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De quando a chuva desaba e o chão verdeja

Em 'Sertão verde – paisagens', Fred Jordão reúne imagens feitas ao longo de mais de 15 anos, em que prevalece o olhar para a grandiosidade da natureza

TEXTO Adriana Dória Matos

01 de Janeiro de 2013

O ponto de vista adotado pelo fotógrafo é o de quem percorre as estradas e reage esteticamente ao que é avistado

O ponto de vista adotado pelo fotógrafo é o de quem percorre as estradas e reage esteticamente ao que é avistado

Foto Fred Jordão/Divulgação

Quantas paisagens nossos olhos são capazes de reter? Quantos espaços geográficos reincidem sobre nós? Essas questões podem nos remeter à ideia de saturação, mas não é ela que invocamos aqui. Pensamos nos lugares pelos quais passamos e que ficam em nossa memória. De início, eles são fragmentos que, reencontrados, se tornam vínculos. As paisagens que bordejam as estradas são assim: aquilo que avistamos outra vez deixa de ser fortuito. Queremos nos colocar no caminho de novo para rever o que apenas transpassamos. Esse livro, Sertão verde – paisagens, é feito desses encontros de beira de estrada ou, ao menos, a partir deles foi construído.

Antes de ser um livro, era um conjunto de fotos que Fred Jordão vinha juntando, resultado de viagens que fazia desde meados dos anos 1990 pelo sertão nordestino. Não era um projeto, não havia ali deliberação para publicação. Eram olhadas, guardadas em arquivos de imagem. Com o tempo, o fotógrafo notou entre elas paridades, recorrências, vínculos. “Percebi que havia não apenas uma coleção de imagens de um mesmo tema, mas uma reflexão sobre essa região conhecida como ‘Sertão’”, deu-se conta.

Sendo que esse “sertão” que ele tinha em arquivo não era o do flagelo, mas outro, o da beleza. Em vez do cinza, o verde. Havia no seu discurso imagético o “sertão verde”, que é como chamam a terra seca quando flora de susto, quando aquelas nuvens pesadas que adensam o céu resolvem finalmente chover. “Sertão verde” pode até ser “desgosto” para quem mora ali e sabe de sua efemeridade, mas é bonito de ver.

Como Fred Jordão era o viajante que registrou “de fora” a beleza que viu naquela paisagem verdejante, às vezes rude, às vezes épica, também singela e mesmo insuspeita, ele tratou de cercar-se de alguém que oferecesse um olhar “de dentro”, diferente do dele. Com a seleção de imagens pronta para a publicação em livro, trouxe para junto de si Xico Sá, que assina o único texto de Sertão verde – paisagens. Xico, homem feito jornalista e escritor, foi menino forjado no calor do Crato e acaba de colocar na praça o Big jato, seu primeiro romance, carregado de memória afetiva desse começo de vida nas securas da Chapada do Araripe.


Foto: Fred Jordão/Divulgação

O espírito de Big jato se incorpora à apresentação que Xico Sá escreveu para o livro de Fred Jordão, na medida em que ele rememora a euforia que sentia diante da chegada da chuva em oposição à reação aborrecida do pai, que sabia da enganação daquela água pouca: “Ficar bonito nos olhos, quero ver ficar bonito no bucho”. É esse contraste de resposta que impulsiona a narrativa de Big jato e que Xico Sá transportou para Sertão verde – paisagens, oferecendo uma leitura da seleção de imagens feita para essa edição.

Então, se entrarmos neste volume pela porta da frente, observaremos que há uma intenção narrativa, iniciada com enquadramentos fechados em galhas secas – que sugerem abstrações da natureza –, seguidos de planos mais abertos, árvores nuas, colocadas contra espaços bem trabalhados em variados tons. Depois dessas boas-vindas, as imagens trazem céus carregados de nuvens e, finalmente, uma sequência de quatro fotos em que a chuva cai sobre a estrada de barro, vista sob a proteção do para-brisa do automóvel. Vem o texto de Xico Sá e aquilo que podemos chamar o miolo da edição, composto de variados subtemas da chave que nomeia a publicação.

Comumente, dizemos que o mais difícil num trabalho de edição é o corte. Ou seja, dispensarmos aquilo por que nos apegamos. Diante de Sertão verde – paisagens, supomos o quanto isso tenha sido forçoso para o fotógrafo, que tinha diante de si duas tarefas inevitáveis: encontrar um eixo narrativo, e escolher imagens que nele se encaixassem, descartando várias outras dentro de um acervo que vem sendo produzido há mais de 15 anos. Dureza. Porque, aqui, voltamos à questão do início, sobre quantas imagens somos capazes de reter. Nesse volume, são cerca de 200 fotografias coloridas, em que a expressão “paisagens” foi esticada para incluir itens da fauna sertaneja e elementos construtivos e utensílios domésticos (estes, com os quais o fotógrafo encerra o livro). Tais itens poderiam ser descartados? Embora belas e contextuais, são imagens que nos colocam essa pergunta diante do recorte proposto.

A maior densidade da edição está nos panoramas, nos planos abertos, não apenas pela grandiosidade intrínseca a esse tipo de registro fotográfico, mas por oferecer a geografias estigmatizadas por ideias de escassez e pobreza uma atmosfera de poder e reverência. Com um olhar, ao mesmo tempo, objetivo e pessoal, Fred Jordão registrou paisagens dos sertões e regiões fronteiriças de Pernambuco, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas, Paraíba e algumas poucas da Bahia e Sergipe. Mas, diante das imagens captadas, essas divisões da geografia política tornam-se um marcador menos relevante que as similaridades estabelecidas pela geografia física muito assemelhada. Verde e grandiosa, graças à força da chuva. 

ADRIANA DÓRIA MATOS, editora-chefe da revista Continente.

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