência era a natureza? Mas qual natureza? As ruas com seus sinais de tráfego, as listas no asfalto e mil outras sinalizações, fios e edifícios como nos quadros de Maurício Arraes sem esquecer embora a figura humana no meio desses artefatos, ou os dendezeiros de Telles Júnior, os coqueiros de Mário Nunes, os quadros das batalhas no coro da Conceição dos Militares, do Museu do Estado, do Instituto Arqueológico, ou uma quartinha pintada por Vicente do Rego Monteiro ou uma bage de ingá pintada por qualquer um de nós, ou os ex-votos do Museu de Igarassu, ou os quadros de Matisse, Picasso, as colagens de Kurt Schwitters? Se ninguém aprende pintura olhando pela janela mas com os pintores, os pintores locais ou nacionais cada vez perdem mais terreno para os que invadem o nosso olho vindos do mundo todo.

Outro dia, aqui no Recife, numa loja de materiais de pintura, uma senhora comprava telas. De bom tamanho. Perguntei se era pintora, ela disse que sim. E também ensinava. “Quais os temas mais vendáveis?” Respondeu: “Abstrato. Antes, me pediam muito vistas do Recife, Rua da Aurora, Pátio de São Pedro, praia com coqueiro. Mas isso cansou.”

Segundo o apresentador Marco Aurélio Werle do livro As belas-artes..., Diderot no Tratado sobre o belo, de 1752, diz que “o senhor Abade Batteux lembra todos os princípios das belas-artes à imitação da bela natureza; mas não nos ensina de nenhum modo o que é a bela natureza”.

Talvez fosse isso que eu queria saber quando me dirigi à senhora que comprava telas na loja de materiais de pintura. E está cada dia mais difícil, amigo Diderot. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

Publicidade

veja também

Clarice, um suvenir virtual

Ainda temos muito o que extrair do anarquismo

Camilo Cavalcante: O Sertão como território da alma

comentários