Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Vegetarianismo: Os motivos por que abandonamos a carne

Saúde, ética e ecologia fazem parte das preocupações de quem prefere colocar no prato cereais, verduras, frutas, amiláceos...

TEXTO RENATA DO AMARAL
FOTOS RAFAEL MEDEIROS

01 de Dezembro de 2012

Quem opta pelos brotos e sementes aposta na vitalidade dos alimentos

Quem opta pelos brotos e sementes aposta na vitalidade dos alimentos

Foto Rafael Medeiros

"Há uma certa característica esquizoide no relacionamento que mantemos com os animais hoje em dia, no qual sentimento e brutalidade coexistem. Metade dos cachorros dos EUA receberão presentes no Natal deste ano, entretanto, poucos de nós paramos para pensar na vida de um porco – um animal geralmente tão inteligente como um cachorro –, que se transformará no presunto de Natal”. A afirmação é do escritor, jornalista e nada vegetariano Michael Pollan, autor de O dilema do onívoro: uma história natural de quatro refeições. A questão que o livro propõe é: nós podemos comer tudo, mas o que devemos comer? Prestes a se refestelar com uma costela malpassada enquanto lê o clássico do vegetarianismo Libertação animal, do filósofo Peter Singer, ele conclui: ou evitamos olhar nos olhos do animal ou nos tornamos vegetarianos.

“Evitar a questão é não saber que, por exemplo, frangos têm bicos arrancados para evitar que se matem por causa do confinamento. Se as paredes dos nossos matadouros se tornassem transparentes, literal ou mesmo metaforicamente, não continuaríamos mais a criar, matar e comer animais da maneira como fazemos”, afirma Pollan, ao se referir à indústria da carne nos EUA. E, em seguida, come sua costela.

Optar por não consumir nada de origem animal não é novidade. Em Comida: uma história, Felipe Fernández-Armesto conta que o vegetarianismo existe desde a Antiguidade. As razões iam da religião, como a transmigração da alma no budismo, à psicologia, como o suposto caráter colérico de quem ingere carne. O movimento vegetariano contemporâneo, porém, surge no século 18, com o Romantismo e a “nova sensibilidade com relação ao mundo natural”.


Vegetariano há cinco anos, Josias Andrade acredita que a sensibilidade à causa animal une o grupo

O que está em jogo hoje, diz Fernández-Armesto, é o trinômio saúde, moralidade – frisada por Pollan – e ecologia. O uso da agricultura para alimentar os animais e não as pessoas perpassa a questão ecológica. Em relação à saúde, já se sabe que cereais, leguminosas, oleaginosas, amiláceos, legumes, verduras e frutas suprem as necessidades dietéticas. Apenas a vitamina B12, que só existe em alimentos de origem animal, precisa ser complementada.

NOVOS SABORES
O Recife conta, há dois anos, com uma representação local da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), que se reúne quinzenalmente. O Grupo Mandacaru, coordenado pela professora universitária Bárbara Bastos, tem como objetivo disseminar o vegetarianismo estrito – sem ovo nem leite – por meio de ações como palestras e panfletagem. Entre os cerca de 40 membros, a ética é a motivação mais forte.

A SVB é responsável pela campanha Segunda sem carne, em que o restaurante participante pode não vender carne ou simplesmente oferecer mais opções vegetarianas naquele dia. O slogan: “Descubra novos sabores”. Para Bárbara, em vez de uma dieta específica, é ainda mais importante que os pratos triviais, como feijão, não tenham ingrediente animal. “Algo que encha a barriga você encontra em qualquer lugar, mas realmente gostoso é difícil”, reclama.

Foi a preservação ambiental que a fez parar de comer carne, há quatro anos. A ética lançou-a num processo de mudança interior. “A gente se dessensibiliza”, comenta. Ela busca seguir o veganismo, que evita qualquer exploração animal, como seu uso em testes de medicamentos. Durante a entrevista, uma amostra da dificuldade dessa opção: ela quis pedir um inocente açaí na tigela, mas a granola continha mel e manteiga entre os ingredientes.


Localizado no Bairro de Santo Antônio, o Empório Pura Vida comercializa produtos naturais

Associado à SVB, Josias Andrade é sócio do Empório Pura Vida, que vende produtos naturais. Há um ano e meio, no Bairro de Santo Antônio, a loja comercializa castanhas, frutas secas, cereais e produtos orgânicos e importados. Vegetariano há quase cinco anos, ele defende que não adianta apenas cortar ingredientes sem acrescentar outros. “Não há necessidade de ‘se enganar’ com produtos como carne de soja”, considera.

Josias acredita que o que une o grupo é a sensibilidade à causa animal. Ele não se preocupa muito com rótulos como vegetariano, vegano ou crudista, mas defende o consumo de produtos orgânicos e o cuidado com a saúde – é comum que quem opta pela restrição de insumos animais compense aumentando fritura, açúcar e sal. “A dieta é saudável e ética, ou seja, o vegetarianismo é bom para todo mundo”, opina.

O lado ativista do grupo também aparece no ilustrador e designer Igor Colares, que se prepara para lançar o livro infantil O bezerro escritor. “A obra foi financiada colaborativamente por meio do site Catarse. Ele trata do leite pelo ponto de vista de um bezerro desmamado”, explica. A meta era atingir R$ 5 mil para possibilitar a publicação, mas ele conseguiu arrecadar mais que o dobro. Em vez de 500 exemplares, vai imprimir 1 mil.

ESTILO DE VIDA
Na reta final de sua pesquisa de doutorado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a antropóloga Luciana Lira estuda a simbologia e a moral alimentar entre vegetarianos, veganos e adeptos da alimentação viva. Ela acompanhou encontros dos grupos SVB e Ativeg e observou que os indivíduos eram motivados por razões diferentes, mas com algo em comum: a ideia de um cardápio irrepreensível, cada um do seu ponto de vista.

Apesar da heterogeneidade, algumas ideias costumam se repetir. Uma delas é a ética que não faz distinção entre espécies comestíveis e não comestíveis. Não se deseja carregar o peso da morte de quaisquer animais. “Isso vai além da comida: é uma postura de vida”, afirma.

Na observação participante e nas entrevistas, ela percebeu que o discurso científico tradicional existe junto a outros, que contrariam as afirmações a respeito da necessidade do organismo humano de consumir carne e ainda apontam alguns malefícios desse consumo. Também é interessante notar que, para alguns indivíduos, não consumir produtos de origem animal faz parte de uma busca por reconexão com a natureza – um posicionamento relativo a todos os seres que dividem o planeta com nossa espécie. Há também um lado de justiça social, pois a escolha pode ter impacto em uma distribuição global mais equitativa dos alimentos.


A causa do vegetarianismo tem ganhado cada vez mais adeptos

PESQUISAS
Há diferentes argumentos para aderir ao vegetarianismo e isso se expressa pela heterogeneidade dos seus adeptos. Por exemplo, a antropóloga conta que pesquisas indicam que, nos EUA, esse tipo de dieta aumentou recentemente entre adolescentes e idosos – nos primeiros, por razões políticas e ambientais; nos segundos, por motivos de saúde. E ainda existem aqueles que relacionam o vegetarianismo à espiritualidade. Luciana se tornou ovolactovegetariana nos últimos anos motivada pela pesquisa, para não ser incoerente. Mas, hoje em dia, não pretende voltar a comer carne por causa da questão animal.

Recuperação mais rápida nas doenças e mais disposição nos planos físico, mental e emocional são alguns dos benefícios da alimentação viva, de acordo com a proprietária do Centro Verde Vida, Ana Oliveira. O local, no Vale do Catimbau, interior pernambucano, recebe pessoas interessadas em se desintoxicar e aprender sobre o também chamado crudismo, neologismo criado para substituir o crudivorismo, termo que ela prefere evitar por lembrar carne crua.

Ana começou a pesquisar sobre o assunto depois de realizar um jejum de 21 dias, apenas com sucos, em 2001. “Foi um processo muito transformador, um mergulho interior”, lembra. O centro nasceu da vontade de oferecer um espaço tranquilo e isolado para pessoas em busca de mudança alimentar. “Elas chegam sentindo que o corpo precisa de uma qualidade de vida melhor, então vêm para cá dar uma resetada”.


A moqueca de caju é uma das receitas do curso de alimentação viva da Unidade de Cuidados Integrais à Saúde (Ucis) Professor Guilherme Abath

A base dessa alimentação é o suco verde, de folhas, de preferência brotos, como a grama de trigo. “O tipo de folha mais vivo que existe são os brotos ou as ervas que nascem sem cultivo”, acredita. Há várias receitas, mas a sua usa insumos desintoxicantes como pepino, gengibre e limão. A salada, com sementes e algas, é o prato principal. No jantar, sopa crua. Só leguminosas e quinoa passam por leve cozimento: depois da fervura, apaga-se o fogo e joga-se o alimento na água.

A ideia é fazer as substituições naturalmente, com pratos saborosos, e reeducar o paladar. “Não acredito em sacrifício: na base da força de vontade não vai!”, opina. Ana não advoga uma vida 100% crudista, mas acredita em modificações positivas na dieta e na vida. Por isso defende que a alimentação viva seja gostosa e fácil de incorporar ao cotidiano. “A relação com o alimento tem que ser saudável, sem culpa, buscando sempre o caminho da alegria.”

MUDANÇA DE HÁBITO
A Unidade de Cuidados Integrais à Saúde (Ucis) Professor Guilherme Abath, da Prefeitura do Recife, oferece um curso de alimentação viva em seis módulos, com teoria e prática a cada encontro. Depois da introdução, a segunda aula aborda a germinação de brotos. A nutricionista Rafaela Fernandes, uma das responsáveis pelo curso, fala sobre saúde no terceiro encontro. A equipe apresenta sementes como chia e amaranto, que os alunos não costumam ver no dia a dia, aborda valores nutricionais e ensina combinações.


A rica variação das sementes tem grande valor nutricional

A segurança alimentar e nutricional é o assunto seguinte. “Além da higiene sanitária, a aula tem um teor de sustentabilidade: falamos sobre impacto ambiental, perigos dos agrotóxicos e benefícios dos orgânicos”, explica, lembrando que há em torno de 15 feiras orgânicas na cidade. O planejamento alimentar vem em seguida, com um cardápio montado pela turma. O último encontro é uma confraternização, em que cada aluno traz um “prato vivo”.

Espontaneamente, eles riscam da lista de compras alimentos que não são bons para a saúde. “A proposta é incluir produtos vivos no dia a dia, mas não de forma exclusiva”, explica. Segundo a professora, os grupos costumam ser bem misturados – de senhoras donas de casa a profissionais e estudantes de várias áreas – e terminam gerando também novas amizades. Antes das degustações, todos cantam uma música em tupi-guarani em agradecimento à natureza.

“A semente está despertando para a vida e quem a consome usufrui essa energia”, explica a nutricionista. O carro-chefe da alimentação viva é o suco de clorofila, mas as receitas do curso incluem também moqueca de caju, leites vegetais (de amêndoas, semente de girassol, quinoa ou linhaça, por exemplo) e torta doce viva, com base de castanha-do-pará hidratada, passas e coco ralado e recheio de creme de frutas frescas.


A nutricionista Rafaela Fernandes defende que é possível viver
bem sem produtos animais

Rafaela aderiu ao vegetarianismo no ano passado, quando fez, como aluna, o curso do qual hoje é professora. Segundo ela, a formação em Nutrição ainda é resistente a essa corrente, mas ela descobriu que dá para viver muito bem sem produtos animais e que existem muitos estudos confirmando que uma alimentação vegetariana balanceada é saudável. A saúde foi sua motivação primeira, mas depois vieram as questões ambientais e éticas.

A médica acupunturista Régia Sofia de Azevedo, colega de Rafaela na Ucis, também teve que desfazer alguns mitos aprendidos na faculdade, para se tornar vegetariana. “Eu achava que a gente precisava da proteína animal para viver, mas podemos ter uma vida saudável na dieta vegetariana”, conta. Ela deixou de comer carne vermelha por questão de saúde, mas parou com as outras há dois anos, quando conheceu problemáticas envolvidas.

A alimentação viva faz parte do seu cotidiano. Para Régia, quem opta pelos brotos e sementes germinados muda o foco para a vitalidade dos alimentos. O alimento é cru para evitar a desnaturação das enzimas e preservar a energia vital. No consultório, ela aproveita para orientar os pacientes a terem uma alimentação mais natural e fala sobre os problemas do consumo da carne. “O equilíbrio é importante para todo mundo”, diz Régia. “A gente acaba ressignificando as coisas. Hoje eu não vejo mais a carne como comida”, afirma Rafaela. 

RENATA DO AMARAL, jornalista, professora e doutoranda em Comunicação.
RAFAEL MEDEIROS, fotógrafo.

Publicidade

veja também

Alcir Lacerda: Exercício de documento, memória e identidade

ETS: Contatos imediatos nas salas de cinema

A nova cinefilia

comentários