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“Os filósofos estiveram cegos”

Professor espanhol Alfredo Marcos é um dos artífices de discussões em torno da “humanização” das atividades científicas, que, na opinião dele, não devem ser apartadas da vida

TEXTO EDUARDO CESAR MAIA E JORGE ROARO

01 de Dezembro de 2012

Alfredo Marcos

Alfredo Marcos

Foto Acervo pessoal

Uma das razões pelas quais as pessoas costumam confiar nas conclusões e nas predições dos cientistas é a de imaginar que a linguagem da ciência é completamente objetiva. Contudo pensadores como Thomas Kuhn, Karl Popper e Paul Feyerabend já nos advertiram de que, na atividade científica, como em qualquer outra atividade humana, intervêm também questões, digamos, “contextuais”: preferências, preconceitos, crenças; além das exigências políticas e econômicas de sua época, a situação sociocultural, os modismos teóricos e ideológicos, os interesses que movem a atividade acadêmica, a rentabilidade e a possibilidade de desenvolvimento comercial de uma investigação ou projeto, entre outros aspectos. E tudo isso termina por influenciar diretamente no estabelecimento dos paradigmas científicos. Devido ao reconhecimento da importância desses fatores, nas últimas décadas, a Filosofia da Ciência tem-se aberto a questões de caráter prático. Recobrou, assim, felizmente, o diálogo com o pensamento social, moral e político.

Nesta entrevista, o filósofo espanhol Alfredo Marcos apresenta os fundamentos históricos e filosóficos dessa concepção ampliada de ciência e nos mostra como funciona sua aplicação em diferentes âmbitos: comunicação da ciência, investigação clínica, política ambiental, poética da ciência. Alfredo Marcos, que é doutor em Filosofia pela Universidade de Barcelona e catedrático de Filosofia da Ciência da Universidade de Valladolid, publicou mais de uma dezena de livros, ainda sem tradução no Brasil, entre os quais Pierre Duhem. La filosofía de la ciencia en sus orígenes (Barcelona, 1988), Aristóteles y otros animales (Barcelona, 1996), Hacia una filosofía de la ciencia amplia (Madrid, 2000), El testamento de Aristóteles (León, 2000), Filosofía de la Ciencia. Nuevas dimensiones (México, 2010).

CONTINENTE Em Ciencia y acción: una filosofía práctica de la ciencia, você apresenta uma visão da ciência como ação humana e convida a uma compreensão ampliada relativa ao conhecimento científico. Em que consiste sua perspectiva?
ALFREDO MARCOS Costuma-se pensar que a ciência é aquilo que aparece nos livros e nos artigos, as palavras e as fórmulas. Mas, atrás desses resultados, há muitas ações humanas. Gente que observa, que ensina, que calcula, que viaja, que dialoga, que imagina e cria… A ciência é composta pelos resultados, mas também pelo conjunto de ações humanas que os produzem. Os filósofos da ciência, durante muitos anos, estiveram cegos ante essa realidade; observavam somente os resultados desse campo, suas teorias, mas não queriam ver as ações, as práticas científicas. Por isso, a Filosofia da Ciência era muito incompleta. Mas, há duas décadas, ela vem se ampliando muito. Agora se incluem também reflexões éticas, políticas, poéticas, pedagógicas, retóricas, comunicacionais. Ao pensar a ciência como ação humana, a Filosofia da Ciência se abriu a um novo mundo.

CONTINENTE A ideia que as pessoas comuns têm da ciência costuma estar equivocada?
ALFREDO MARCOS Há duas imagens errôneas e comuns da ciência: a imagem cientificista, segundo a qual ela é o único modo de se obter conhecimento e a única esperança de bem-estar para a humanidade; e a imagem anticientífica, segundo a qual a ciência é a fonte de todos os nossos males. O cientificismo causou muito danos, e produziu expectativas falsas. Depois veio a decepção e, após a decepção, a atitude anticientífica. Nesse sentido, o cientificismo conduz à anticiência. As ideias que temos da ciência nos são dadas pelo sistema educativo, por algumas obras de literatura e cinema e pelos meios de comunicação. Nessas três frentes, devem ser melhoradas as técnicas comunicativas e os conteúdos. Devem ser evitadas as imagens científicas simplistas e exageradas. É preciso humanizá-las. É preciso tratar a ciência como mais uma parte da ação humana, como tratamos a arte, o esporte ou a religião. Merece respeito por suas conquistas, e deve ser observada de modo crítico, como fazemos com as demais atividades.


René Descartes. Imagem: Reprodução

CONTINENTE Bertrand Russel dizia que aquilo que o homem busca realmente não é o conhecimento, mas a certeza. O grande projeto da filosofia e da ciência modernas, relacionado diretamente com a busca da certeza, fracassou?
ALFREDO MARCOS Um dos projetos característicos da modernidade foi a busca da certeza, desde Descartes. Sim, esse projeto fracassou. Hoje sabemos que mesmo nosso melhor conhecimento contém doses de incerteza. Não há método que garanta a certeza do conhecimento, tampouco o método científico. Temos que aprender a viver com isso. Neste panorama pós-moderno, a ciência e a filosofia são fontes de conhecimento respeitáveis, e não são as únicas. Relacionam-se em pé de igualdade. Dialogam. Respeitam-se. Isso significa que fracassou o projeto neopositivista de reduzir a filosofia a uma mera análise linguística da ciência. Karl Popper e Thomas Kuhn produziram uma mudança profunda em nossa forma de pensar. Eles nos ensinaram que a certeza é inalcançável e que a ciência é ação humana e, como tal, submete-se à mesma falibilidade que o resto das ações humanas. Se já não se identifica com o conhecimento certo, como pretenderam os modernos, é porque já estamos num contexto de ciência pós-moderno. A nova atitude de humildade intelectual, a nova consciência de incerteza e de falibilidade, pertencem a uma atmosfera intelectual distinta da que se respirava nos tempos modernos, nos tempos do “orgulho da razão”.

CONTINENTE É preciso repensar o conceito de racionalidade?
ALFREDO MARCOS Sim. Devemos abandonar o conceito logicista e algorítmico de racionalidade. Ser racional não consiste em seguir um algoritmo ou um método. Por essa via se chega ao absurdo de localizar a racionalidade lá onde é prescindível a presença humana. Tampouco nos serve, hoje, uma ideia meramente instrumental do racional, segundo a qual ser racional consiste em encontrar os meios apropriados para qualquer fim, seja este bom ou mal. Por esse caminho, pode-se atribuir racionalidade ao maior dos criminosos. Endosso um conceito de racionalidade prudencial. Ser racional consiste em ser prudente, quer dizer, em orientar cada uma de minhas ações de modo sensato em direção a uma vida boa. O fim tem que ser este: a vida boa, a felicidade humana. De outro modo, a ação não será racional. Claro que a ciência faz importantes contribuições nesse sentido, mas não tem o monopólio do racional, senão quando se apoia ela mesma na sensatez, na prudência, no senso comum.

CONTINENTE O positivismo lógico repudiava radicalmente o uso da linguagem metafórica no âmbito filosófico e científico. Para você, qual é o papel da metáfora na ciência?
ALFREDO MARCOS A ciência requer criatividade e imaginação em quase todas as suas fases. Ela se parece mais à arte do que costumamos acreditar. E eu diria que a forma normal de criatividade na ciência é a metaforização. Contudo, uma vez produzida a metáfora, os caminhos da arte e da ciência divergem. O artista se lançará na busca de uma metáfora nova, enquanto o cientista buscará obter todas as consequências possíveis daquela que criou. A dicotomia entre linguagem metafórica e linguagem literal não é correta nem iluminadora. Toda nossa linguagem é metafórica em maior ou menor grau. As metáforas têm sua própria vida, e ao longo da mesma podem ir se convertendo em linguagem convencional. Assim, portanto, a distinção correta é a que se estabelece entre linguagem metafórica e linguagem convencional. E é uma mera distinção de grau. Isso afeta a ciência. Alguns pensaram que a ciência era o território da linguagem literal, enquanto que a arte ou a metafísica empregavam linguagem metafórica. Não é assim. A ciência, como a arte ou a filosofia, cria metáforas. E as boas metáforas podem ir se convertendo, gradualmente, em convenções.


Imagem: Reprodução

CONTINENTE O âmbito da moral deve ser considerado na Filosofia da Ciência?
ALFREDO MARCOS Evidentemente, no momento em que vemos a ciência como ação humana, os problemas morais se colocam diante de nós. Ela, em todas as suas fases, deve ser realizada conforme parâmetros morais adequados, levando sempre em conta a dignidade das pessoas. A ética da ciência é parte imprescindível de sua filosofia. A ciência deve estar guiada pela prudência. Deve estar orientada pela sensatez, pelo senso comum. As ações científicas devem se inscrever no conjunto da vida humana de modo que conduzam ao que os clássicos chamaram vida boa ou felicidade. O conceito aristotélico de prudência é imprescindível hoje. Necessitamos dela para evitar o movimento pendular que já nos levou desde as luzes da orgulhosa razão até as sombras do niilismo. Essa tese não é nada original. Autores como Hans-Georg Gadamer ou Hans Jonas já nos haviam alertado, há décadas.

CONTINENTE Qual é a atitude mais prudente em relação ao problema da mudança climática?
ALFREDO MARCOS O mais urgente é mitigar as pressões ideológicas que rodeiam essa questão. Alguns cientistas chegaram a maquiar dados para pressionar mais a população mediante o alarmismo. É importante evitar o complexo de culpa que está se instalando. Toda a questão da mudança climática está rodeada de incertezas. Não sabemos a que ritmo está se produzindo, não sabemos com segurança as causas, não sabemos com certeza quais serão suas consequências, nem que resultados terão as medidas que se tomem. Tampouco sabemos como evoluirão nossas tecnologias – as de produção energética e as de recaptação de CO2. Deve-se aceitar que nos movemos em um oceano de incertezas. Nessa situação, o mais prudente é atuar contra a mudança climática, sim, mas sem estrangular o desenvolvimento nem supor uma carga intolerável para a população. Parece aconselhável uma leve redução das emissões de gases de efeito estufa, assim como a ênfase na investigação sobre energias não emissoras.

CONTINENTE Pode-se dizer que você propõe uma nova visão humanista da ciência?
ALFREDO MARCOS Durante algum tempo se pensou que a vida humana deveria se tornar mais científica. Isso nos daria uma melhor visão do mundo e um maior bem-estar. Em certa medida, é assim, ninguém poderia negar. A ciência nos ensinou muito e melhorou nossas vidas. Mas é certo que o conhecimento científico tem limites próprios, e não serve para abordar questões de grande importância relacionadas com o bem e o mal, com a beleza ou com o sentido da vida, para citar algumas. Não são defeitos da ciência, diz respeito ao bem-estar; a História nos mostra que houve progressos, mas também que foram criados novos problemas. Creio que o balanço é positivo, mas isso não nos deve impedir de ver os problemas gerados pela sua aplicação. Nem todos os problemas do ser humano, epistêmicos e práticos, solucionam-se a partir dela. Ela pode gerar distorções epistêmicas e problemas práticos. Um modo de evitá-los consiste em recordar sempre que a ciência é somente uma mais entre as atividades humanas. Deve dialogar com os demais âmbitos da vida humana e respeitá-los. Em resumo, se a tarefa moderna foi fazer a vida humana mais científica, nossa tarefa como pós-modernos consiste em humanizar a ciência. 

EDUARDO CESAR MAIA, jornalista, mestre em Filosofia e doutorando em Literatura.
JORGE ROARO, filósofo e escritor.

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