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Slow Science: Contra a produção serial do saber

Surgido na Alemanha, em 2010, movimento que discute a sobrecarga de atividades acadêmicas pouco repercute no Brasil, mas expõe equívocos do processo de pesquisa nas universidades do país

TEXTO Fabiana Moraes

01 de Maio de 2012

Imagem Pedro Melo

A imagem clássica da linha de produção fordista, aquela em que uma série de trabalhadores bate um martelo sobre uma peça que mais à frente vai ser manipulada por outra fila de pessoas fardadas, apressadas e focadas no salário do final do mês, se contrapõe, simbolicamente, à ideia do intelectual que lança mão do tempo para maturar o pensamento. porém essa oposição, bem o sabem professores e pesquisadores, não só brasileiros, mas de outros países, há muito deixou de ser realidade: a constante chamada à ordem recebida pelos departamentos das mais variadas universidades, entidades de pesquisa e afins é prova disso. Funciona como na linha de produção: pesquisador escreve texto para revista, organiza provas, orienta alunos em mestrados e doutorados, participa de congressos, é chamado para bancas, coordena curso, pesquisador – acredite – até ministra aulas. Quem não consegue dar conta dessa realidade, que absurdo!, faça o favor de se ajustar ou não receberá incentivos (verbas). É uma medida que não atinge apenas professores e departamentos, mas alunos que deixam, por exemplo, de receber bolsas para fomentar seus estudos. Simples assim – mas não tanto.

O ato do pensar faz parte, hoje, do momento no qual ser como uma impressora multifuncional é o que torna sua sobrevivência possível. O produtivismo é a bola da vez, em detrimento de uma prática em que o esmero com o que está sendo levado ao conhecimento público fica em segundo plano. Termômetro disso é o enorme uso, entre pesquisadores, de um medicamento à base de cloridrato de metilfenidato, voltado a pessoas com déficit de atenção. Ele estimula o sistema nervoso central e suprime o sono, visto como um empecilho por quem tem que orientar, escrever artigos, participar de congressos e bancas, dar aulas...

Essa realidade é discutida num artigo, escrito no final de 2011, pela professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Maria Ester de Freitas, O pesquisador hoje: entre o artesanato intelectual e a produção em série, no qual lemos críticas duríssimas a respeito do “sistema de produção intelectual fordista”. “O professor-pesquisador-publicador-orientador é cada vez mais pressionado a ser um faz-tudo. Certamente, a sobrecarga de trabalho e o uso de seu tempo pessoal de férias e de finais de semana o tornam um apagador de incêndios, indo de um prazo a vencer a outro. A leitura e a reflexão, tão fundamentais no nosso métier, praticamente não encontram mais seu lugar em nossa rotina”, afirma.

No documento (disponível da internet), Maria Ester cita um movimento que causou certo burburinho quando foi lançado, em 2010, mas que, infelizmente, não ganhou mais voz e volume – ao menos no Brasil. O manifesto Slow Science, lançado na Alemanha, é curto e simples: nele, pede-se tempo para pensar e faz-se uma divisão marcada entre o tempo das coisas na internet (símbolo maior de nossa pressa) e o tempo das coisas na academia: “We are scientists. We don’t blog. We don’t twitter. We take our time”.

Professores de ampla atuação em suas áreas, Silke Weber (da pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco) e Ricardo Salles (da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/Unirio) veem o movimento com simpatia. Para Silke, o tema é importante, já que, de fato, há um mal-estar entre os pesquisadores em relação às demandas da produtividade. Já Ricardo diz que qualquer manifestação que se oponha à taylorização (sinteticamente, sistema no qual o trabalho está subordinado a determinados princípios e técnicas) do tempo e da vida intelectual é bem-vinda. Ele, no entanto, vê problemas na denominação do movimento. “É simpático, mas acho um pouco problemático. Pode passar uma impressão de movimento ‘alternativo’, sem comprometimento direto com melhores resultados científicos, que é o ponto em questão.”

DESCONFORTO
Gostando ou não do nome – inspirado em um movimento anterior, o Slow Food – , os dois professores participam do coro mundial que pede por menos correria – esta, acentue-se, institucionalizada, principalmente por órgãos como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), entidade do governo federal que foi procurada diversas vezes para compor esta matéria, mas que se eximiu da fala. Há dificuldades por parte dos pesquisadores, por exemplo, em adequar o que determina o órgão às lacunas encontradas no âmbito social. Significa dizer que são produzidos vácuos entre a produção acadêmica e o cotidiano, aquilo que se estuda e aquilo que se vive.

“Existe um desconforto dos pesquisadores para dar conta de demandas científicas e sociais”, reconhece Silke. Segundo ela, a Capes é a principal responsável por essa situação, na medida em que relaciona tempo e quantidade na atribuição de conceitos (leia no box). “É preciso não esquecer que tais critérios não são invenção dos burocratas, mas da própria comunidade acadêmica, especialmente daquela oriunda das ciências exatas e da natureza, cujo modo de produzir ciência é bem diferente das ciências humanas e sociais. Basta lembrar que são ciências paradigmáticas, o que não caracteriza as duas últimas.”


Imagem: Pedro Melo

A opinião da educadora reverbera um dos tópicos do artigo de Maria Ester de Freitas, no momento em que ela coloca que os mecanismos de avaliação e controle aos quais as pós-graduações estão submetidas não são criações de extraterrestres, mas de colegas presentes nos comitês e comissões científicas. “Parece-nos evidente que os métodos e os cronogramas do desenvolvimento de pesquisa em áreas como Biotecnologia, Arqueologia, Física, Medicina, Economia, Agronomia, Astronomia e outras variam significativamente, pois cada campo tem as suas singularidades. Portanto, se cremos que as formas de geração e divulgação de conhecimento são múltiplas e adequadas segundo a natureza das áreas de conhecimento, cremos também que a escolha taylorista de uma única e melhor forma de avaliar todas elas pode ter graves efeitos colaterais.”

MÉRITO CIENTÍFICO?
A adequação a um sistema de pontuação que premia a quantidade provoca situações que transitam entre o lamentável e o irônico. Uma delas é a dificuldade dos pesquisadores em confrontar as regras de uma entidade responsável pela liberação de incentivos que trazem melhorias para seus próprios nichos de estudo e conhecimento. Em relação à sua área de pesquisa, o historiador Ricardo Salles diz que essa realidade provoca a produção de um intrincado sistema de avaliações de duvidoso merecimento acadêmico. “Este se traveste em critérios de mérito científico em que o grande prêmio, ao menos para 80% da área, é viajar para o exterior, onde pouquíssimo se estuda sobre História do Brasil, para produzir... História do Brasil. Ainda temos que saber duas línguas estrangeiras para estudar, volto a repetir, na maioria dos casos, História do Brasil. Patético.”

Outras práticas também lamentáveis e comuns, no ambiente acadêmico, encontráveis nas mais diversas áreas de pesquisa, evidenciam as estratégias desenvolvidas para que professores/pesquisadores não fiquem na lanterna do campeonato intelectual. São o que Maria Ester de Freitas chama de “comportamentos predatórios”: “conluios espúrios para publicação, alianças estratégicas do tipo ‘eu faço, ponho o seu nome; você faz, põe o meu nome’, roubar ou plagiar ideias de colegas e alunos, obrigar orientandos a apontar coautorias indevidas ou nomear indevidamente o orientador como primeiro autor etc.”

Como se vê pelas questões levantadas, dar conta da roda-viva produtivista provoca problemas que colocam na berlinda a própria geração de conhecimento. O debate para se repensar os critérios classificatórios parece urgente, embora a pequena repercussão interna de movimentos como o Slow Science demonstre a dificuldade dessa empreitada. Para Ricardo Salles, é preciso discutir abertamente, fazer seminários e parar a azáfama intelectual. A última saída é, segundo ele, “dar de ombros.” Silke Weber afirma que a correria (“mal se conclui um texto, há outro engatilhado”) não pode eclipsar o imprescindível rigor acadêmico – é nessa perspectiva que o pesquisador precisa se guiar.

A produção intelectual é um acumulado ao longo do tempo e sempre reatualizado, mas, aqui, esse conjunto só vale três anos – o tempo de avaliação dos programas pela Capes. Logo em seguida, é descartado, e então está aberta a nova temporada de caça”, escreve Maria Ester no mencionado artigo, colocando que, nesse sistema em que o passado é totalmente invalidado, somos “condenados a ser desmemoriados para alimentar um monstro sempre faminto”.

SISTEMA DE AVALIAÇÃO
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) responde por 55% das bolsas de mestrado e doutorado no Brasil. Ao lado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), esse número sobe para 85%. O órgão possui duas formas de avaliação dos programas de pós-graduação brasileiros. É realizado um acompanhamento anual dos cursos, bem como uma avaliação trienal, na qual se mede o desempenho dos programas e cursos que integram o Sistema Nacional de Pós-graduação (SNPG). Aqueles que apresentam maior número de trabalhos publicados e defesas de dissertações e teses, por exemplo, marcam mais pontos dentro de uma escala que vai de 1 a 7. O critério vale, também, para os professores: quantas vezes ele é citado em artigos e quantas orientações realizou naquele período. Cursos que têm a maior pontuação recebem mais incentivos, como verbas para viagens, bolsas para que os alunos estudem integralmente, dinheiro para pesquisas. Para conseguir concorrer aos prestigiados conceitos 6 e 7, os cursos precisam oferecer doutorado. Caso a performance do curso caia, sua nota é rebaixada e, consequentemente, os benefícios são menores. 

FABIANA MORAES, jornalista, mestre em Comunicação e doutora em Sociologia.

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