Festa do teatro potiguar no Recife
Clowns de Shakespeare comemora duas décadas, no Janeiro de Grandes Espetáculos, com estreia nacional de 'Hamlet' e exibição de mais duas peças
TEXTO Pollyanna Diniz
01 de Janeiro de 2013
'Hamlet' tem direção de Marcio Aurelio, numa volta do grupo ao texto shakespeariano
Foto Pablo Pinheiro/Divulgação
Os acontecimentos recentes do grupo de teatro Clowns de Shakespeare, de Natal (RN), revelam-se auspiciosos. Sua incelença, Ricardo III, espetáculo que estreou no Festival de Curitiba, no primeiro semestre de 2011, foi, desde então, apresentado mais de 100 vezes. O diretor Fernando Yamamoto relembra as sessões que o grupo fez no Complexo do Alemão (RJ), duas semanas depois de a polícia ter ocupado a região por conta da ação de traficantes. Em São José do Rio Preto (SP), numa única apresentação, foram mais de 7 mil espectadores. Também circularam com a peça pelo exterior – Espanha e Chile.
“Ricardo III proporcionou ao grupo crescimento em diversos aspectos, principalmente de projeção do Clowns pelo país, e o início do processo de internacionalização. Acho que o momento em que o espetáculo surgiu foi oportuno, já que tínhamos respeito pelo país, mas isso foi incrementado pelo encontro com Gabriel Villela (diretor que assina a montagem) e todo o peso do seu nome”, afirma Yamamoto. O trabalho do Clowns de Shakespeare até pode ter tomado uma maior dimensão com essa última peça, mas não é de agora que o grupo constrói uma trajetória artística. Neste 2013, faz 20 anos que foi fundado, surgiu como outros grupos: dentro de uma escola de ensino médio, os alunos instigados por um professor de Literatura. Desde então, passaram do amadorismo à profissionalização. Hoje, pode ser considerado um dos mais importantes grupos do Rio Grande do Norte e do Brasil, pelo trabalho continuado de pesquisa e desenvolvimento de referências estéticas próprias.
As duas décadas do Clowns de Shakespeare começam a ser comemoradas no Recife, dentro do festival Janeiro de Grandes Espetáculos. A cidade será palco da estreia nacional de Hamlet, sob direção de Marcio Aurelio, nome consagrado do teatro brasileiro. A companhia também apresenta Sua incelença, Ricardo III (que só teve uma sessão no Recife, na Virada Multicultural, em outubro de 2011) e O capitão e a sereia, uma das peças do seu repertório. Haverá ainda o lançamento do projeto intitulado Cartografia do Teatro de Grupo do Nordeste, com mesa redonda e workshop.
“Participamos pela primeira vez do Janeiro de Grandes Espetáculos em 2005, com o espetáculo Muito barulho por quase nada e, depois, voltamos com Roda Chico. Temos certeza de que será especial estrear Hamlet dentro desse evento, o primeiro grande festival brasileiro no ano, no Teatro de Santa Isabel, e conseguindo, finalmente, levar O capitão e a sereia para o Recife”, diz Yamamoto.
Com direção de Gabriel Villela, Sua Incelença, Ricardo III trouxe ao Clowns maior projeção nacional. Foto: Pablo Pinheiro/Divulgação
O capitão e a sereia (2009) é resultado de uma associação entre o Clowns e profissionais de outros sete estados. O texto original que deu origem à peça (embora a dramaturgia seja assinada por Yamamoto e pelo grupo) é do pernambucano André Neves e a preparação corporal do elenco foi realizada por Helder Vasconcelos, tendo o cavalo-marinho como inspiração. Durante a construção da montagem, que durou quatro meses, todos os sábados o grupo realizava ensaios abertos e ouvia o retorno do público. “O capitão... foi um processo muito especial, sem dúvida o mais próximo do que consideramos o ideal”, comenta Fernando Yamamoto.
CARTOGRAFIA
O convite ao Clowns de Shakespeare para o Janeiro de Grandes Espetáculos está relacionado ao interesse do evento em fomentar discussões sobre o teatro de grupo no Brasil, aspecto inerente ao cotidiano da companhia. “Da formação inicial, ainda restam três fundadores: Renata Kaiser, César Ferrario e eu. É difícil definir a forma como construímos e mantemos o grupo. Um dos mais importantes fatores para isso foi conseguirmos estabelecer um equilíbrio entre os desejos pessoais e as demandas do coletivo. Ninguém trabalha no Clowns com o objetivo de projeção individual. O grupo sempre está à frente, embora seja fundamental que as inquietações de cada integrante tenham espaço. Investimos na companhia, dedicamo-nos muito para construir esse projeto artístico, que é o projeto de vida de todos nós. Mas, quando analiso de onde saímos e onde estamos, vejo que é uma história absolutamente improvável: um grupo tão sólido e com qualidade artística internacional numa cidade tão árida culturalmente como Natal”, diz Yamamoto.
A partir de inquietações dos integrantes surgiu, por exemplo, o projeto Cartografia do Teatro de Grupo do Nordeste, que resultou em três volumes sobre a produção na região. “Circulamos muito e em cada estado encontramos parceiros que vivem realidades parecidas com as nossas, seja a conjuntura política, gestão ou inquietações estéticas. Esse mapeamento revela recorrências, como a dependência de mecanismos de financiamento federais, ou a quase inexistência de companhias que conseguem garantir a manutenção de todos os seus integrantes”, aponta o diretor.
André Neves e Helder Vasconcelos são, respectivamente, autor e preparador corporal da peça O capitão e a sereia. Foto: Mauricio Cuca/Divulgação
Uma das influências no trabalho do Clowns de Shakespeare, no entanto, vem de Minas Gerais: o Grupo Galpão. Em Muito barulho por quase nada e O casamento do pequeno burguês, a direção das montagens foi dividida entre Fernando Yamamoto e Eduardo Moreira, um dos fundadores do Galpão. “Eles sempre foram a nossa maior referência, seja no aspecto estético e poético, seja no organizacional, de gestão. O Eduardo foi o elo entre todos nós, mas depois desses dois trabalhos temos uma relação muito íntima, seja no compartilhamento dos mesmos parceiros artísticos, como o próprio Gabriel Villela, seja na troca constante que temos.”
ENCONTROS
Em Hamlet, pela segunda vez um diretor convidado assume a tarefa de assinar uma montagem do Clowns. A primeira foi em Sua incelença, Ricardo III, dirigida por Gabriel Villela. Marcio Aurelio se dedica ao teatro desde a década de 1970. Já recebeu os prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), o Troféu Mambembe, o Prêmio Molière e o Shell. Em 1990, criou a Companhia Razões Inversas, que tem no repertório espetáculos como Agreste, de Newton Moreno, e Anatomia frozen, texto de Bryony Lavery.
A aproximação do Clowns de Shakespeare com o diretor deu-se em 2007, durante uma residência no Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp). “Como planejamos o trabalho do grupo com dois, três anos de antecedência, então já iniciamos o flerte para montar essa obra. Hamlet, é uma peça de especialidade do Marcio e surge para o grupo num momento em que todos estamos passando, ou perto de passar, pela ‘crise da meia idade’, uma das questões abordadas por Shakespeare”, comenta Fernando Yamamoto.
Ricardo III e Hamlet representam uma volta ao universo do dramaturgo inglês que dá nome à companhia. Desde Muito barulho por quase nada (2003), o grupo não montava um texto de Shakespeare. Encenaram Brecht – O casamento do pequeno burguês (2006) – e três espetáculos com dramaturgia própria: Roda Chico (2005), Fábulas (2006) e O capitão e a sereia (2009). “Mas em 2007, quando encontramos Gabriel Villela e Marcio Aurelio, já sentíamos uma necessidade de não só retornar a Shakespeare, como partir para uma obra não cômica”, explica o diretor do grupo. Em Hamlet, oito atores estão em cena: “Fizemos uma grande intervenção dramatúrgica, numa linguagem contemporânea que não se preocupa em contar linearmente a fábula, mas, sim, buscar o recorte que nos interessa para apresentar a obra no máximo da sua potência”, explica Yamamoto.
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