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Javier Marías: Homenagem generosa ao leitor

'Os enamoramentos', novo romance do autor espanhol, coloca em protagonismo aquele que lê, sugerindo-lhe a possibilidade de reparar, desconfiar e recriar

TEXTO Schneider Carpeggiani

01 de Janeiro de 2013

Imagem Karina Freitas

A edição brasileira de Os enamoramentos, do escritor espanhol Javier Marías, conta com um brinde que, olhado bem de perto, pode ser uma arapuca: chega às livrarias acoplada à O coronel Chabert, novela pouco conhecida de Balzac, que reconstrói o mito do herói esquecido em batalha, que peca justamente por jamais esquecer nada. Chabert é o único detentor da memória de uma vida a não mais fazer qualquer sentido. Quando todos já o deram por morto, erguendo nova existência e grossas camadas protetoras contra o passado, ele retorna sem se reconhecer anacrônico.

O descompasso entre quem substitui e quem é substituído é uma das engrenagens do drama humano. Os personagens de Marías se debruçam sobre O coronel Chabert para compreender o xadrez emocional das suas próprias vidas. Procuram em Balzac, se não uma intervenção divina, ao menos, a solução enviesada que a literatura costuma nos ofertar. Com os dois livros em mãos, podemos armar um sem-fim de elucubrações, traçar paralelos, erguer teorias conspiratórias de metanarrativa e, assim, cair na tal arapuca de acreditar num óbvio coral entre os dois autores. Apesar dos enormes indícios, esqueça Balzac. A questão aqui é Marías, e o jogo de pistas falsas que marca o trabalho de um mestre.

Há uns três ou quatro anos, dedico-me a ler tudo o que encontro de Marías. Mas, a cada novo livro, volto a perceber o quanto as primeiras leituras são falhas e insuficientes em se tratando da sua obra. É preciso questioná-lo, duvidar dos seus personagens, cavar as suas intenções mais superficiais. Logo nas linhas iniciais dos seus textos, percebemos que nos afastamos de um território seguro.

Suas aberturas misturam enunciados que se dividem entre a certeza e a hesitação, como se cada palavra tivesse a força de apagar a anterior. Meu primeiro contato com Marías foi A herança italiana, presente na reunião de contos Quando fui mortal. Bastaram poucas linhas para que compreendesse que já estava bem longe de casa: “Tenho duas amigas italianas que vivem em Paris. Há um par de anos não se conheciam, não tinham se visto, eu as apresentei num verão, eu fui o vínculo e temo que continue sendo, embora elas não tenham voltado a se ver. Desde que se conheceram, ou melhor, desde que se viram e que ambas sabem que conheço ambas, suas vidas mudaram rápido demais e não tanto paralela quanto consecutivamente. Não sei mais se devo romper com uma para libertar a outra ou mudar o viés da minha relação com a outra para que esta desapareça da vida daquela”. Perceba por esse parágrafo o quanto a certeza do “Tenho duas amigas italianas que vivem em Paris” se esfarela com uma rapidez impressionante. Já não sabemos mais sobre o que o narrador está falando e justamente por isso prosseguimos. Não é a dúvida sobre o fim que move seus livros, mas a incerteza incômoda de como tudo aquilo começou. Ou melhor: por que tudo aquilo começou?

TRIÂNGULO
O princípio de Os enamoramentos não foge à cartilha de incertezas de Marías: “A última vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que sua mulher, Luisa, o viu, o que não deixou de ser estranho e talvez injusto, já que ela era isso, sua mulher, e eu, ao contrário, era uma desconhecida e nunca havia trocado uma só palavra com ele. Nem sabia seu nome, só soube quando já era tarde, quando apareceu sua foto no jornal, esfaqueado”. Como saber o real foco de interesse do autor nesse emaranhado de informações? Seria o foco a narradora, a mulher que perde o marido ou justamente o morto?

Os enamoramentos parte da perspectiva discreta, ainda que inquisidora, de uma mulher fascinada por um casal de estranhos que observa todos os dias num café junto do seu trabalho. A cumplicidade entre os dois parece confortá-la a respeito de algo que nem ela própria ainda compreende. Precisa apenas voltar e conferir se a vida daqueles desconhecidos permanece sob algum estatuto de proteção e de paz, na esperança de ser contaminada pela aura alheia. No entanto, o marido é assassinado por um maluco numa rua próxima ao café que parecia ser o porto seguro de todos os dias.

Escritor criou história em que a triangulação de personagens se dá a partir de uma mulher que observa suposto casal feliz. Foto: Divulgação

Quebrado o inusitado “triângulo”, o livro começa a nos oferecer um incômodo questionamento sobre o lugar que acreditamos ocupar na vida dos outros: seríamos mais descartáveis do que imaginamos ou como substituir alguém que concordou em ser a nossa parede, teto e chão? Como seguir adiante e encontrar outra certeza corporificada num amante ou mesmo em estranhos casuais, já que são tão frágeis os laços apenas visuais ou mesmo todos os laços? Questões que Marías lista com uma clareza inquietante:

“Mas desde o início sabemos – desde que morrem – que já não devemos contar com eles, nem para a mais ínfima das coisas, para um telefonema trivial ou uma pergunta boba (‘Lembrou de deixar a chave do carro?’, ‘Que horas mesmo as crianças saíam hoje?’), só por perguntar, por nada. Nada é nada. Na realidade, é incompreensível, porque supõe ter certezas, e isso vai de encontro à nossa natureza: a certeza de que alguém não vai mais vir, nem falar, nem dar um passo, nunca mais – nem para se aproximar nem para se afastar – , nem para olhar para nós, nem desviar a vista. Não sei como resistimos a isso, nem como nos recuperamos. Não sei como por vezes nos esquecemos, quando o tempo já passou e nos afastou deles, que ficaram parados”.

É a instituição dos que “ficaram parados” que move nossa inquietação a partir desse momento. Como seguir alguém que não se mexe? Como prosseguir, se queremos continuar parados? Quanto tempo leva para que voltemos a nos mover outra vez? Para responder a essas perguntas, a novela de Balzac parece ser essencial e passamos a acreditar que Marías constrói aqui uma obra sobre como a literatura pode ser uma prótese para aqueles que se sentem decepados, e não apenas um mero diálogo entre dois (ou mais) autores, quando no final das contas toda literatura é um grande coro de vozes. E persistir na tecla desse coro é uma saída de incêndio fácil, mas falsa, ou melhor: superficial.

METALITERÁRIO
Percebi o engano da minha primeira leitura de Os enamoramentos, quando li uma entrevista recente de Marías, publicada no Estadão, na qual ele entregava um pouco do seu jogo. A declaração de Marías iluminou minha percepção não apenas sobre sua obra, mas sobre a literatura de uma forma mais ampla. Suas palavras foram as seguintes: “Quanto a Balzac e seu livro, não há nada de metaliterário na sua inclusão em Os enamoramentos. Simplesmente, seus personagens o leem, como faz muita gente na vida, e falam de um texto que leram e que, além de tudo, é conveniente para justificar seus atos. Minha intenção não era fazer um exercício metaliterário. Apenas o livro de Balzac se encaixa muito bem na história”.

É claro que existe um exercício “metaliterário” em Os enamoramentos, mas da mesma forma que somos exercícios de colagens de tudo o que lemos, ouvimos, das pessoas que amamos, perdemos e substituímos, durante a necessária busca por outra parede, teto e chão. Somos, no fundo, colagens ambulantes. Ou mesmo “metaliterários” por natureza. Não há novidade alguma aí, ainda que muitas vezes não percebamos de forma objetiva ou clara essa questão. A partir da declaração de Marías, não pude deixar de voltar a outra grande obra recente, Reparação, de Ian McEwan, romance que se apropria do formato clássico do romance do século 19, apenas para desmontar nas últimas páginas o fato de que a literatura é um exercício de reconstrução, ainda que meramente artístico, de erros, uma olhada com mais atenção para aposentos que tivemos de deixar momentaneamente abandonados. Escrever é reconstruir.

No entanto, o que Marías se propõe aqui é repousar a atenção no papel do leitor, deixando o autor (ele próprio) em último plano. Quem observa uma cena, quem lê um texto, acredita superficialmente que o importante é o que está sendo visto ou narrado. Mas nossa percepção é justamente guiada por aquelas colagens das quais já falamos. Assim, Os enamoramentos pode trafegar, sem grandes sustos, por uma educação sentimental, por uma obra noir, vertendo-se num romance policial curioso, porque os criminosos se apresentam independentemente da solução ou não do crime. O romance muda, não apenas porque a trama tenha grandes sobressaltos ou reviravoltas mirabolantes, mas pelo fato de a narradora (ou no caso a “leitora-voyeur” da felicidade matinal de dois desconhecidos) sentir a necessidade de olhar melhor, de esfregar os olhos e de compreender o mundo a partir das suas “colagens”. Há um momento em que não vale a pena acreditar no que ficou estabelecido como definitivo. Um grande leitor não reza na cartilha de textos finais.

Aos poucos, o livro vai tirando o foco de Balzac, “daqueles que ficaram parados” e da perspectiva dos que ainda não sabem se mover. A voyeur do casal de final trágico vai tomando o controle da situação, ainda que hesite em alterá-la. Melhor: sabe que é impossível alterar o rumo da história, mas percebe que pode aprimorar seu olhar sobre ela. Torna-se a protagonista insuspeita de mãos atadas, mas de olhos abertos.

Os enamoramentos é um exercício lento de compreensão do papel fundamental do leitor. Ler é, a princípio, olhar, e por isso aquela mulher “lia” com tamanha atenção um casal de estranhos diariamente. Não é fácil encontrarmos uma obra literária em que o autor promova uma homenagem tão generosa ao leitor. E, talvez por sua generosidade, precise se esconder atrás de tantos e tamanhos atalhos e de planos de fuga. É como se Marías nos alertasse discretamente: se podes ler, repare, desconfie e reescreva. 

SCHNEIDER CARPEGGIANI,  jornalista, mestre e doutor em Teoria Literária, editor do suplemento Pernambuco e da revista ArtFliporto.

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