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O que os olhos não veem...

Primeiro espetáculo em Pernambuco a incluir audiodescrição, 'Leve' expôs lacunas do senso comum sobre a acessibilidade

TEXTO Christianne Galdino

01 de Junho de 2012

Foto Breno César/Divulgação

Quando um espetáculo é classificado como “livre”, imediatamente acreditamos que a obra atende todas as pessoas, sem distinção. Esse é um pensamento comum entre artistas e produtores, mas muito ingênuo em tempos de acessibilidade. Uma palavra que, apesar de ser recorrente nos discursos culturais dos últimos anos, ainda carece de estudo e aplicação abrangentes para fazer jus ao seu real significado. Isso nos leva a reflexões sobre o entendimento de outro termo muito mencionado e pouco discutido: o público.

“O espetáculo de vocês é para todos?”, perguntou a atriz Andreza Nóbrega. Prontamente, Maria Agrelli e Renata Muniz responderam que sim, pensando que Leve, obra que marca a estreia da dupla na criação coreográfica, não tem censura, e por isso é acessível a todos. Aos poucos, as artistas foram descobrindo que o significado do nome da peça vai muito além. A cada explicação de Andreza, novas possibilidades se descortinavam, outros tipos de comunicação se apresentavam. “Nunca tínhamos pensado em acesso dessa forma. Na verdade, eu tinha até um certo receio das pessoas com deficiência, por causa da ideia estereotipada de que todos são agressivos. Agora, meu preconceito se desfez, e sei que surdos, cegos e outras pessoas com disfunção são público potencial de arte, sim. Aí me dei conta do quanto nós somos reféns da linguagem verbal ”, afirma Renata Muniz.

As bailarinas contam que a relação com esses públicos alterou a percepção delas, além de provocar uma sensação de integração e cidadania. “Hoje, consigo ver a dança dentro e fora, percebo o público em detalhes enquanto estou dançando. Trabalhar objetivando essas pessoas muda nossa forma de dançar. Quero sempre poder oferecer recursos de acessibilidade”, relata Maria Agrelli. Tal processo transformador ainda é novidade nos palcos de Pernambuco. Leve foi o primeiro espetáculo de dança do estado a utilizar a audiodescrição, em 2010, no Festival Palco Giratório Recife, evento do Sesc Pernambuco que, desde então, utiliza recursos que facilitam a aproximação do conhecimento. O projeto-piloto surgiu da iniciativa de Andreza Nóbrega que, naquela época, estudava a relação arte e inclusão para sua pesquisa no mestrado em Educação da UFPE, que acaba de concluir. Hoje especializada em audiodescrição, e mais experiente, ela montou a empresa Vouver Acessibilidade, com a amiga Liliana Tavares.

O ditado popular diz que o que os olhos não veem, o coração não sente, porém os depoimentos dos cegos que assistiram à Leve mostram exatamente o contrário, graças ao trabalho de audiodescrição – que não se trata de uma simples relato descritivo via aparelhos de tradução simultânea. O audiodescritor, como explica Andreza, precisa elaborar previamente um roteiro e discuti-lo com os artistas, para chegar aos termos mais adequados e também sistematizar um vocabulário de expressões-código para facilitar o processo, que é sempre feito em tempo real, em uma cabine próxima ao palco e com isolamento acústico. Essas palavras-chave são explicadas ao público antes de cada apresentação em um procedimento denominado notas proêmias.

“Nesse momento, fazemos uma espécie de glossário com termos relativos à dança contemporânea, damos referências sobre os artistas e também sobre o teatro onde acontece a apresentação. Ainda antes do espetáculo começar, realizamos um tour tátil, para que eles toquem no cenário, figurinos, objetos cênicos e possam identificar cada intérprete”, detalha a audiodescritora de Leve, que também foi responsável por convidar intérpretes de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) para participar da temporada do espetáculo. Os roteiros de audiodescrição são bastante objetivos, mas não deixam de acrescentar traços poéticos à obra ou ao tema tratado. Eles nunca são gravados antecipadamente, até mesmo porque nas artes cênicas cada apresentação é única.

Além de oferecer esses dois importantes recursos de acesso, o projeto das bailarinas incluiu também oficinas de “composição para o movimento”, tanto para os cegos como para os surdos “assistentes” de Leve. As aulas aconteceram na sede da Associação Pernambucana de Cegos (Apec) e no Suvag, lugar de referência no trabalho com os surdos; e a procura foi tão grande, que as bailarinas formaram até uma turma exclusivamente para as crianças da instituição. Mais uma vez, o resultado foi surpreendente e transformador, tanto para os alunos como para as duas bailarinas-professoras. “Percebi que a minha metodologia foi modificada a partir da vivência com os surdos, por exemplo, pois precisava ter os movimentos muito mais demonstrados do que quando o público é ouvinte”, conta Maria Agrelli.

“Todo esse projeto e o intenso convívio com os cegos e os surdos alteraram e enriqueceram muito nossa vida, interferindo até na forma de criarmos em dança. Não consigo mais deixar esse público fora do meu processo criativo”, completa Renata Muniz. Bailarinas, audiodescritoras e intérpretes de Libras sabem que ainda falta muito para a acessibilidade ser mais que uma palavra da moda e para que o exemplo de Leve deixe de ser exceção e vire regra, porém todos concordam que essa experiência abriu horizontes e mudou definitivamente a sua relação com o público. Agora aprenderam que há muitas maneiras de se assistir a um espetáculo, e que todos os sentidos são convocados na fruição artística, basta que prestemos atenção a eles. 

CHRISTIANNE GALDINO, jornalista e professora de dança.

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