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Elas são uma graça, essas mulheres-palhaças!

Cursos de formação teatral quebram barreiras de gênero que cercavam o mais conhecido personagem circense, levando atrizes a desenvolverem aptidões para a função

TEXTO Olivia de Souza

01 de Julho de 2012

Com cinco anos de atuação, a Cia Animé criou a banda As Levianinhas

Com cinco anos de atuação, a Cia Animé criou a banda As Levianinhas

Foto Lana Pinho/Divulgação

Quando você pensa num palhaço, o que primeiro lhe vem à mente? Provavelmente, a imagem de um homem, trajando roupas coloridas e acessórios exagerados, sapatos excessivamente grandes, rosto completamente pintado de branco com detalhes em vermelho, e – sua marca registrada – o nariz de bolinha. Difícil fugir do estereótipo que teve como principais ícones desde a figura do Bozo, sensação da televisão brasileira durante a década de 1980, até o Ronald McDonald, representante da famosa rede de fast-food norte-americana. No entanto, um dos personagens mais simbólicos do universo circense vem tomando diferentes configurações ao longo do tempo e, frente às mais variadas e modernas formas de entretenimento, busca novas maneiras de se (re)conectar ao seu público.

O modelo de organização dos circos no Brasil do final do século 19 e meados do 20 era marcado pela forte tradição das famílias circenses, colocando a mulher quase sempre como assistente de picadeiro ou em números que exploravam seu corpo e a sensualidade. “Na história do circo e dos espetáculos, as mulheres sempre foram identificadas com as atividades que as ligasse ao corpo e à beleza corporal. Esse papel reflete a visão que se tinha da mulher na sociedade, assim como o anseio dos homens para vê-las no espetáculo. Dessa forma, seus papéis representavam geralmente a aristocracia, como cavaleiras, dançarinas ou acrobatas. Esses atributos físicos e a destreza da mulher eram muito desejados no espetáculo. Situação incompatível com a origem da personagem palhaço, que representava o bruto, o grotesco, o rude e desengonçado”, aponta a pesquisadora Sarah Monteath, esclarecendo que, a partir da década de 1970, com a explosão de escolas e cursos formadores, ganhou força o movimento de mulheres palhaças.

Essa nova vertente sai do tradicionalismo do circo para abraçar outras formas de representações cênicas, em maior conexão com o teatro. O palhaço moderno, contemporâneo, também conhecido como clown, teve seu desenvolvimento na escola do mímico francês Jacques Lecoq (1921-1999). Para ele, o palhaço não é nada mais que ele mesmo como ser humano, com todos os seus defeitos e virtudes, características que, por trás do nariz vermelho e da fantasia (código que inicia a brincadeira), se tornam exarcerbadas, “dilatadas”. “Todos temos um clown dentro de nós, a questão é encontrar o caminho até ele”, comenta Lecoq, em uma de suas frases mais célebres.

Tradição recente no Brasil, o boom de mulheres palhaças teve início na década de 1990, com o surgimento do primeiro grupo do país, As Marias da Graça, no Rio de Janeiro, que fundou, em 2005, o primeiro festival de comicidade feminina, Esse Monte de Mulher Palhaça.

No Recife, as primeiras palhacinhas surgiram no Doutores da Alegria, com quase uma década de atividades em Pernambuco. Contudo foi através da Cia Animé que os espetáculos começaram a despontar. Criada em 2007, pelas atrizes Nara Menezes (Aurhelia) e Enne Marx (Mary En), a companhia tem como principal foco de trabalho estimular a formação da linguagem do palhaço através de oficinas e produções teatrais e musicais. Em 2010, Juliana de Almeida (Baju) e Tâmara Floriano (Tan Tan) se juntaram à companhia, formando a primeira banda brasileira de palhaças. Com uma base sólida de pesquisa e trabalho, As Levianas, que já possui três espetáculos em seu currículo, transita tanto pela poesia e decadência das divas da música, a exemplo de Edith Piaf e Nina Simone, como também passeia pelo universo infantil do pocket show As Levianinhas.

“O trabalho é sempre desenvolvido a partir do nosso repertório individual. Não tem um diretor, somos nós quatro produzindo e criando, consolidando nossa base, que pode correr por vários universos. Essa é uma coisa muito simples dentro do grupo. Pesquisamos músicas antigas, consideradas bregas, mas que hoje em dia são tidas como cult, kitsch, elegantes. Já o infantil é a base do palhaço. A partir do repertório é que a gente cria o espetáculo. Primeiro é a música, depois são as costuras, as gags (acidentes cômicos), as brincadeiras e a inclusão do público”, explica Enne.

MASCULINO E FEMININO
A divisão entre palhaçaria masculina e feminina divide opiniões. Há correntes que defendem a importância de se diferenciar palhaços por gênero, afirmando que existem especificidades de humor em cada um. Outras defendem a figura do palhaço “unissex”, enaltecendo o trabalho do ator ou da atriz em cena. Para Nara Menezes, é impossível negar a existência de uma mulher por trás da figura do palhaço, a partir do momento em que se colocam sentimentos e valores próprios para compor esse universo lúdico. “Você monta um universo a partir das próprias referências, então, não tem como dizer que não há uma pessoa ali atrás que tenha sexo.”

A ausência de referências femininas num universo tão lapidado pela figura do homem consiste em um dos principais embates na preparação das palhaças, que se reflete no tipo de humor explorado, na forma de se movimentar, nas gags. Mas, por ser tradição recente, essa arte possibilita entre elas uma maior exploração da linguagem, passando por figurino e maquiagem, à descoberta da sua criança interior, da pureza, do ridículo que provoca o riso.

“Partindo do princípio de que todo mundo traz dentro de si energia feminina e masculina, é difícil falar dessa diferença, porque eu vejo essas características num palhaço como Chaplin, por exemplo. Mas acho que o humor da mulher palhaça se deixa levar mais para o mundo do mistério, trazendo uma sutileza maior desses sentimentos que estão no campo da subjetividade”, reforça a bailarina e jornalista Sílvia Góes, responsável por escrever o roteiro do espetáculo de palhaças Divinas, ao lado do jornalista Samarone Lima e do filósofo Marcelo Pelizzoli.

FORMAÇÃO
Foi através da parceria entre a Cia Animé e a Duas Companhias, da atriz Lívia Falcão, que teve início o curso Formação de Mulheres Palhaças do Nordeste, entre 2010 e 2011, depois da semente plantada durante uma oficina ministrada pela palhaça paranaense Adelvane Neia. Dividido em três módulos, de iniciação, aprofundamento e demonstrações públicas realizadas em Nazaré da Mata e cidades do entorno, o curso proporcionou imersão e troca de experiências entre 15 palhaças, num trabalho intenso de pesquisa e descortinamento de si mesmo, que resultou na atual configuração de Divinas, em que três palhaças, Zanoia (Lívia), Uruba (Fabiana Pirro) e Bandeira (Odília Nunes) viajam a pé em busca de um sonho, num espetáculo que, sem abrir mão do humor, é carregado de poesia e nostalgia.


Parceria entre a Cia Animé e a Duas Companhias resultou no curso Formação de Palhaças do Nordeste. Foto: Daniela Nader/Divulgação

“Descobrir nosso próprio palhaço e libertá-lo é uma coisa muito boa pra vida, independentemente de você ser artista ou não. Nos orgulhamos muito de dar continuidade a esse projeto. O grupo se mantém, estamos estudando, pesquisando, experimentando esse universo. As palhaças mais inexperientes estão crescendo, tomando corpo e consciência do seu trabalho”, aponta Lívia. Para as mais jovens, como Olga Ferrario (Musquita), a construção do palhaço é processo contínuo. “Esse caminho de descoberta da comicidade nunca se encerra, nem no homem, nem na mulher. O palhaço dialoga com o que está acontecendo dentro e fora dele, e assim vai se transformando, sempre”, afirma Musquita.

Engana-se quem pensa ser simples a descoberta do próprio clown. É trajetória dolorosa, de “se olhar pelo avesso”, assumindo falhas, feiuras, fraquezas e medos, resultando num universo belíssimo de subjetividade, a descoberta de sua criança interior. “Mas é claro que não é um processo apenas voltado para dentro. Nos cercamos de referências que admiramos, como Charles Chaplin e Fellini. Tudo que é poético é referência para o palhaço”, comenta Sílvia Góes, também conhecida como a palhacinha Sema.

FESTIVAIS
Em um de seus livros mais célebres, O segundo sexo, a escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), uma das principais referências do movimento feminista, trata, entre tantas questões que permeiam o universo feminino e a condição da mulher na sociedade, da sua inserção no mercado de trabalho, dominado pelos homens.


Espetáculo Divinas conta a história de três palhaças em busca de um sonho.
Foto: Rodolfo Araújo/Divulgação

Para a atriz Nara Menezes, esse é um aspecto que também perpassa a atividade da palhaça. “Como em qualquer campo de trabalho, existe o preconceito. É uma questão histórica que continua presente no universo dessas mulheres que foram ao circo e enfrentaram um universo machista, patriarcalista. O máximo que muitas delas conseguiam era ser o partner, o apoio do palhaço. Muitas, para exercer a profissão, tinham que se fingir de homens”, aponta. A esse respeito, sua colega de cena, Enne Marx, lembra o caso de Gena Leão, fundadora do Circo Grock, de Natal (RN). “Gena passou mais de 20 anos fingindo ser homem, vestindo-se de palhaço, era a única forma que tinha de atuar dentro do circo. Hoje, ela tem sérios problemas vocais por conta disso”, pontua.

O surgimento de uma rede consistente de festivais femininos acaba constituindo uma “linha de combate” ao preconceito e de afirmação da mulher, fortalecendo grupos, companhias e solistas, e oferecendo possibilidades para quem quer fazer parte desse universo. No segundo semestre deste ano, o Recife entra no circuito internacional com a realização do Palhaçaria, primeiro festival nordestino de comicidade feminina, organizado pela Cia Animé, e que traz para a cidade, além de palhaças brasileiras, cinco grupos da Argentina, Nova York, França, Alemanha e Dinamarca.

“A gente chama de ‘movimento’ porque, de fato, nos comunicamos muito internacionalmente. Nossa ideia é fortalecer essa rede, fechando o circuito aqui no Recife, em conexão com outros festivais internacionais, trazendo para a cidade esse espaço de prática de humor, que a gente acredita ser específico, feminino, abrindo espaço também para que se veja que, no Recife, está se produzindo e promovendo o debate e essa formação, com oficinas e fóruns de discussão”, afirma Nara. 

TRAJETÓRIA REMONTA AOS BOBOS DA CORTE


Imagem: Reprodução

A aparição do palhaço remonta aos bufões, ou bobos da corte, espécie de “funcionários” das cortes europeias, surgidos na Idade Média, cujo papel principal era entreter o rei e a rainha através de piadas. Desagradáveis e, ao mesmo tempo, cômicos, representavam a ponte entre o povo e a realeza, por apontar os vícios e as características da sociedade. Também cumpriam, geralmente, um papel de críticos da monarquia, pois muitas vezes eram os únicos que podiam questionar o rei sem sofrer nenhum tipo de retaliação.

O palhaço moderno, desajeitado, de feições pintadas e costumes exagerados – próximo daquele que conhecemos –, teve sua origem na commedia dell’arte, teatro popular de improviso, em países como França e Itália, entre o século 15 e 18. Foi dessa prática que se estabeleceu a hierarquia entre palhaços, interação que possibilita um maior jogo cômico entre eles. No topo dessa ordem, encontrase o palhaço Branco, que comanda a situação. Mais sério, racional, elegante, é a encarnação do patrão, do burguês intelectual. Abaixo dele vem o Augusto, a figura simples, cômica, ingênua, atrapalhada, geralmente enganada pelos outros palhaços. Sua aparência é a mais familiar: rosto parcialmente pintado, sapatos enormes, nariz em ponta vermelha e calças extremamente largas.

Palavra derivada do italiano pagliaccio, ou omino di paglia (homem de palha), palhaço é a representação do homem simples do campo que vai para a cidade grande e passa por dificuldades. Sem conseguir se manter, embriaga-se (a maquiagem branca ao redor da boca seria a espuma da cerveja) e, de tanto cair no chão, destrambelhado e bêbado, acaba com o nariz vermelho (principal característica). Ganha roupas dos outros, por não ter dinheiro para comprá-las, por isso o tamanho desproporcional das peças, pequenas ou grandes demais. Tais características, aliadas à sua comicidade, brincam com as desventuras pelas quais o ser humano passa – com a necessidade de encará-las com humor e boa-fé.

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